Sem boca de urna, modelos independentes cravaram reeleição de Lula com menos de 4% das urnas apuradas

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Fonte da notícia: CBN CBN

Pela segunda eleição presidencial seguida, os institutos não fizeram pesquisa de boca de urna. Com a apuração eletrônica cada vez mais rápida, a primeira parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já traz mais votos do que seria possível ouvir na saída das seções.

Em 2026, o espaço foi ocupado por modelos de projeção, que leem os números parciais e estimam o resultado final. Na noite do segundo turno, neste domingo (25), alguns deles apontaram a reeleição de Lula (PT) com menos de 4% das urnas apuradas, cerca de uma hora antes de o petista passar Flávio Bolsonaro (PL) na contagem oficial.

As projeções chegaram a poucos décimos do resultado final: 51,79% dos votos válidos para Lula e 48,21% para Flávio. Comparação com 2022

O modelo de maior repercussão foi o do pesquisador Rodrigo Mahlmeister, divulgado pelo Estadão. Ele é doutorando em ciência política pela Universidade Duke, nos Estados Unidos, e mestre em ciência política e bacharel em economia pela USP.

O modelo compara cada seção apurada com o resultado da mesma seção em 2022 e calcula a mudança. A partir dessas variações, estima uma regra que leva em conta o perfil de votação, o porte do município, o estado e a região.

"Será que nos municípios maiores está seguindo uma tendência? Nos municípios menores está seguindo outra? E com base nessa regra eu faço uma projeção de todas as seções que ainda não foram apuradas", explica. Segundo ele, é isso que diferencia a projeção da contagem do TSE.

"A apuração do TSE é parcial, por isso é muito enviesada. Começa com os candidatos sempre muito distantes, daí se aproximam e daí as curvas cruzam.

No meu caso, eu estou sempre considerando 100% das seções." No primeiro turno, com cerca de 2% das urnas apuradas, o modelo já apontava Flávio com 47%, praticamente o resultado final.

Rodrigo diz que a precisão não o surpreendeu, porque havia testado o método naquela semana, simulando a apuração de 2022 com os dados de 2018. "Eu só estava confirmando o que já tinha acontecido nos testes."

No segundo turno, a projeção contrariou a expectativa do próprio pesquisador. "Eu estava muito convicto de que o Flávio tinha mais chances de ganhar nesse segundo turno.

E quando, logo no começo da apuração, o Lula começou a aparecer na frente, eu fiquei muito preocupado. Eu achei que tinha realmente alguma coisa de errado acontecendo no modelo."

O receio, diz, não era só com a própria reputação. "Eu tenho essa preocupação de divulgar para muita gente uma informação que pode não se confirmar e gerar uma frustração enorme."

Rodrigo planejava divulgar a primeira projeção com 0,5% das urnas apuradas, mas decidiu esperar até 2% e usar uma versão mais conservadora do cálculo, com Lula um pouco abaixo. O modelo indicou a vitória do petista com 2,42% das urnas apuradas.

"Olhando em retrospecto, eu percebi que devia ter confiado mais no método, deveria ter divulgado a projeção antes", afirma. Segundo ele, a estimativa original já colocava Lula com 51,8% nas primeiras parciais.

Comparação entre turnos Na plataforma Apuração Aberta, que usa outro método, a projeção apontou a vitória de Lula às 19h25, com apenas 3,6% das seções apuradas.

O resultado final ficou a 0,1 ponto do número projetado. O site foi criado pelo advogado Diogo Machado, que trabalha com análise de dados na área de importação.

"A iniciativa partiu de uma ansiedade individual de saber o resultado antes da apuração. Pensei: deve ter alguma forma de fazer uma projeção para entender que rumo isso vai dar antes de chegar no final", conta.

O sistema compara o voto em cada seção eleitoral no segundo turno com o resultado da mesma seção no primeiro turno. "Se um determinado candidato ampliou a sua vantagem em uma seção, em outra seção também, em outra seção também, esse padrão se mantém até o final", explica.

Antes de ir ao ar, o modelo foi testado com os segundos turnos de 2014, 2018 e 2022, para presidente e governador. Segundo Diogo, ele funciona mais cedo na disputa nacional por causa do tamanho da amostra.

"A perspectiva era de, com 4%, a gente ter certeza do resultado final. Nessa eleição, com 3,6%, ele já deu o diagnóstico."

Projeção do Datafolha Os modelos independentes são diferentes da projeção feita pelo Datafolha, que também antecipa o resultado durante a apuração.

O instituto não divulga estimativas de percentuais - o sistema acompanha os votos apurados por mesorregião e tipo de município em cada estado e, quando há dados suficientes, calcula que o candidato à frente não vai mais ser alcançado. É um método mais conservador: o Datafolha projetou a vitória de Lula quando cerca de 77% das urnas tinham sido apuradas.

Rodrigo avalia que a precisão depende de as eleições serem comparáveis. "Desde 2018, a gente tem praticamente as mesmas forças concorrentes, o PT contra Bolsonaro, e isso deixa o modelo muito preciso desde o começo." Quando ele simula a eleição de 2018 com os dados de 2014, o resultado é menos preciso.

Uma disputa com uma terceira via forte seria mais difícil, diz, porque não dá para saber para onde vão esses votos. Mesmo assim, ele acredita que as projeções devem se tornar comuns.

"Eu estou certo de que, em 2030, cada veículo vai ter a sua projeção e que as pessoas vão prestar muito mais atenção na projeção do que no resultado parcial."

Publicação Original CBN cbn.globo.com
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