Fernando Sastre, réu pelo acidente com um Porsche que matou o motorista de aplicativo Ornaldo da Silva Viana e deixou o amigo dele, Marcus Vinicius Machado Rocha, gravemente ferido, admitiu ter ingerido bebida alcoólica na noite do acidente durante seu depoimento, no segundo dia de seu julgamento, nesta quinta-feira.
Ele também pediu perdão às vítimas e aos familiares e afirmou que sofre diariamente com as consequências do caso. — Eu jamais fui indiferente às consequências dos fatos.
Eu sofri muito e ainda sofro todos os dias, tenho consciência do que aconteceu e das consequências devastadoras disso. Tenho vergonha e arrependimento todos os dias da minha vida — declarou Fernando.
O réu afirmou que não saiu de casa com a intenção de provocar um acidente e fez um pedido de desculpas às famílias. — Queria fazer o meu mais sincero pedido de perdão para as vítimas e para as famílias, que mais sofrem, porque ninguém merece passar por isso — disse.
Na sequência, Fernando reconheceu que havia consumido álcool antes de dirigir. É a primeira vez que ele admite ter bebido antes do acidente.
— Expresso meu arrependimento, minha vergonha, eu confesso que no dia dos fatos eu ingeri bebida alcoólica — afirmou. Fernando narrou que, em 30 de março de 2024, estava com a então namorada, Giovanna, e combinou de encontrar Marcus e Juliana em um gastrobar chamado Porqueteria.
Segundo ele, os quatro pediram bebidas e aperitivos. Ele afirmou que, além da água que havia mencionado em depoimentos anteriores, argumentando que teria sido a única coisa que tinha bebido, ele também tomou um drinque.
Segundo ele, o grupo permaneceu no estabelecimento até as 23h, quando decidiram ir para a uma casa de pôquer. Fernando disse que Marcus o acompanhou no Porsche, enquanto Giovanna seguiu com Juliana.
No local, segundo o réu, ele e Marcus foram para uma mesa de jogo, enquanto as namoradas foram ao buffet. Fernando afirmou que não consumiu álcool na casa de pôquer e que pediu água e água tônica.
Em determinado momento, Giovanna foi até a mesa e disse que queria ir embora. A namorada de Sastre insistiu que estava cansada, quando ele convidou Marcus e Juliana para jogar sinuca na sua casa.
O réu também comentou um vídeo gravado por Juliana na saída da casa de poker, no qual aparece discutindo com a Giovana sobre a possibilidade de ir embora. — Queria dizer que tenho muita vergonha desse vídeo e peço desculpa a todos que eu ofendi com ele, mas é um vídeo que está fora de contexto — declarou.
'Memória fragmentada' Ao narrar o trajeto até o acidente, Fernando afirmou que saiu da vaga devagar e percorreu ruas do bairro até chegar à Rua Salim.
Ele se lembrou de ultrapassar um carro pela faixa da esquerda e de parar em um semáforo. A partir desse momento, porém, disse ter recordações fragmentadas.
— Depois que eu saio desse farol, é uma memória muito fragmentada, não lembro direito o que aconteceu. Lembro de ter visto um carro na minha frente, eu tento frear e desviar, mas, de repente, é um apagão — afirmou.
Ela também admitiu ser uma possibilidade uma tentativa de “cortar” o carro de Arnaldo. Fernando afirmou que recobrou a consciência fora do veículo e viu Marcus ferido.
Segundo ele, estava em estado de choque e não compreendia o que havia acontecido. Disse que um homem o amparou e explicou que ele havia se envolvido em um acidente e que o socorro já havia sido acionado.
Sastre diz que não chegou a ver Ornaldo no local e que sua preocupação imediata foi com o amigo. Também afirmou não se lembrar da sequência exata dos acontecimentos após a colisão.
Sobre a saída do local, Fernando disse que sua mãe chegou depois do resgate das vítimas. Segundo ele, um policial havia autorizado a saída.
Sua mãe teria dito que o levaria ao hospital, mas os dois foram para casa. Em casa, relatou ter tomado banho e sentido dores devido a fraturas em duas costelas e três ossos da face.
Sua mãe, segundo o depoimento, deu medicamentos pra ele. Ele diz então ter adormecido no sofá.
Fernando afirmou que acordou por volta das 9h e recebeu a notícia de que Ornaldo não havia resistido aos ferimentos e de que Marcus estava passando por uma cirurgia. — Depois disso, minha vida acabou, eu passei a vegetar até o dia em que fui preso — disse.
Questionado pelo Ministério Público sobre o motivo de ter negado anteriormente o consumo de álcool, Fernando disse que poderia apresentar justificativas, mas que pretendia contar a verdade durante o julgamento. — Poderia inventar mil desculpas para isso que eu fiz, mas eu estou aqui entregue.
Hoje eu quero, sim, dizer a verdade — afirmou. O réu também declarou acreditar, naquela noite, que estava em condições de dirigir.
Segundo ele, se Marcus tivesse percebido que não tinha condições de assumir o volante, teria impedido que ele dirigisse. — Se o Marcus tivesse visto que eu não estava em condições de dirigir, ele não só não teria entrado no carro, ele teria impedido que eu tivesse dirigido.
Na minha cabeça, naquele momento, eu acreditava estar em condições — disse. O acidente ocorreu na madrugada de 31 de março de 2024, na Zona Leste de São Paulo.
O Porsche conduzido por Fernando colidiu com o Renault Sandero dirigido por Ornaldo, que trabalhava como motorista de aplicativo. Ornaldo morreu em decorrência dos ferimentos, e Marcus ficou gravemente ferido.
Fernando responde por homicídio e lesão corporal no caso, que chegou a julgamento pelo Tribunal do Júri.
O Globo