'Passei pela idade média, agora, vivo um renascimento', diz Giulia Gam após 12 anos afastada da TV para cuidar da saúde

'Passei pela idade média, agora, vivo um renascimento', diz Giulia Gam após 12 anos afastada da TV para cuidar da saúde - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Foram 12 anos afastada da TV. Período em que Giulia Gam precisou cuidar da saúde. A luta incluiu o desmame de um coquetel de medicamentos nos últimos 11 meses. Processo fundamental para que conseguisse virar o jogo e retomar as rédeas da própria vida. Vida que responde agora com vários frutos.

Eduardo Dussek. Cantor fala da convivência com o parkinson Deborah Colker: 'A morte não é o fim, e a arte ajuda a elaborar' | 'Busco a intensidade como um mostuito vai em direção à luz', diz a atriz O primeiro foi a volta aos palcos em “Senhora dos Afogados”, clássico de Nelson Rodrigues montado pelo Teatro Oficina. Depois, a novela vertical “O acerto de contas das gêmeas trocadas”, do Globoplay. Em breve, vem a série “Resposta ao tempo” (de Lícia Manzo e com direção artística de Luisa Lima), que protagoniza ao lado de Débora Bloch, Edvana Carvalho e Drica Moraes.

Em participação no videocast “Conversa vai, conversa vem”, que vai ao ar hoje, às 18h, nos canais do GLOBO no YouTube e no Spotify, a atriz de 59 anos passa a limpo a trajetória de quatro décadas dedicadas ao ofício e revela a principal motivação para se tratar: o filho, Theo Bial. Leia trechos da entrevista: Giulia Gam e Maria Fortuna na redação de OGLOBO Ana Branco Após 12 anos longe da TV, vive uma fase de retomada da carreira com reestreias no teatro e nas telas. Podemos dizer que é uma espécie de renascimento? Ia dizer isso. Passei pela idade média e agora vivo o renascimento. Estou me sentindo feliz com o que está surgindo, engatando uma coisa na outra. Nunca me senti tão em forma tecnicamente, emocionalmente e espiritualmente.

Você começou em teatro de grupo, com Antunes Filho, passou por Augusto Boal, Gerald Thomas, Zé Celso Martinez Corrêa. Se sentiu voltando às origens encenando peça com o Teatro Oficina? Não foi algo previsto ou consciente, mas porque me sentia à vontade com a turma. A gente sempre tem um pouco de medo do Oficina (risos). Porque é um terreiro com Exu assentado, uma energia muito forte. Não estava pensando em algo tão intenso. Mas foi o contrário. E veio esse resgate mesmo. Tinha 17 anos quando entrei numa companhia, é algo atávico em mim. De repente, estava ali, revendo a minha história com o grupo, reconhecendo pessoas.

Deborah Colker: 'A morte não é o fim, e a arte ajuda a elaborar', diz coreógrafa Thiago Lacerda: Ator fala da volta à TV, sobre o conceito de galã e conta como encara a paternidade Você fez "Cacilda" com o Oficina em 1998... Sim... E agora revi não só o grupo, mas o próprio Antunes. Porque o contraste com o Zé é abissal. E ainda tem o terceiro da tríade: Gerald Thomas. Brinco que Antunes é o jesuíta, quer catequizar naquele colégio interno, monastério, te poupar de tudo, 'no drugs, no sex, nothing'; O Zé é pagão, dionisíaco, antropofágico. E Gerald brinco que é o judeu... aí, é terrível, né? Ficou traumatizada? Fiquei. Adoro o Gerald, admiro, mas confesso que fiquei. Foi muito difícil o choque de estilos. Como não fiz formação, fui atrás dos diretores da minha época, que eram as escolas. Tinha a formação do Antunes e o primeiro corte foi com Gerald. A TV foi o contrário, me trouxe liberdade porque não me cobrava ideologia nenhuma. Me cobrava disciplina de um trabalho, mas era eu comigo, não tinha essa ideia de grupo.

