No ano em que "A Odisseia", de Christopher Nolan, povoou os feeds, calhou de o Nobel de Literatura ir justamente para uma autora íntima da Grécia Antiga e de seus ecos no presente: Anne Carson, poeta, tradutora e classicista canadense cuja obra costuma misturar poesia, ensaio, tradução e investigação acadêmica. Oportunamente, chega agora ao Brasil "Antigonick" (Bazar do Tempo), sua recriação, de 2012, de "Antígona", de Sófocles, em diálogo com uma longa tradição de atualizar a tragédia grega de 2.500 anos atrás. Poucos personagens da literatura ocidental foram tantas vezes reinterpretados quanto Antígona. Na sinopse clássica, a filha do desafortunado Édipo desafia a ordem do rei Creonte e sepulta seu irmão Polinices, inimigo da cidade de Tebas que, portanto, deveria permanecer sem enterro. Descoberta, é condenada à morte, decisão que desencadeia uma sequência de mortes que atinge também Hêmon, filho de Creonte e noivo de Antígona, e Eurídice, mulher do tirano. Para Hegel, ela encena o conflito entre a família e o Estado; Lacan encontrou nela formas de pensar ética, desejo e transgressão; Judith Butler a transformou em figura fértil para discutir parentesco, gênero e os limites da norma. "Você (talvez de maneira previsível) soa como uma terrorista", escreve Carson no prefácio, uma carta-poema à própria Antígona. No Brasil, uma das encarnações mais populares recentes foi a de Andréa Beltrão, na montagem dirigida por Amir Haddad a partir da tradução de Millôr Fernandes, que transformou a tragédia em monólogo e estabelecia conexões entre a história de Antígona e a mitologia grega. Atualizações Em "Antigonick", Creonte começa sua participação com uma lista de verbos: "Adjudicar / Legislar / Escandalizar / Capitalizar". Depois vêm os substantivos: "Homens / Razão / Traição / Morte / Nau do Estado / Meu". O Coro protesta que "meu" não é substantivo. "É se você capitalizar", responde o rei, na ótima tradução de Julia Raiz, que preserva o jogo de Carson com a própria ideia de tradução. Sim, o Creonte original já transforma sua palavra em lei e exige obediência. Mas este parece simultaneamente político, burocrata e personagem de sátira. Anne Carson não quer simplesmente traduzir Sófocles para o presente. Quer fazê-lo falar de outro lugar. O resultado é menos uma atualização de figurino que uma intervenção na linguagem. O Guarda, por exemplo, narra o sepultamento clandestino de Polinices com uma sucessão de palavras inventadas — "lutoave", "chorocovadesfilhada". São invenções que produzem o efeito de contemporaneidade, assim como certas piadas e referências: Hêmon diz "eu deleto essa linha"; o Coro compara uma profecia a um gol aos 45 do segundo tempo; Eurídice fala de bicicleta, terapeuta, filmagens e "lógica amigo-inimigo". E Carson acrescenta à tragédia Nick, figura muda que permanece em cena medindo coisas. O nome remete ao nick of time, aquele instante-limite em que ainda seria possível evitar a catástrofe — exatamente o tempo que falta a Creonte para salvar Antígona. São momentos em que Carson ganha velocidade, humor e estranhamento, ainda que alguns possam torcer o nariz para a distância em relação a Sófocles. Recepção Como "Antígona", "Antigonick" também nasceu para o palco. A montagem dirigida por Ivo van Hove, com Juliette Binoche no papel principal, estreou em 2015 e,circulou por Londres, Edimburgo, Nova York. A recepção foi dividida: houve elogios à invenção e à beleza da encenação, enquanto alguns críticos consideraram algumas soluções excessivamente conceituais. Talvez por isso não seja um livro para todos os leitores — ou, mais precisamente, não seja um livro que se entregue inteiramente a quem chega sem conhecer "Antígona". Carson aposta tanto no diálogo com Sófocles e com seus intérpretes que parte da graça depende de reconhecer aquilo que está sendo deslocado. Nesse caso, conhecer a receita original do prato ajuda a perceber melhor o sabor das alterações. "Antigonick", de Anne Carson Autora: Anne Carson. Tradução: Julia Raiz. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 57. Preço: R$ 60.
Resenha: Em ‘Antigonick’, Anne Carson vira a mesa de Sófocles
Fonte da notícia:
O Globo
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