Seal lembra tombo no palco em SP, revela o que ouve hoje e analisa mudanças na indústria da música: ‘não dá mais para ser medíocre’

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Mais de 30 anos depois de estrear no Brasil com um tombo no palco e a perna sangrando diante de uma plateia de cerca de 60 mil pessoas, Seal se prepara para quebrar um hiato de sete anos sem se apresentar no país. Ele volta, no final de novembro, com a turnê em que celebra os 30 anos de carreira, e passa por Rio de Janeiro (26/11, no Qualistage), São Paulo (28/11, no Nubank Parque), Curitiba (1/12, no Igloo Super Hall) e Porto Alegre (2/12, no Auditório Araújo Vianna).

'Digger': Tom Cruise brilha como bilionário inescrupuloso em sátira frenética de Iñárritu João Bosco: artista celebra a atualidade da parceria com Aldir Blanc: 'São canções comprometidas com o povo brasileiro' Aos 63 anos, o cantor britânico, que já esteve no Brasil diversas vezes — incluindo duas edições do Rock in Rio (2015 e 2019) —, revisita a trajetória iniciada nos anos 1990, fala sobre sua relação com o país e a música brasileira, incluindo a parceria com Paulinho da Costa e a expectativa para conhecer Seu Jorge, revela o que tem ouvido e analisa as transformações da indústria musical na era do streaming e das redes sociais. Veja, abaixo, os destaques da entrevista: O GLOBO — Em novembro, você retorna ao Brasil depois de sete anos sem se apresentar no país. Quais são suas expectativas para essa visita? SEAL — Com toda a sinceridade, mal posso esperar para voltar ao Brasil. Já faz tempo demais. Estava justamente conversando sobre isso durante um jantar com meus amigos. Meu amor pelo Brasil e pelo povo brasileiro é imenso. O amor dos brasileiros pela música é único, e estou convencido de que isso é algo com que vocês já nascem. A cultura é centrada em uma paixão pela vida de modo geral e, particularmente, pela música. Então, respondendo à pergunta, minha expectativa é mergulhar nisso. No palco e fora dele.

Ao celebrar mais de 30 anos desde o lançamento dos seus primeiros álbuns com esta turnê, o que mais te orgulha quando olha para a sua trajetória? Simplesmente o fato de que a música ainda se conecta com pessoas do mundo todo, mais de 30 anos depois. É algo que me toca profundamente e sou muito grato por isso. Quando estou no palco, tocando e cantando, e faço contato visual com alguém na plateia, consigo sentir, lá no fundo, que a pessoa está genuinamente emocionada, e não apenas curtindo o momento, isso me emociona e ainda me surpreende todas as noites, mesmo depois de todos esses anos. Poder passar a vida fazendo isso profissionalmente, como forma de pagar minhas contas, e ver que isso ainda se conecta com as pessoas da mesma maneira que acontecia décadas atrás, é o que mais me orgulha.

Seal no Rock in Rio 2019 Antonio Scorza/ Agência O Globo Hoje, quando você pensa nos anos 1990, qual lembrança mais se destaca? Sente falta de alguma coisa daquela época? Essa é uma pergunta difícil de responder. Os anos 90 passaram voando para mim. Mas posso contar uma lembrança específica que tenho do Brasil, da primeira vez em que fiz um grande show no país. Foi em 1992, em um festival chamado Hollywood Rock. Lá estava eu, correndo para cumprimentar umas 60 mil pessoas ou algo assim, quando tropecei em uma luz do palco. Bum! Caí e cortei a perna enquanto começava a primeira música do meu primeiro show no Brasil. Lembro que passei o show inteiro sangrando. Minha perna e meu ego levaram uma pancada enorme (risos). Mas também me lembro de ter sido uma experiência fantástica me apresentar em São Paulo pela primeira vez.

Galerias Relacionadas Se pudesse voltar no tempo, faria alguma coisa diferente? Não, na verdade não. Se eu caísse morto amanhã, não acho que olharia para trás com arrependimento. Apenas com gratidão pela trajetória que tive. Sinto que tive tudo o que sempre quis desta vida, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Seu Jorge fará a abertura dos seus shows no Brasil. O que você mais admira nele? Já se conheceram pessoalmente ou esta será a primeira vez? Estou ansioso para conhecê-lo. Ainda não tive esse prazer. Acho a música dele ótima e imagino que teremos muito em comum e muito sobre o que conversar. Meus amigos no Brasil falam muito bem dele. Tenho ouvido mais a música dele desde que anunciamos esses shows e estou ansioso para conhecê-lo pessoalmente.