'É como a força de um meme, coisas que fisgam', sobre novela vertical Você ficou 12 anos longe da TV, sua última novela foi 'Boogie oogie', em 2014, e quando volta, cai direto numa novela vertical, feita para celular, "O acento de conta das gêmeas trocadas". Como foi participar da criação de uma nova linguagem? Aceitei fazer a novela porque li o roteiro e gostei. Nunca tinha visto nenhuma, e foi bom porque não tinha preconceito. Achei até chique novela vertical. Preconceitos sempre existem. Teve contra o cinema, a TV. É algo feito para quem está a caminho de alguma coisa, e não parado em casa assistindo. É outra intenção, para outro público, com linguagem totalmente diferente, as histórias são básicas. Claro que não vai querer, que a pessoa reflita. É como a força de um meme, coisas que fisgam. Não vai substituir um olhar mais profundo, de reflexão, mas pode chegar em pontos interessantes.

Precisou adaptar sua maneira de atuar? Tem um minuto para sair de um estado emocional para outro e criar um gancho. Tudo é feito para prender a atenção. Quase não cabem duas pessoas no mesmo plano. Não dá para ficar muito de perfil, se não mostra só um olho. Em vez de ser o nosso olhar panorâmico, é um olhar literalmente vertical. Os cenários são para frente ou para trás, não pode abrir e mostrar um plano geral de uma casa. A interpretação tem que ser mais contida. Nesse registro, você desmaia para frente ou para trás, não pode cair para o lado. Soco e tapa, é tudo feito para cima ou para baixo.

'Resposta ao tempo', série que está rodando, tem quatro protagonistas maduras: Você, Débora Bloch, Drica Moraes, Edvana Carvalho, todas 50, 60+. Qual a importância disso? Fundamental, uma grande chance. Geralmente, no audiovisual, as histórias são de jovens, mulheres de 30 anos, no máximo 40 anos. Então, você acaba fazendo as mães interessantes ou menos interessantes. Se, aos 60, a mulher se condenava a cuidar dos netos, se aposentar se trabalhasse. A vida parava ali no que se conquistou aos 60 anos. Agora, estamos criando nossas histórias, continuando a vida ativa intelectualmente, fisicamente. E o audiovisual reflete isso.

'É barra pesada denunciar uma situação de abuso. Ou mesmo anunciar pra família, filhos...' A série vai tratar de temas sociais profundos como feminicídio e dilemas da maturidade feminina, etarismo, menopausa, ausência paterna, desejo...

A série é muito importante. Fundamental a gente discutir na TV o que estamos discutindo na vida. A TV sempre esteve caminhando junto com a sociedade. O dilema da minha personagem é a relação abusiva com o marido. Aliás, de certa maneira, a relação primordial de todas elas são relações abusivas masculinas. Não conheço mulher que não tenha passado por abuso psicológico, financeiro, físico, sexual. Essas histórias estão sendo colocadas também porque começou a ter leis de proteção das mulheres. É barra pesada denunciar uma situação de abuso. Ou mesmo anunciar pra família, filhos... Os mecanismos ainda não protegem o suficiente, ainda estão sendo vistos e revistos.

Carla Madeira: 'A vida real ficou insustentável', diz escritora Zélia Duncan. A cantora fala pela primeira vez do rompimenot com Rita Lee 'Eu e Marcelo (Anthony, que interpretava o marido) achávamos que não se retratou muito o lado do homem. Heloisa ficou de louca sozinha', sobre sua personagem na novela 'Mulheres apaixonadas' Na novela 'Mulheres apaixonadas' você fazia Heloisa, ciumentíssima, uma mulher que, como se dizia, "amava demais". O que ninguém falava é que ela sofria abuso psicológico do marido... Eu e Marcelo (Anthony, que interpretava o marido) achávamos que não se retratou muito o lado do homem. Heloisa ficou de louca sozinha. Eu e ela, porque as pessoas achavam que eu era ela. Essas relações tóxicas... ele provoca ela. Ela procura um cara que tenha o comportamento dele porque acredita que aquilo que é paixão. Mas ele também deixa ela insegura. Não necessariamente vai trair, mas provoca, desestabiliza ela de alguma forma. O jogo sempre é duplo, isso o Mada (Movimento das Mulheres que Amam Demais Anônimas) me mostrou lá em 2004. Aquele foi o primeiro momento em que se falou de um abuso psicológico, emocional. Agora, essa série vai falar de vários outros tipos de abuso. A 'culpa' por interpretar personagens intensas é sua ou de quem te escala? Acho que formei isso. Comecei logo com Julieta (personagem com que estreou nos palcos, aos 16 anos, no clássico de Shakespeare, dirigido por Antunes Filho) e depois, acreditei nisso. Não tive formação clássica no sentido de ter feito um conservatório em Paris, uma escola como a EAD. Mas trabalhei com os caras fortes. Era considerada uma atriz clássica, intelectualmente preparada. E vestia essa camisa. E foi o que aconteceu. Tinha um tipo mais europeu, o rosto redondo, não era uma femme fatale brasileira, morena. Era mais loirinha, grande, meio dinamarquesa. Entrei num perfil meio clássico. Tanto que em "Dona Flor" (minissérie de 1988) foi uma mudança grande.

