247 – A insatisfação dos norte-americanos com o custo de vida se tornou um dos principais desafios políticos do presidente Donald Trump às vésperas das eleições legislativas de 3 de novembro. Apesar dos indicadores positivos de crescimento econômico e emprego, a persistência da inflação, a alta dos combustíveis e o encarecimento do crédito ampliam o descontentamento dos eleitores, que associam parte das dificuldades financeiras às políticas adotadas pela Casa Branca.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, as eleições de meio de mandato, que definirão se o Partido Republicano continuará controlando o Congresso dos Estados Unidos, ocorrem em um cenário de crescente ceticismo sobre a economia. Embora Trump não esteja diretamente na disputa, suas decisões comerciais e a guerra contra o Irã estão no centro das preocupações de parte do eleitorado.
O pessimismo aparece nas pesquisas de confiança do consumidor, que registraram uma deterioração geral desde o início do segundo mandato de Trump, em janeiro de 2025. Os levantamentos mais recentes, entretanto, apresentam resultados diferentes.
Enquanto o indicador do Conference Board registrou recuperação em outubro, o índice elaborado pela Universidade de Michigan ficou próximo de sua mínima histórica. A principal fonte de insatisfação é a inflação.
Mesmo abaixo dos níveis registrados em 2022, a elevação dos preços continua pressionando os orçamentos familiares, especialmente nos gastos com combustíveis, alimentação, energia e serviços essenciais. A situação se agravou depois dos ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, que desencadearam um conflito prolongado e provocaram aumentos nos preços internacionais dos combustíveis.
A guerra, que já dura oito meses, contribuiu para intensificar as pressões inflacionárias e comprometer a recuperação do poder de compra dos trabalhadores. Outro fator apontado por economistas é a política tarifária do governo Trump, que também contribui para a elevação dos preços.
A combinação entre as medidas comerciais e os efeitos econômicos do conflito no Oriente Médio ampliou as dificuldades enfrentadas pelas famílias. Salários deixam de acompanhar a inflação
Os dados sobre remuneração ajudam a explicar a percepção negativa dos eleitores. Durante parte do segundo mandato de Trump, os salários avançaram acima da inflação, permitindo uma recuperação gradual do poder de compra.
Essa tendência, entretanto, perdeu força ao longo de 2026. Segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos, tanto os preços ao consumidor quanto a remuneração média por hora acumularam crescimento de aproximadamente 5,5% desde janeiro de 2025.
Na prática, isso significa que os trabalhadores não registraram ganhos reais de poder aquisitivo desde o retorno de Trump à Presidência. Embora os salários nominais tenham aumentado, a elevação dos preços absorveu praticamente toda essa diferença.
A desaceleração do crescimento salarial também preocupa economistas, sobretudo porque os custos de serviços essenciais continuam elevados. O resultado é uma economia que apresenta indicadores agregados favoráveis, mas oferece pouca sensação de melhora financeira para parte significativa da população.
Economia cresce 3,4%, apesar do pessimismo O contraste entre a percepção dos consumidores e o desempenho econômico aparece nos números mais recentes da atividade produtiva.
A economia norte-americana cresceu a uma taxa anualizada de 3,4% no último trimestre, registrando seu melhor desempenho de 2026. O resultado foi sustentado principalmente pelo consumo das famílias de renda mais alta e pela expansão dos investimentos empresariais.
O mercado de trabalho também permanece relativamente resistente. A taxa de desemprego ficou em 4,2% em setembro e não ultrapassou 4,5% durante cinco anos consecutivos, uma sequência inédita.
Embora as contratações tenham perdido intensidade e recém-formados enfrentem dificuldades para encontrar oportunidades, as empresas não estão promovendo demissões em massa. Os pedidos semanais de auxílio-desemprego permanecem próximos dos menores níveis registrados em 57 anos.
O Conference Board também identificou uma melhora na avaliação dos consumidores sobre a disponibilidade de empregos em outubro, indicando que a percepção sobre o mercado de trabalho é menos negativa do que a avaliação geral da economia. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, destacou essa diferença durante entrevista à CNBC na semana passada.