Você tem ascendência brasileira por parte de pai. Se imagina explorando musicalmente essas raízes brasileiras em algum momento? Há algum artista brasileiro com quem gostaria de colaborar? Definitivamente existe algo na minha herança que me conecta ao Brasil. Não falo português, mas a música brasileira provoca algo em mim que não consigo explicar completamente. Eu não a processo intelectualmente, simplesmente a sinto, como se ela já fizesse parte de quem eu sou. Espero passar mais tempo aí, no futuro.

Quanto aos meus artistas brasileiros favoritos, tive a sorte de contar com um dos maiores músicos do mundo tocando em vários dos meus discos: Paulinho da Costa. Vamos lá. Ele é, sem dúvida, um dos maiores percussionistas da música moderna. Sim, é ele em “Crazy” e “Future love paradise”.

Festival do Rio: críticos do GLOBO indicam o que ver entre os 300 filmes da mostra Em uma entrevista de 2011, você disse que queria aprender português. Conseguiu aprender algumas palavras desde então? A música ajuda nessa missão? Não tanto quanto eu gostaria, sinceramente. Continuo dizendo a mim mesmo que a verdadeira solução seria morar aí durante seis meses e me obrigar a aprender de verdade. Estar cercado pela música ajuda — ela coloca o som da língua no seu ouvido antes mesmo de você entender as palavras —, mas ainda não consegui aprender.

A maneira como as pessoas consomem música mudou drasticamente com as plataformas de streaming e outras ferramentas digitais. Esse novo cenário da indústria musical influenciou seu trabalho de alguma forma? Como você se relaciona com as redes sociais? O mundo mudou e está mudando cada vez mais a cada dia por causa da tecnologia. Isso acontece de forma gigantesca na indústria da música. Pessoalmente, sinto falta da época em que tudo era mais simples. Um artista assinava um contrato com uma gravadora, recebia um adiantamento e ia fazer um álbum em algum estúdio residencial, passando três ou quatro meses nisso. No fim, você tinha algo que refletia aquele período. Então, dizia “Tcharam, aqui está meu álbum”, ele chegava às lojas e era ou não um sucesso comercial. Agora não é mais assim. As regras mudaram, então é preciso se adaptar.

Ao mesmo tempo, estes são tempos realmente empolgantes para a indústria musical. O que temos agora é uma verdadeira democracia, se quiser chamar assim, no que diz respeito aos artistas, porque temos essa incrível ferramenta de marketing e distribuição chamada internet. Hoje, existe uma selva de informações e conteúdos pela qual precisamos atravessar, e isso significa que você precisa ser excepcional. Não dá mais para ser medíocre. É preciso ser criativo, mais inteligente e se cercar de uma grande equipe. Claro, você pode escrever alguma porcaria e estourar. Isso sempre aconteceu. Mas o desafio é se manter.

Veja: Café Lamas, atingido por incêndio e fechado há quatro meses, já tem data para reabrir Seus filhos apresentam novos artistas a você? Sim. O namorado da minha filha vive me apresentando novos artistas e, na maioria das vezes, eles são uma porcaria. Então, questiono bastante o gosto musical dele (risos). Durante um tempo, meus filhos — que já não são mais crianças — ouviam o que eu chamava de “mumble rap”. Achei interessante por uns dez segundos, na maior parte dos casos.

Ironicamente, meus filhos gostam de muita coisa que eu também gosto, como AC/DC, Van Halen, Queen. É extraordinário que seja isso que eles escutem. E não fui necessariamente eu quem os apresentou, eles descobriram por conta própria. Essa é a beleza da música: o que é realmente bom resiste ao tempo e acaba chegando ao topo, e o que é descartável fica pelo caminho. A boa música sempre prevalece. Pode entrar e sair de moda, mas nunca desaparece de verdade.

Quais artistas estão atualmente tocando sem parar nos seus fones de ouvido? Deixe-me abrir minha playlist e eu digo. Certo. Tenho duas playlists que costumo ouvir. Em uma delas estão: “Les Fleur”, de Minnie Riperton; “Didn’t I”, de Darondo; “Walk On By”, de Dionne Warwick; “Anyone Who Knows What Love Is”, de Irma Thomas; “Feel Like Makin’ Love”, de Roberta Flack; “Easy”, dos Commodores; “I Just Wanna Stop”, de Gino Vannelli... Meu Deus, talvez seja melhor parar por aqui. Na outra playlist, estão artistas mais novos: Yebba, Lianne La Havas e Olivia Dean.

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