Estreou como Julieta aos 16 anos, sob direção do rigorosíssimo Antunes Filho. Bem num momento em que estava descobrindo a vida, a liberdade...

Nem comecei a descobrir a vida (risos), fui descobrir mais para frente. Era a perfeita Julieta, tudo que o Antunes queria: virgem, mas com uma capacidade de construir uma personagem forte com ele. Foi um ano em que pude aprender técnicas teatrais... Mas era cobrada a ter uma postura intelectual forte, ler muito e ter opinião sobre as coisas. Sentiu impacto por um certo amadurecimento precoce? Muito! Causou danos incríveis. Tanto que vários atores do Antunes não continuaram suas carreiras, muita gente desistiu.

'Se vir a violência de Marlon Brando em "O último tango em Paris", os abusos do Bergman com Liv Ullmann. Fiz parte, era uma coisa meio sadomasoquista. O ator se jogava porque via aquilo como a maneira de evoluir' Mais traumas? Trauma. Porque queria desestruturar o ator. Não era só ele, era um pensamento da época. Tirar o ego do ator para que, então, sem vícios e mecanismos, ele se abrisse para uma coisa que fosse espiritual, e não um clichê ou uma técnica. Existia isso na TV: (Walter) , Avancini, Luiz Fernando (Carvalho) ou , depois, Fátima Toledo, mais radical. Os atores, coitados, tinham essa ideia... Se vir a violência de Marlon Brando em "O último tango em Paris", os abusos do Bergman com Liv Ullmann. Fiz parte, era uma coisa meio sadomasoquista. O ator se jogava porque via aquilo como a maneira de evoluir. Eu nem tinha nem ego ainda. Dava um primeiro beijo num cinema. Não tive tempo, mas era tão apaixonada por aquilo que tudo bem. Quando vieram os 19 anos, me deu um baque: "Será que é isso que quero fazer?". Gostava de medicina, tinha deixado a música... Mas foi curtir a vida também? Fui. Tive meu primeiro namorado, o Tony Bellotto. Me aproximei por causa do rock. Apareceu o disco "Cabeça Dinossauro", e mexeu comigo. Tinha ido para Berlim... vi aqueles caras com aquela atitude no palco... Falei: "É aqui que vai ser minha adolescência". Comecei a tocar baixo elétrico, virei uma group mesmo, a seguir a turma.

'Não me importava não ir em festas, via aquilo como missão divina. Era uma coisa de servir a Humanidade através do meu serviço de atriz' Mas voltou à profissão de atriz e, aos 24, já tinha trabalhado com Antunes, Boal, Gerald, Walter Salles (no filme "A grande arte"), Fernanda Montenegro (na peça "Fedra"). São oportunidades pelas quais uma atriz, talvez, tenha que esperar a vida inteira. Como se serviu dessas oportunidades depois? Como essas experiências tão precoces e o fato de ter trabalhado com diferentes diretores com métodos tão diferentes te forjaram? Ter feito personagens fortes cedo demais te rotulou ou te libertou para voar mais alto? O que me norteou nessa fase até os os 50... porque agora estou em outra adolescência, é o terceiro ato, o renascimento... (risos) Mas o que me guiou até ali foi um pensamento do que estou me libertando, graças a Deus... Quando Antunes falou que tinha sido aprovada no teste para Julieta, estava num movimento espiritual com minha mãe, que tinha ido para a Índia, conheceu um mestre.... Queria ser uma monge, atingir a iluminação. Aos 13 anos, já meditava.

