Musk usa doações para garantir que seus interesses sejam atendidos pelo governo Kevin Dietsch / Getty Images
Elon Musk injetou tanto dinheiro na política dos EUA neste ciclo eleitoral de meio de mandato que suas doações poderiam financiar meia dúzia de lançamentos de foguetes da SpaceX ou comprar milhares de picapes Cybertruck. No Tesla Diner, em Los Angeles, Musk poderia pedir mais de 31,9 milhões de cheesebúrgueres com o montante que gastou nessas eleições.
Musk, a pessoa mais rica do mundo, destinou pelo menos US$ 445,77 milhões a comitês de ação política (PACs) e grupos alinhados aos republicanos desde o ano passado, segundo dados da Comissão Federal Eleitorais (FEC) dos EUA, atualizados até 29 de outubro. Essas contribuições tornaram-no o principal apoiador financeiro dos republicanos e o maior doador político em um único ciclo na história moderna dos EUA.
Os gastos de Musk são um exemplo impressionante da influência política do CEO da SpaceX e da Tesla, que busca ajudar a base de Donald Trump a manter o controle do Congresso nas midterms — embora as pesquisas atuais indiquem que os democratas devem conquistar a maioria. A escala das contribuições é difícil de conceber e supera, de longe, os esforços de grandes doadores como George Soros ou Michael Bloomberg, estabelecendo um novo precedente sobre como os ricos e poderosos tentam moldar a política.
No ano passado, Musk afirmou que se afastaria de doações políticas de grande escala, após ter destinado quase US$ 300 milhões à campanha presidencial de Trump em 2024. Dados da FEC mostram que, desde então, ele não apenas retomou o financiamento de campanhas, como também intensificou drasticamente seus gastos à medida que o dia da eleição se aproximava — um aumento de cerca de US$ 200 milhões apenas nos dois meses finais da campanha.
O dinheiro de Musk foi direcionado, principalmente, a super PACs alinhados ao Partido Republicano; a maior contribuição, de US$ 216 milhões, foi destinada ao seu próprio PAC, o "America PAC". Esse comitê concentrou sua atuação em 43 disputas para a Câmara dos Representantes e o Senado em todos os Estados Unidos, inundando os eleitores com comerciais de televisão, anúncios digitais, mensagens de texto e correspondências.
Musk concentrou a maior parte de seus gastos no Texas — seu estado de origem —, onde uma disputa acirrada para o Senado, entre o candidato democrata James Talarico e o republicano Ken Paxton, tornou-se a mais cara das eleições de meio de mandato. No total, o America PAC investiu mais de US$ 33 milhões em esforços para eleger Paxton; além disso, Musk fez uma contribuição de US$ 168 milhões ao Senate Leadership Fund, organização que também apoia a campanha de Paxton.
Uma parcela significativa das ações do America PAC consiste em propagandas de ataque contra candidatos democratas, como Talarico, frequentemente acusando-os de serem "socialistas radicais" ou criticando-os por apoiarem os direitos de pessoas transgênero. O comitê gastou US$ 28 milhões em conteúdos contra Talarico — incluindo um montante entre US$ 300 mil e US$ 350 mil, apenas em outubro, em um único anúncio no Google voltado contra o candidato ao Senado pelo Texas.
"James Talarico defende que pais sejam acusados de abuso infantil caso não apoiem a transição de gênero de seus filhos", afirmava o anúncio, que foi exibido mais de 10 milhões de vezes ao longo de um período de oito dias. Musk também compartilhou conteúdos do America PAC com seus mais de 200 milhões de seguidores no X, a plataforma de rede social de sua propriedade.
Em uma de suas publicações, feita em outubro, Musk amplificou um anúncio de ataque do America PAC, afirmando: "Talarico quer fazer a transição de gênero dos seus filhos e destruir a fronteira". Os quase US$ 446 milhões que Musk doou neste ciclo eleitoral superam, de longe, suas contribuições na disputa presidencial de 2024 — período em que o magnata da tecnologia também organizou comícios e subiu ao palco ao lado de Trump durante a campanha.
Embora Musk tenha mantido uma presença menos visível nas eleições de meio de mandato — o que talvez reflita a rejeição que ele desperta em parte do público americano —, nos bastidores, ele intensificou consideravelmente seu apoio financeiro aos republicanos. O que está em jogo para Musk
As eleições de meio de mandato trazem riscos e oportunidades significativos para Musk, que se alinhou estreitamente à administração Trump e se beneficiou de políticas mais permissivas em relação à regulação do setor de tecnologia e de inteligência artificial. A SpaceX, por sua vez, estreitou ainda mais seus laços com o governo, conquistando, neste ano, contratos lucrativos para o programa de defesa antimísseis de Trump, além da adoção do Grok — o chatbot de IA de Musk — pelo Pentágono.
Apesar da escala imensa e sem precedentes dos gastos políticos de Musk, suas contribuições nestas eleições representam, ainda assim, apenas uma pequena fração do patrimônio total do centibilionário. Veja a seguir o que ele tem a ganhar ou perder com as eleições
O que Musk tem a ganhar Proteger contratos federais e seu império empresarial: empresas como SpaceX, Tesla e outros de seus empreendimentos nos setores de tecnologia e aeroespacial dependem fortemente de contratos federais, militares e de inteligência que somam bilhões de dólares.
Uma Washington favorável, sob controle republicano, ajuda a garantir uma supervisão mais amena e a continuidade de políticas alinhadas aos seus interesses. Influenciar disputas eleitorais estratégicas, tanto estaduais quanto federais: Musk concentrou esforços em eleições específicas — como o apoio à campanha de Ken Paxton no Texas e a disputas em Ohio e Michigan — com o objetivo de consolidar aliados conservadores em cargos de grande relevância.
O que Musk tem a perder Investigações parlamentares sobre seus contratos e vínculos: segundo uma análise da Slate, caso os democratas recuperem o controle da Câmara ou do Senado, é provável que iniciem investigações parlamentares rigorosas sobre a administração Trump e examinem minuciosamente os vultosos contratos governamentais de Musk, bem como as relações comerciais de suas empresas com países como China e Rússia.
Musk alertou seus seguidores no X de que uma vitória democrata abrangente em futuros ciclos eleitorais poderia levar a mudanças legislativas profundas às quais ele se opõe — como a concessão de status de estado a Washington, D.C. e a Porto Rico, a ampliação da Suprema Corte ou alterações nas leis de imigração.
Tendo desembolsado uma quantia histórica — mais que o dobro do recorde anterior para um único grande doador —, Musk corre o risco de ver seus vultosos aportes financeiros não gerarem resultados, caso o cenário político mude e favoreça ganhos ou maiorias democratas.
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