Os senadores americanos Ron Wyden, do Oregon, e Edward Markey, de Massachusetts, enviaram uma carta à Meta na quarta-feira exigindo que a empresa explique como seus óculos inteligentes Ray-Ban capturam imagens de pessoas na rua e se esse material pode ser usado para treinar inteligência artificial.
A carta cita uma investigação do site 404 Media, de outubro de 2025, e pergunta se quem foi filmado sem consentimento pode exigir a exclusão de seus dados. A reportagem do 404 Media mostrou homens usando os óculos para filmar e assediar trabalhadoras de casas de massagem nos Estados Unidos.
Os vídeos corriam em contas do Instagram com centenas de milhares de seguidores e somavam milhões de visualizações. Homens entravam nesses estabelecimentos em várias cidades e abordavam as funcionárias propondo programas sexuais, tudo registrado pelas lentes dos óculos da Meta.
O ponto central da carta é o destino dessas imagens. As próprias divulgações da Meta confirmam que o material processado pelos recursos de inteligência visual dos óculos pode ser retido e usado para treinar sistemas de IA, inclusive com a ajuda de revisores humanos.
“Usar imagens íntimas para o desenvolvimento de IA é, por si só, uma invasão de privacidade quando as pessoas retratadas não consentiram”, afirma a carta. Do rosto do transeunte ao treino da IA
Os óculos são a aposta da Meta para levar câmeras e assistentes de IA ao rosto das pessoas. O produto nasceu de uma parceria com a EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban, e virou vitrine da estratégia da empresa para disputar o mercado de dispositivos conectados.
No início deste ano, mais de 70 pessoas processaram a Meta alegando que suas imagens e vídeos íntimos foram expostos a trabalhadores contratados para rotular dados usados no treinamento de IA. Em março, jornalistas suecos revelaram que rotuladores no Quênia analisavam gravações não censuradas feitas com os óculos, incluindo cenas sexuais e violentas.
A Meta encerrou o contrato com esses trabalhadores menos de dois meses depois. Associações de rotuladores de dados no Quênia denunciam jornadas expostas a conteúdo sexual e violento e reivindicam melhores condições de trabalho.
As imagens retidas engrossam o acervo que treina os modelos de IA da Meta, insumo central para competir no setor. Os danos já atingiram pessoas identificáveis.
Em janeiro, a BBC ouviu uma mulher filmada com os óculos que disse ter recebido uma enxurrada de ligações depois que seu telefone foi publicado junto com o vídeo. Ela relatou ter sido perseguida no trabalho por homens que viram as imagens.
O que os senadores querem saber Wyden e Markey pedem respostas objetivas.
Querem saber quais salvaguardas a Meta mantém para impedir a captura, a divulgação e o processamento não consentidos de imagens íntimas. Perguntam ainda se a empresa avaliou o potencial de os óculos facilitarem o voyeurismo e a captura não consensual de imagens íntimas.
A pergunta decisiva é sobre apagamento. Os senadores querem saber se uma pessoa pode pedir a exclusão de seus dados biométricos e de outras informações capturadas pelos óculos.
Se a resposta for negativa, fica documentado que a Meta transforma corpos anônimos em dado comercial e transfere o risco a quem apenas passava pela rua. O que muda para o Brasil
A prática interessa diretamente ao leitor brasileiro. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica dados biométricos como sensíveis e exige consentimento específico ou outra base legal expressa para o tratamento.
A captura de rostos e corpos na rua, sem aviso, dificilmente se encaixa nessas hipóteses. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) tem poder para fiscalizar e aplicar sanções a empresas que tratam dados biométricos sem base legal.
A Meta há anos trata os óculos como se fossem um celular comum. A comparação com o iPhone ignora uma diferença básica.
Um telefone é apontado de forma visível por quem filma. Os óculos dependem de uma pequena luz para sinalizar a gravação, e usuários já a desligaram por meio de modificações, apagando o único aviso para quem está sendo filmado.
A carta não é uma intimação e depende da boa vontade da Meta para ser respondida. Se a empresa confirmar que retém e usa imagens de transeuntes para treinar IA sem oferecer exclusão, a questão deixa de ser sobre um aparelho e passa a ser sobre o direito de não virar dado.
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