Estava lembro de estar no ônibus, indo para o ensaio e falar com Deus: "Deus, como eu não vou poder te servir num ashram, vou te dedicar meu trabalho de atriz". Olha o compromisso que assumi! E levei isso a sério. Não me importava não ir em festas, via aquilo como missão divina. Era uma coisa de servir a Humanidade através do meu serviço de atriz. A pretensão era grande também (risos). Ia ser o "cavalo" para propagar as ideias humanistas. Não importava se gostava ou não do trabalho, era missão.

E missão que seguiu adiante. A Aline de "Que rei sou eu", novela de 1989, era apenas a namorada de Jean Pierre (papel de Edson Celulari), e só tinha duas falas: "Oi e tchau". Mas o seu carisma a transformou em tamanha protagonista que o nome da personagem foi recorde em batismos de bebês à época...

Na época, fiquei com ciúmes de verdade, assim como a personagem. Porque Jean Pierre começava a namorar a Natália do Vale, uma princesa da corte. Sabe que, um dia, cheguei lá e vi uma peruca horrorosa de nylon jogada... tenho uma coisa com cabelo, porque não tenho cabelo, tenho sempre inventar pelo cabelo. Botei aquela peruca, escovaram ela, baguncei toda e usei... E tinha a coisa da espada, né? Você havia lutado esgrima na juventude, foi até federada. Serviu do seu aprendizado , então...

Peguei a espada e... acabou! Botei a Natália do Vale e a corte inteira no bolso (risos).

Para contrastar, 'O Primo Basílio', em 1988, foi puxadíssimo... Foi puxadíssimo. A adaptação do Gilberto (Braga) tinha 500 páginas e eu estava em 468. Ficava no centro daquela casa e aqueles atores chegavam e despejavam tudo na Luísa (personagem que interpretava). Quando você faz um personagem que é medíocre, não tem o sentimento do heroísmo... É mais fácil fazer Joana D'arc na fogueira, que aí o corpo já abre, do que você fazer uma personagem... O Eça (de Queiroz, autor) queria criticar o casamento e, de repente, as pessoas oprimindo... Luisa não tem um arrobo de heroísmo. Aí, o corpo fecha, e eu fechei. Tive um estresse absurdo quando acabou. Daniel (Filho) me dirigiu em cada respiração...

Deve ter te exigido muita concentração, um estado de presença completa. Chegou um momento em que comecei a ficar apática. Reflito as coisas no corpo, por isso, em termos de saúde, estou indo cada vez mais para essa linguagem. Quis fazer mímica quando jovem, né? Nem queria ser atriz, porque não gosto de falar. Bem, mas estava apática e lembro que o marido da Marília Pêra, na época, olhou para mim e falou: "Você está doente". Respondi: "Não". Mas es estava lenta, o pessoal estava percebendo que eu demorava para me trocar. Começo a engordar, vou inflando, a energia vai ficando parada. Eu tinha que estudar qual doença a Luisa teria, porque ela tem aquela dor de cabeça...

