A estiagem na Amazônia é primeiro sinal claro de influência do El Niño de 2026 no Brasil, país que já tem 158 cidades em status de alerta para seca em setembro, afirma o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Os municípios nessa condição correspondem a quase 10% (9,8%) da área do país. Segundo técnicos da instituição, a região mais afetada de imediato é a calha Norte do rio Amazonas, principalmente a bacia do Rio Negro. Na região Nordeste, há preocupação concentrada na faixa de sertão do norte da Bahia até Pernambuco, passando por Alagoas e Sergipe. No Pantanal não há ainda municípios em alerta, mas o nível de vazão dos rios na bacia do Rio Paraguai também preocupa. Entrevista: Super El Niño pode gerar 'cadeia de impactos', alerta cientista do MMA à frente da preparação para fenômeno Segundo a meteorologista Adriana Cuartas, pesquisadora do Cemaden, o problema que a Amazônia está vendo agora é, em parte, uma herança do el Niño de 2023 e 2024, possivelmente agravado também pela mudança climática global. — Infelizmente, as chuvas que têm acontecido até agora ali não foram suficientes para recuperar totalmente essas bacias — disse a cientista em apresentação para jornalistas. — Então, a sensação é que elas permanecem em algum déficit hídrico e não estão se recuperando. Essa que é a questão. São Paulo: Seca no Cantareira, Sabesp e El Niño colocam clima em destaque nas campanhas para governador A região Centro-Oeste também enfrenta neste momento um nível mais moderado de estiagem, algo comum dentro da sazonalidade, sem que possa ser diretamente atribuída ao El Niño. Segundo o Cemaden, os dias mais chuvosos no Sul e no Sudeste, que coincidem com a passagem de uma frente fria, também são um padrão normal para a faixa do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, e não necessariamente reflexo do fenômeno no Pacífico. Na apresentação, Gilvan Sampaio, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), falou sobre como o El Niño se tornou um elemento meteorológico que ganhou espaço na cultura popular, mas disse que nem tudo o que ocorre no clima quando o fenômeno está ativo se deve a ele. — A frente de rajada de ventos que chegou recentemente a São Paulo e Rio de Janeiro não foi trazida El Niño, e está chovendo há duas semanas aqui em São Paulo, mas também não é culpa do El Niño — diz o pesquisador.
Os eventos extremos de chuva, que preocupam sobretudo na região Sul, pode estar relacionados com o fenômeno em alguns anos, como ocorreu com as enchentes históricas em cidades gaúchas em 2024. Eles são porém, mais difíceis de prever do que o impacto da seca. — O excesso de chuva tem uma escalas de tempo diferente. A falta de chuva vai se acumulando aos poucos, e os problemas acontecem depois de semanas, meses, ou às vezes mais de ano — explica Giovanni Dolif, do Cemaden. — Já excesso de chuva é mais repentino. Uma chuva rápida, de poucas horas, pode causar um grande desastre. Os pesquisadores ressaltam, também, que a natureza mais dinâmica dos eventos ligados ao excesso de água na atmosfera também tem a localização mais difícil de determinar. — Cada El Niño ocorre de uma forma. Um dos El Niños mais fortes do século passado, o de 1982/1983, por exemplo, afetou mais Santa Catarina, já o de 2023/2024 teve três episódios intensos de chuva, todas no Rio Grande do Sul — diz Sampaio. Se a demora para saber o tamanho do impacto do El Niño atual tem causado ansiedade no Sudeste e no Sul, porém, no Norte e Nordeste ela já está palpável, dizem os pesquisadores. A situação de estiagem tomou um grau mais preocupante sobretudo para a agricultura de pequena escala, que sofre com as condições na região Norte. Focos de incêndio florestal também aumentaram, com Manaus amanhecendo sob fumaça pela terceira vez em dez dias. Em termos de número de municípios afetado no último mês, os cinco estados com índice de seca "severo" medidos pelo Cemaden foram Bahia (101), Sergipe (43), Alagoas (42), Amazonas (15) e Roraima (13). Todas as cidades com índice de seca "extrema" são baianas: Anguera, Lamarão, Santa Bárbara e Tanquinho, no norte do estado. A análise do impacto do El Niño no Norte e Nordeste traz um resultado diferente, porém, quando o tema é risco de fogo, afirmam os dados do Cemaden. Como os incêndios florestais também têm como variáveis importantes o vento e o calor, além da seca, nem sempre ele está onde a estiagem é pior. Os alertas de risco de incêncio agora no Brasil estão concentrados na região do Matopiba, área de divisa entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, área de transição entre Cerrado e Amazônia. Em dois dias, essa frente de risco se desloca para o oeste de Goiás e no pantanal mato grossense, que preocupa por causa da baixa vazão dos rios agora. Assim como no caso das chuvas, as ondas de calor são mais difíceis de prever em longa escala, por isso o Cemaden oferece uma previsão de apenas dez dias de antecedência em seu painel de risco de fogo. Ansiedade climática Se as consequências do El Niño de 2026 estão demorando a aparecer, meteorologistas afirmam estar convictos de que elas virão, porque existe um intervalo entre o registro do aquecimento das águas do Pacífico, que caracterizam o fenômeno em si, e a influência que elas exercem na América do Sul. "As anomalias da temperatura da superfície do mar já ultrapassaram os 3°C no Pacífico Equatorial Leste. Esse aumento, juntamente com os outros índices de medição, indicam uma intensificação constante do El Niño até o final de 2026", diz o último boletim do Instituto Nacional de Meteorologia sobre o fenômeno. "Além disso, a probabilidade, no Hemisfério Sul, de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027, supera os 90%, enquanto há probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950, durante o trimestre outubro–novembro-dezembro de 2026." O diretor do Departamento de Clima e Sustentabilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Osvaldo Moraes, afirma que, apesar de o país requerer cautela e preparação, há um grau de incerteza razoável ainda sobre os impactos. — Quando nós ouvimos falar em "Super El Niño", imediatamente as pessoas já fazem a conexão com "super impactos", mas isso não é bem assim — afirma. — Não existe uma correlação tão direta entre um super evento extremo e um super impacto, porque o impacto não depende só da intensidade da ameaça, mas também da magnitude das vulnerabilidades. O Cemaden, um centro técnico criado em 2011, foi concebido em grande medida com objetivo de mapear o status dessa segunda variável da equação climática. Segundo os pesquisadores da unidade, o atual El Niño é um momento em que o valor desse tipo de trabalho, realizado com apoio de outros núcleos de pesquisa, deve se provar.
O Globo