Missão busca espaço fora do bolsonarismo após revés

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Fonte da notícia: Valor Valor

Jorge Chaloub: “A ‘avalanche’ do PL funciona como uma barreira para partidos mais à direita, e esse é o problema do Missão” Divulgação/UFJF Após uma estreia eleitoral abaixo das expectativas, o partido Missão, criado a partir do Movimento Brasil Livre (MBL), começa a discutir uma reformulação de seu projeto político. Sem alcançar a cláusula de barreira e diante do predomínio do bolsonarismo entre os eleitores de direita, a legenda fundada em 2025 busca ampliar sua base e construir uma identidade própria. Nas eleições deste ano, o Missão lançou Renan Santos à Presidência e outros 520 candidatos, mas elegeu apenas dois representantes, ambos por São Paulo: Kim Kataguiri, que exercerá seu terceiro mandato na Câmara, e Rafa Minato, eleito pela primeira vez para a Assembleia Legislativa. Santos ficou em quarto lugar na disputa presidencial, com 2.675.887 votos, cerca de 2,2% dos válidos. Como mostrou o Valor, a sigla pretendia alcançar a cláusula de desempenho e eleger oito deputados federais, sendo quatro no Sudeste, dois no Sul e dois no Nordeste. O resultado deixou o partido sem acesso aos recursos e ao tempo de propaganda assegurados às legendas que superam a cláusula de desempenho. Após as eleições, Renan Santos reconheceu erros na estratégia eleitoral. Em transmissões do MBL no YouTube, disse sentir-se “fracassado” por não ter conseguido eleger outros deputados federais para atuar ao lado de Kim. “Não é que a gente não se esforçou, não é que a gente não tentou, a gente só estava errado.” Segundo Santos, o partido superestimou a capacidade de converter audiência nas redes sociais e votos à Presidência em apoio aos candidatos ao Legislativo. Também atribuiu o resultado à concentração de votos no PL, às dificuldades financeiras das siglas menores e à preferência por políticos com forte presença digital. Procurado, Santos não concedeu entrevista. Na semana passada, ele disse ao portal UOL que a disputa pelo eleitorado de direita com o bolsonarismo fracassou e defendeu a construção de um campo político próprio, afastando qualquer aproximação com a esquerda. O ex-candidato condicionou sua permanência na política ao sucesso desse projeto e descartou uma fusão partidária, admitindo até encerrar a legenda caso a iniciativa fracasse. Em uma transmissão no YouTube, afirmou que o bolsonarismo se tornou praticamente sinônimo de direita no país. “Ser de direita é ser bolsonarista”, declarou. “O que nós somos? Nós somos qualquer outra coisa.” A redefinição ocorre em meio ao segundo turno entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Após Santos passar a campanha do primeiro turno disparando críticas a ambos, o Missão adotou posição de neutralidade, deixando seus eleitores livres para escolher. A orientação contrasta com a de Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), que apoiaram Flávio, e Samara Martins (UP), que endossou Lula. No Instagram, Kim anunciou voto nulo, sem orientar os apoiadores. “O eleitor do partido Missão faz o que quiser”, afirmou. O deputado criticou a proximidade de Flávio com o Centrão e a política econômica de Lula, sobretudo o aumento de gastos e da carga tributária. Santos também rejeitou apoiar os candidatos, mas avaliou que uma vitória de Flávio poderia favorecer eleitoralmente o Missão, pelo possível desgaste do bolsonarismo em um eventual governo. Ressaltou, contudo, que isso não significava intenção de votar no senador. Segundo a mais recente pesquisa Quaest, 40% dos eleitores de Santos no primeiro turno declaram voto em Flávio agora, enquanto 14% migram para Lula, 3% estão indecisos e 43% dizem que vão votar em branco, anular o voto ou não comparecer às urnas. Esse último percentual é superior ao registrado entre os eleitores de Caiado (33%) e Cury (30%). O eleitor do partido Missão faz o que quiser [no segundo turno]” O ex-presidenciável também tem defendido atrair novos públicos, especialmente mulheres jovens e eleitores de esquerda, sem alterar suas posições. Em uma live, rebateu críticas à sua aproximação com esses grupos. “Eu não virei de esquerda, nada. Estou sendo eu mesmo”, afirmou. Santos considera essa ampliação essencial à sobrevivência do projeto. “Se ficarmos do mesmo tamanho, não vou gastar minha vida com isso”, declarou. Parte da reformulação deverá ser apresentada no segundo festival do MBL, marcado para 28 de novembro, em São Paulo, com debates reunindo militantes e lideranças. O Missão conseguiu avançar na construção de identidade política, em sua primeira eleição, mas esbarrou no muro estabelecido pelo PL, sigla que abriga a família Bolsonaro e ofuscou outras forças do mesmo campo, na avaliação de Jorge Chaloub, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pesquisador de movimentos de direita. “A ‘avalanche’ do PL funciona como uma barreira para partidos mais à direita, e esse é o problema do Missão”, diz. Apesar do “resultado decepcionante”, a legenda poderá se favorecer de uma eventual fragmentação do bolsonarismo em disputas internas, segundo o cientista político. “O Missão me parece ser uma coalizão alternativa que surgiu ao não aderir ao bolsonarismo, corrente que se tornou hegemônica no campo da direita depois de 2018. Como o futuro do bolsonarismo aponta para disputas internas e um movimento de institucionalização, isso pode abrir margem para uma coalizão mais radical à direita, com tendência a uma presença um pouco maior no médio prazo, sobretudo nas vagas proporcionais”, analisa. Para Chaloub, um dos desafios para o partido derivado do MBL é ampliar a aceitação de seu discurso “extremamente radical”, que costuma limitar os votos para o Executivo. Ele considera prematuro considerar que a criação de uma legenda - no momento em que o sistema força uma redução no número de agremiações - tenha sido um equívoco do grupo, mas considera que as chances de êxito eleitoral vão depender da capacidade de ampliar as bases, melhorar a composição das chapas e apresentar candidaturas competitivas. “O desempenho do Missão tem que ser avaliado pelo seu grau de radicalismo nos propósitos e na retórica. Quando existe um partido radical que mobiliza principalmente homens jovens e de classe média, a tendência é de uma limitação de votos. Uma coisa é você ser um movimento social que tem presença de membros em alguns partidos e elege candidatos. Outra coisa é construir um partido político para disputar a eleição nacional”, diz.

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