Estava num momento em que a personagem ia morrer, tem uma cena célebre em que ela raspa a cabeça. Estava nesse processo de adoecimento, que era somático. A preparadora de elenco me indicou um psiquiatra. E tinha tido meningite. E eu pensei que meningite poderia ser a doença de Luisa. Ele me explicou como tinha sido. Uma hora, falou: "Acho que não é só isso que quer conversar comigo. Pelo pouco que me explicou, acho que você está vivendo 24 o personagem". Porque tinha um motorista que ia me acordar, sabe? Esmurrava a porta e me arrancava da cama para me levar. Eu já não estava mais dando conta. E o psiquiatra: "Você está tão identificada com essa personagem, que ela vai morrer e você já está com medo. Você já está morrendo". Achei papo de papo maluco. E ele: "Vamos conversar com o diretor porque é preciso, minimamente, um tempo e um ritual para você". O Daniel (Filho, diretor) aceitou super bem. Então, eu ia para o consultório, fazia shiatsu, chegava no estúdio, fazia uma aula de balé, tomava um banho. Fazia a personagem, tomava outro banho, colocava as minhas roupas bem coloridas e diferentes da personagem e ia para casa de outro jeito. Criou-se um ritual e um mínimo de tempo para eu entrar e sair da personagem. Foi assim que consegui ver que quem ia morrer era ela e não eu.

'Quando você sente uma dor emocional, vai a pai de santo, tarô, homeopatia e vai fazendo um imbróglio sem saber o que tá funcionando e o que está atrapalhando' Precisou se afastar por um tempo para se cuidar. Deixou a novela 'Novo Mundo', em 2017, por não se sentir segura e confortável para levar o ritmo intenso das gravações. De que maneira a sua relação com a atuação mudou depois que priorizou a sua saúde e o seu bem-estar? Tive uma crise de ansiedade grande devido a várias questões que tive que lidar, situações tensas. Morando no Rio, não tinha minha rede de apoio paulistana. Foi uma sucessão de coisas, a morte da minha mãe... Teve um momento de estresse em 2015/ 2016, em que senti muita ansiedade. A gente não sabe nominar muito o que é, mas hoje, vejo que essa ansiedade já vinha pontilhando. O nascimento do meu filho...

Um processo que veio se arrastando... Chegou num ponto.... Ensaiei "Novo mundo" maravilhosamente bem, achei que estava ok. Só que no dia de gravar, senti aquela ansiedade de novo. Seria um risco continuar no projeto. Me afastei e falei: "Vou ter que resolver isso".

Às vezes, o passo mais difícil é aceitar que precisamos de ajuda. Como foi acolher as próprias vulnerabilidades? Não tenho medo de pedir ajuda. Ao contrário, falo: "Pelo amor de Deus!". Só que eu estava pedindo ajuda demais. Quando você sente uma dor emocional e física começa a procurar até achar alguém que fala "calma, vamos por aqui e tal". Vai a pai de santo, tarô, homeopatia e vai fazendo um imbróglio sem saber o que tá funcionando e o que está atrapalhando. Chegou uma hora que falei: "Não vai dar, minha qualidade de vida está um horror e pior não vai ficar". E mudei radical.

'Não adianta argumentar, não querem ouvir. Vivo numa bolha artística e intelectual com pensamentos humanistas. Sempre defendi causas, nunca assumi partido' Você viveu o governo Collor, que acabou com a Embrafilme. Fez o único filme produzido no Brasil em 1992, "A grande arte", de Walter Salles. Também viveu o governo Bolsonaro, que rebaixou o Ministério da Cultura a uma secretaria. A cultura pode estar ameaçada? A cultura sempre está ameaçada. Estou triste. Está todo mundo insatisfeito com o governo. Mas levei um susto com o tamanho da agressividade e da rejeição. Ninguém nem sabe direito quem é esse outro candidato, nem gostam dele, mas é o ódio contra o Lula. Não adianta argumentar, não querem ouvir. Vivo numa bolha artística e intelectual com pensamentos humanistas. Sempre defendi causas, nunca assumi partido. Votei no Lula, mas não me sinto preparada para fazer campanha. Me identifico com Fernando Henrique, um PSDB que não existe mais, da turma intelectual da USP. A arte é um alento para essa sua tristeza toda? A minha religião foi e é o teatro. É um ritual em que conversa com os deuses. Se mascara, se fantasia, mas fala dos deuses da Humanidade. Esse 'cavalo' aqui sente o divino. A gente pode não conseguir mais fazer teatro... mas é difícil porque numa cela de prisão podemos encenar, escrever alguma coisinha. Teatro é uma arte acessível. E a arte é civilizatória, um lugar em que a gente ainda pode conversar.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo