"São 11 anos de saudade, de perguntas sem resposta e de esforço para esclarecer o que aconteceu", afirma João Carlos Natalini ao GLOBO após a prisão de um suspeito do assassinato da filha. Victoria Natalini, de 16 anos, foi morta durante uma excursão da Escola Waldorf Rudolf Steiner na Fazenda Pereiras, em setembro de 2015, em Itatiba, no interior de São Paulo. Vídeo: Temporal com granizo deixa rastro de estragos em Ipatinga, MG Eleição: Lula rebate tese de Trump sobre facções como terroristas e ataca Jair e Flávio Bolsonaro Mais de uma década depois, o suspeito, identificado apenas como Francisco, foi localizado em Itatiba e conduzido para o 2º Distrito Policial da capital. Segundo a polícia, o homem é acusado por crimes sexuais praticados contra outras duas crianças, sem relação direta com o caso de Victoria. Foi por conta desses episódos que ele foi preso temporariamente por agentes do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
O pai de Victoria afirma que a prisão, apesar de ter ocorrido por outros crimes supostamento cometidos por Francisco, não afasta a "necessidade de investigar uma possível ligação com a morte" da adolescente. — As semelhanças no modo de agir são, para nós, motivo para que essa linha de investigação seja aprofundada com todo o rigor — diz Nanini. Ele descreve o que vem sentindo com os novos desdobramentos: — Apesar da dificuldade e da ansiedade por novas informações, procuro me manter sereno e acompanhar atentamente cada passo da investigação. Neste momento, sinto certo alívio e a esperança de que, depois de tantos anos, possamos finalmente chegar a uma conclusão. Na época da morte de Victoria, Francisco chegou a ser apontado como suspeito do homicídio da jovem. "Policiais civis do DHPP, com apoio de policiais da Divisão de Capturas do Dope, deram cumprimento a um mandado de prisão temporária e busca e apreensão contra um homem por crimes sexuais praticados contra duas crianças. Ele foi localizado em Itatiba, interior de São Paulo, e conduzido à carceragem do 2° DP da capital, onde permaneceu à disposição da Justiça", informou, em nota a Secretaria estadual de Segurança de São Paulo. Francisco morava perto do local onde o corpo de Victoria foi encontrado e teria sido visto por testemunhas circulando de carro na região no período próximo ao crime. Além disso, relatos indicavam que ele já teria "mexido" com adolescentes das redondezas anteriormente. O homem chegou a ser ouvido na delegacia, mas, diante da ausência de provas mais robustas, não foi tratado formalmente como investigado naquele inquérito. Histórico da investigação A investigação sobre a morte de Victoria acabou arquivada no período posterior ao crime. Mais recentemente, porém, o caso foi reaberto por pressão da família. Em diligências realizadas desde então, a polícia chegou novamente ao suspeito preso nesta sexta-feira. Durante incursões em Itatiba, segundo informações fornecidas pelo DHPP, duas irmãs contaram que foram abusadas pelo acusado quando tinham 7 e 8 anos, em período próximo ao da morte de Victoria, o que justificou o pedido de prisão temporária autorizado pela Justiça. Os investigadores ainda buscam indícios que possam conectá-lo ao homicídio da adolescente em 2015. Indenização Em fevereiro deste ano, a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou a escola a pagar uma indenização por danos morais no valor de R$ 1 milhão. A decisão unânime considerou que a instituição de ensino cometeu uma "sucessão de falhas" e foi "negligente", o que resultou na morte de Vitória. Inicialmente, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) havia estabelecido o valor em R$ 400 mil de indenização, mas o STJ justificou o restabelecimento do valor com base na capacidade financeira da escola, que possuía um seguro contra danos extrapatrimoniais com cobertura de até R$ 7,2 milhões. Para o STJ, o valor anteriormente fixado pelo TJSP era irrisório diante da gravidade do evento e do sofrimento do pai. — A indenização não foi paga ainda. Nenhum valor devolve a Victoria ou repara a sua ausência. Espero que essa responsabilização contribua para que o dever de cuidado com crianças e adolescentes seja levado a sério e para que outras famílias não enfrentem uma perda como a nossa — afirma Natalini. O pai da adolescente assassinada critica, por outro lado, a decisão da Justiça criminal que absolveu os prepostos da escola. — Respondo como pai atento e um ser humano que busca coerência: se uma instituição é responsabilizada por negligência que resultou em morte, como compreender que as pessoas responsáveis pelas decisões gerenciais e pelas práticas que levaram a essa condenação sejam absolvidas? Para mim, isso é um contrassenso para o qual não encontro explicação ou justificativa. A escola Waldorf Rudolf Steiner afirmou nesta sexta-feira, em nota, que "acompanha o novo desdobramento da investigação e espera que esse avanço contribua para o esclarecimento definitivo das circunstâncias do caso". "Desde o início, a escola colaborou ativamente com as investigações, prestou todos os esclarecimentos solicitados e permaneceu à disposição das autoridades.Também demonstrou perante a Justiça que os procedimentos de segurança previstos para a viagem foram cumpridos", diz. A instituição reforça ainda que o homem preso não possui qualquer vínculo com a escola. O que ocorreu? Victoria Natalini foi assassinada quando participava de uma viagem de estudos à Fazenda Pereiras, localizada na região de Jundiaí. Segundo a investigação, a aluna do 10º ano foi proibida pela escola de levar seu celular para a atividade. Durante a tarde, ao se afastar do grupo para ir ao banheiro, a jovem não retornou. O relator do caso, ministro Antônio Carlos Ferreira, considerou a escola como negligente no monitoramento dos alunos. O desaparecimento só foi notado por volta das 16h30, quando um colega questionou a tutora sobre o paradeiro da adolescente. Victoria, segundo relatos de testemunhas, havia saído para ir ao banheiro por volta das 14h30. Mesmo diante do alerta, a busca inicial foi restrita aos dormitórios. Apenas às 18h04 e por iniciativa da cozinheira da fazenda, não dos responsáveis pela excursão, o Corpo de Bombeiros foi acionado. A localização do corpo da adolescente ocorreu apenas na manhã seguinte, após o próprio pai da vítima, por conta própria, acionar um helicóptero da Polícia Militar. Ele mesmo fez o reconhecimento. Ao chegar ao local, o pai encontrou a filha morta, no meio do mato. Embora o primeiro laudo tenha sido inconclusivo, uma segunda perícia realizada pelo Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo, em uma investigação conduzida pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), confirmou que a estudante foi assassinada por asfixia mecânica. — O grau de culpa do estabelecimento de ensino foi enorme e a sucessão de falhas que culminaram com a morte da ofendida é assombrosa. O dever de guarda da instituição de ensino foi flagrantemente violado — afirmou o ministro relator na época.
O Globo