“As pesquisas com consumidores podem parecer um pouco pessimistas, mas o comportamento do consumidor está bastante sólido”, afirmou. Bessent também defendeu os resultados das medidas econômicas adotadas pelo governo Trump.
“O comportamento das empresas está, na verdade, bastante sólido, e acho que, com a política tributária, a política comercial, a política energética e a política regulatória, temos uma combinação muito boa.” Inteligência artificial impulsiona investimentos, mas gera preocupações
Outro elemento importante para o crescimento econômico norte-americano é a expansão dos investimentos em inteligência artificial. A demanda por infraestrutura e tecnologias relacionadas à IA contribuiu para impulsionar o mercado acionário e elevar os investimentos empresariais, que cresceram a uma taxa anualizada de 12,7% no último trimestre.
Os principais índices das bolsas dos Estados Unidos acumularam dezenas de recordes ao longo de 2026, movimento frequentemente destacado por Trump em seus discursos. A valorização das ações beneficiou milhões de norte-americanos que possuem investimentos financeiros e contas de aposentadoria vinculadas ao mercado.
Entretanto, os ganhos foram distribuídos de maneira desigual, uma vez que as famílias de maior renda concentram uma parcela desproporcional dos ativos. O aumento do patrimônio desses grupos ajudou a sustentar o consumo e, consequentemente, o crescimento econômico, mesmo diante das dificuldades enfrentadas por famílias de menor poder aquisitivo.
A dependência dos investimentos em inteligência artificial, porém, passou a despertar preocupações sobre a sustentabilidade dessa expansão. Resultados financeiros divulgados por empresas como Amazon e Intel aumentaram as dúvidas sobre o ritmo de crescimento dos gastos com a tecnologia.
A reação dos investidores provocou quedas expressivas em índices como o Nasdaq Composite, indicando maior cautela em relação às perspectivas do setor. Economistas e autoridades monetárias também apontam que a demanda associada à inteligência artificial pode contribuir para pressões inflacionárias, acrescentando outro desafio à condução da política econômica.
Juros elevados dificultam compra da casa própria A persistência da inflação levou o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, a adotar uma política monetária mais restritiva.
Em setembro, a instituição elevou a taxa básica de juros e há expectativa de um novo aumento em dezembro, em uma tentativa de conter a inflação, que permanece acima da meta de 2%. O presidente do Fed, Kevin Warsh, classificou a estratégia como um “remédio monetário”, defendendo que o controle dos preços pode ocorrer sem a necessidade de “atrapalhar o funcionamento da economia e deixar as pessoas desempregadas”.
O aumento dos juros, entretanto, também encarece empréstimos e financiamentos, pressionando famílias e empresas. No mercado imobiliário, as taxas das hipotecas de 30 anos ultrapassaram 7%.
Somadas à oferta limitada de imóveis e aos preços elevados das residências, essas condições tornaram a compra da casa própria inacessível para muitos norte-americanos. O encarecimento do crédito representa mais um fator de insatisfação em um momento no qual os eleitores avaliam os resultados da política econômica do governo.
Eleições colocarão à prova a política econômica de Trump A votação de 3 de novembro será um importante teste político para o presidente norte-americano, especialmente porque o Partido Republicano busca preservar sua maioria no Congresso.
O desempenho econômico oferece argumentos favoráveis ao governo, como a expansão do Produto Interno Bruto (PIB), o desemprego relativamente baixo e os investimentos em novas tecnologias. Entretanto, esses resultados convivem com uma percepção negativa sobre o custo de vida.
A diferença entre os indicadores macroeconômicos e a experiência cotidiana das famílias representa um desafio para os republicanos. Enquanto os ganhos no mercado financeiro beneficiam principalmente os grupos de renda mais alta, a inflação e os juros elevados afetam diretamente despesas recorrentes de milhões de eleitores.
Brasil 247