A campanha do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que três apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL) acabaram mais atrapalhando do que ajudando o candidato no segundo turno. Com base em rastreamento de pesquisas internas ao longo de outubro, os chamados "camisas 10 às avessas" são nomes que, cada um a seu motivo, contribuíram para a derrota bolsonarista, na visão dos adversários: a ex-presidente da Caixa Daniella Marques com suas falas sobre o Bolsa Família, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) com seu vídeo sobre o Nordeste, e o influenciador Pablo Marçal com o treinamento para o debate.
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Moraes manda Flávio entregar passaportes e proíbe contato com Willer Tomaz Ex-presidente da Caixa Econômica Federal na gestão Jair Bolsonaro (PL), Marques entrou na campanha de Flávio como coordenadora econômica e chegou a ser alçada à condição de futura ministra da Fazenda em caso de vitória.
No meio do percurso, acabou se tornando coordenadora-geral do plano de governo e provável responsável por um Ministério da Cidadania, em desenho semelhante ao que ocupou a senadora Damares Alves (PL-DF). Duas de suas falas, no entanto, atrapalharam este processo, na leitura petista.
A primeira foi uma proposta de substituição gradual de parte dos servidores públicos por inteligência artificial (IA). "Precisamos reavaliar carreiras operacionais em tempos de evolução da Inteligência Artificial para enxugar a máquina pública", disse, durante o 25º Fórum Empresarial do Grupo Lide, em São Paulo.
O evento ocorreu em agosto, mas a gravação foi retomada após a vitória de Flávio no primeiro turno e usada à exaustão nas redes sociais, em especial em Estados com alto número de funcionalismo público e no Distrito Federal. A segunda, apontam petistas, foi a proposta de mudança do Bolsa Família, com uma regra de transição de dois anos para que beneficiários permanecessem no programa após conseguirem emprego formal ou abrirem uma pequena empresa.
Funcionaria como a regra de antecipação que existia no Auxílio Brasil, durante o governo Bolsonaro, explicou Marques em uma entrevista à CBN Salvador a uma semana do segundo turno. A proposta foi divulgada por adversários, no entanto, como uma possibilidade de restrição ao Bolsa Família.
A campanha de Flávio rapidamente correu para desmentir e o próprio candidato se prontificou a explicar, no debate da TV Globo na sexta-feira (23), que, caso o beneficiário perdesse o emprego ou fechasse a pequena empresa, poderia retomar o cadastro sem nenhum impeditivo. Na leitura petista, que procurou também explorar essa fragilidade, ficou estabelecida uma percepção de desconfiança de que a candidatura alteraria o benefício, em especial entre os usuários.
Anexado à campanha pouco antes do primeiro turno, Marçal foi ganhando protagonismo interno na parte de comunicação de Flávio. Segundo interlocutores bolsonaristas, foi ele o principal responsável pelo treinamento do candidato no debate da Band, primeiro confronto entre os dois, quando o senador adotou uma postura mais incisiva, interrompendo Lula e se colocando atrás do adversário enquanto ele respondia, fazendo gestos negativos e expressões de deboche.
O objetivo, explicaram aliados, era desconcentrar o presidente e tirá-lo da área de conforto. Segundo estrategistas do PT, no entanto, as pesquisas qualitativas mostraram em tempo real que o eleitor médio e os indecisos, principais alvos de ambos, consideraram a postura "agressiva" e desrespeitosa.
Nos trackings, o impacto foi imediato e até a campanha de Flávio reconheceu que, mais do que o petista ter ganhado o embate, foi o senador quem perdeu --tanto que, para a Globo, Flávio mudou: seguiu altivo, mas mais ameno. Já Nikolas acabou criando um impasse em uma região onde Flávio pretendia seguir conquistando espaço, o Nordeste.
Principal surpresa negativa para o PT no primeiro turno, quando Lula seguiu à frente, mas com um desempenho inferior em todos os Estados, a região foi alvo de um dos vídeos do deputado, uma das figuras políticas mais populares do país, conhecido por suas peças nas redes sociais. Divulgada na última terça-feira (20), o vídeo “O Nordeste que foi esquecido” mostrava cidadãos nordestinos dando depoimentos em frente a uma casa de taipa.
Após o cantor Rubel conseguir na Justiça a remoção do áudio, o conteúdo explodiu ainda mais: tornou-se um dos mais vistos no mundo neste mês, com mais de 160 milhões de visualizações, e foi amplamente elogiado por aliados de Flávio e até membros do centrão na região. De acordo com trackings petistas, no entanto, a peça teve efeito oposto.
Eles apontam que em muitas regiões, onde o bolsonarismo já não é tão forte, a obra foi vista como "estereotipada" desde o nome, mostrando uma realidade distorcida de Luís Eduardo Magalhães (BA), uma cidade próspera, e que não conseguiu se conectar aos eleitores pretendidos.
Após a apuração, um integrante do PT da Bahia citou que, mesmo na cidade, uma das poucas de maioria à direita no Estado, onde Flávio ganhou, Lula teve quase 25% de crescimento em relação ao primeiro turno, sugerindo uma ineficiência da gravação. Além disso, lulistas passaram a questionar por que de Flávio ter sofrido a virada também em Minas Gerais, terra de Nikolas, onde o deputado prometia votação recorde.
O Valor procurou os citados por meio das assessorias, mas não teve retorno até a publicação deste texto. Deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) em filmagem sobre o Nordeste feito durante o segundo turno da campanha presidencial
Reprodução/X - Nikolas Ferreira
Valor