O Amazonas é o maior rio do mundo em volume de água e um dos maiores em extensão - ele lança, a cada segundo, uma média de 210.000 metros cúbicos de água e tem aproximadamente 6.992 km de comprimento, desde a nascente nos Andes até a foz.
Além disso, concentra uma enorme quantidade de sedimentos (fragmentos de rocha que compõem o solo). Segundo a ONG Conexões Amazônicas, o rio exporta a maior carga (31 toneladas ou cerca de 44%) do total de sedimentos que chegam aos oceanos.
Esse volume chamou a atenção do engenheiro de produção Michael Carvalho, que contou com a ajuda da Unidade Embrapii Senai Cimatec - centro de educação com atuação no desenvolvimento de soluções tecnológicas e pesquisa aplicada para a indústria - na elaboração de um novo produto voltado para a construção civil. “No Norte do Brasil, o custo Amazônia mais o desperdício encarece as obras. Minha ideia foi criar algo a partir dos recursos disponíveis aqui para otimizar o custo da construção”, diz Carvalho, morador do Amapá.
Ele conta que, na busca pelo melhor material, chegou, em 2021, aos resíduos e rejeitos minerais do rio Amazonas. “Além de ser um material que a gente encontra em todo o rio, o quantitativo que ele tem é muito maior do que qualquer outra produção mineral no Brasil. Só a reposição anual que a natureza faz equivale a 1,2 bilhão de toneladas”, indica. O engenheiro complementa que, devido a essa grande quantidade, os sedimentos se tornaram um gargalo, tendo como consequências o assoreamento dos rios da Amazônia - processo intensificado com a mudança climática -, o encarecimento dos produtos na região, a dificuldade de navegação, o aumento do risco de acidentes e os prejuízos à vida marinha. “Decidi pegar esse passivo ambiental e criar uma formulação de uma argamassa mais sustentável. Inclui também rejeitos da mineração, outro problema na região. A combinação deles tecnicamente deu resultados, mas era preciso ter uma comprovação científica. E foi aí que a Unidade Embrapii Senai Cimatec entrou, em 2024”, detalha Carvalho.
Nilson Amorim, pesquisador da Embrapii e líder técnico do projeto, acrescenta que a formulação inicial tinha 12 componentes. “O Michael tinha feito uma mistura de forma empírica. Aqui na unidade, reduzimos para nove componentes, para otimizar o produto e conseguir atender aos requisitos técnicos normativos”, destaca. Deste processo, saíram 29 formulações. Todas passaram por ensaios mecânicos, de absorção de água, de decomposição e térmicos, e os dados resultantes deles foram inseridos em uma base estatística. Ao final, a metodologia apresentou três fórmulas, que foram validadas nos laboratórios da entidade. Todo o trabalho levou cerca de um ano. Argamassa da Mazodan Laboratório & Produtos Cimentícios promete ser alternativa mais sustentável aos produtos disponíveis no mercado Divulgação Argamassa polimérica A argamassa polimérica resultante, criada para aplicação no assentamento de blocos e tijolos em paredes, é, de acordo com seus desenvolvedores, quatro vezes mais resistente que a argamassa comum, e mil quilos dela substituem 20 toneladas de argamassa cimentícia tradicional, gerando uma economia de cerca de 50%. Além disso, ela foi aprovada em ensaios adicionais de desempenho - de corpo mole e lançamento de objetos -, conduzidos de acordo com as normas vigentes.
Em testes de emissões, complementa Gleice Maria de Araújo Ribeiro, professora do Cimatec que fez seu doutorado sobre o produto, o resultado foi bastante satisfatório: 0,66 kg de CO2 equivalente por metro quadrado. “Testamos também uma argamassa industrializada e uma feita no canteiro de obras. Essas registraram 5,37 e 4,04 kg de CO2 equivalente por metro quadrado, respectivamente”, aponta. E ela continua: “Outras vantagens são que trata-se de uma argamassa pronta para uso, ou seja, sem a necessidade de mistura, dispensando betoneira, água, cimento ou areia nos canteiros de obra, e que pode ser comercializada em bisnagas, proporcionando menos desperdícios, menor geração de resíduos e um local de trabalho mais limpo e organizado”. Com os bons resultados obtidos, Carvalho criou a construtech Mazodan Laboratório & Produtos Cimentícios. A argamassa já tem uma patente aplicada e, no momento, atende ao mercado local. Contudo, o projeto está sendo escalonado com a criação de uma fábrica no Amapá. A expectativa é que a produção em alta escala seja iniciada em janeiro de 2027. Junto a isso, a empresa está em conversas com o governo para que o novo produto faça parte do Minha Casa, Minha Vida. “Já conseguimos com o Ministério do Desenvolvimento Regional recurso para montarmos a primeira casa protótipo com uso de materiais sustentáveis”, adianta Carvalho. “Queremos que a nossa argamassa seja integrada às construções governamentais e também beneficie todo o mercado”, finaliza. Mais Lidas
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