A empresa chinesa Photon Matrix começou a vender por US$ 1.000 um aparelho que usa inteligência artificial para caçar mosquitos em pleno voo e queimar suas asas com um laser. O equipamento, batizado de Laser Mosquito Air Defense System, foi demonstrado na sede da companhia, em Changzhou, e abatia inseto após inseto com um estalo e uma breve chama azul ou verde.
O sistema junta um laser de Classe 4, a categoria mais potente da escala e normalmente restrita a aplicações industriais, a sensores do mesmo tipo usados em carros autônomos. Uma câmera com inteligência artificial reconhece pessoas e animais domésticos e trava o disparo, e um radar acompanha o que se move no caminho do feixe.
Cem mil pulsos por segundo O feixe sai em cerca de 100 mil pulsos extremamente fracos por segundo, e é assim que o aparelho localiza o alvo antes de concentrar energia.
Um iluminador infravermelho permite à câmera enxergar no escuro, com a casa dormindo. A Photon Matrix tentou antes a Classe 3, menos potente, e concluiu nos testes que ela não incapacitava o mosquito de forma confiável.
A saída foi subir de categoria e limitar cada rajada a um centésimo de segundo. O disparo curto basta para romper a asa, que absorve pouco calor e queima antes de o corpo do inseto ser atingido.
O equipamento ainda identifica superfícies que refletem o feixe e poderiam desviá-lo em direções imprevisíveis. Matar mosquito com laser não é ideia nova.
Há mais de uma década, a americana Intellectual Ventures apresentou uma cerca fotônica que identificava o inseto pelo bater de asas e o atingia com um feixe de baixa potência, vendida como ferramenta sanitária para áreas de malária. O protótipo nunca virou produto de prateleira.
A morte leva horas Wang Chuan, executivo-chefe e fundador da Photon Matrix, disse que os insetos sem asas levam horas e às vezes dias para morrer, com espasmos leves no chão.
Na demonstração, os corpos recolhidos tinham pernas e tronco intactos e nenhuma asa, e nenhum voltou a voar. A conta epidemiológica, ainda assim, fecha antes da morte do bicho.
Só a fêmea pica, e pica para retirar o sangue destinado aos ovos. Sem asas, ela não chega a ninguém, mesmo que siga viva por dias no piso.
O olho humano no caminho O mesmo feixe que derruba um alvo menor que uma ervilha concentra energia suficiente para ferir a retina de uma pessoa em menos de um segundo.
Lasers de Classe 4 costumam estar cercados de regras rígidas justamente por isso. Ken Barat, ex-responsável pela segurança de lasers no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, nos Estados Unidos, avaliou que as camadas de proteção da Photon Matrix podem tornar o produto seguro.
Barat alertou que um laser desenhado para focar em algo tão pequeno concentra muita energia em espaço reduzido. Nos Estados Unidos, fabricantes de dispositivos a laser podem vender depois de apresentar a documentação exigida à agência que regula alimentos e medicamentos, que não realiza testes próprios.
A Photon Matrix diz buscar licença na China, na Europa e nos Estados Unidos, e calcula que a autorização chinesa esteja próxima. O pedido de licença corre em paralelo à oferta do aparelho ao consumidor.
O produto entra no mercado antes do carimbo que a própria fabricante persegue. O mosquito brasileiro pica de dia
No Brasil, o alvo sanitário tem hábitos diferentes. O Aedes aegypti, vetor da dengue, da zika e da chikungunya, pica sobretudo de dia e se cria em água parada.
Um guarda-costas noturno de US$ 1.000 por casa não substitui a eliminação de criadouros nem a vigilância sanitária. A proteção alcança o interior da residência, não o terreno onde o mosquito nasce.
Mil dólares é preço de eletrodoméstico de luxo, fora do alcance da maioria das casas brasileiras que convivem com o inseto. Vender no Brasil exigiria importação e homologação por autoridade sanitária, e a empresa não anunciou plano de entrada no país.
Do mosquito ao drone A capacidade de rastrear e abater um alvo de poucos milímetros em movimento tem uso duplo.
Um sistema que acerta um mosquito em pleno voo pode, em tese, ser adaptado para drones pequenos, e a defesa contra esses aparelhos é hoje prioridade militar em vários países. A Photon Matrix mostra também o que a China faz com capacidade computacional.
Transforma modelos treinados em produto de prateleira, a um preço que parte da classe média consegue pagar, antes que reguladores de três continentes batam o martelo. Por ora, o que se vende é o fim do zumbido por US$ 1.000.
O que falta é a licença para o laser de Classe 4 funcionar dentro de um quarto com gente dormindo.
Cafezinho