Se um técnico consegue operar uma máquina de ressonância magnética a três metros de distância, por que não poderia fazer o mesmo a três mil quilômetros? Foi a partir dessa provocação, feita por um cliente com uma extensa rede de unidades de diagnóstico no Brasil, que a Siemens Healthineers começou a desenvolver uma tecnologia que acabaria ganhando o mundo. O desafio parecia simples, mas envolvia um problema importante para o setor de saúde: a dificuldade de garantir a mesma qualidade na realização de exames em diferentes localidades. Embora os equipamentos fossem semelhantes, a experiência dos profissionais responsáveis por operá-los variava de uma unidade para outra. Um técnico poderia ter mais familiaridade com exames de crânio, enquanto outro seria especializado em determinadas regiões do corpo. Essa diferença também se refletia nos protocolos utilizados para programar as máquinas e realizar os procedimentos. Para uma rede de diagnóstico com unidades espalhadas pelo país, a falta de padronização representava um obstáculo à eficiência operacional e à qualidade dos exames. A questão era como permitir que especialistas compartilhassem seus conhecimentos e operassem equipamentos localizados a centenas ou milhares de quilômetros de distância, sem comprometer a segurança dos pacientes. A resposta começou a tomar forma entre 2014 e 2015, quando a operação brasileira da Siemens Healthineers iniciou o desenvolvimento de uma solução para conectar equipamentos de diagnóstico a um centro de operações remoto. A tecnologia recebeu o nome de Virtual Cockpit e foi desenvolvida com a participação de pesquisadores e instituições parceiras de Santa Catarina, entre elas a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Fundação CERTI. A proposta era permitir que profissionais especializados comandassem remotamente determinadas etapas dos exames, independentemente da localização física dos equipamentos. Com isso, uma rede hospitalar poderia concentrar parte de sua expertise técnica e disponibilizá-la para diferentes unidades, inclusive em regiões com dificuldade de contratar profissionais especializados. "Se meu técnico está a três metros da sala, por que não pode estar a três mil quilômetros pilotando uma ressonância?", diz Manoel Coelho, head de pesquisa e inovação da Siemens Healthineers para a América Latina, ao recuperar a pergunta que motivou o projeto. O desenvolvimento, no entanto, precisava respeitar uma condição fundamental: a tecnologia não poderia eliminar a presença de profissionais ao lado dos pacientes. Afinal, o acompanhamento presencial continua necessário para posicionar as pessoas nos equipamentos, prestar assistência e garantir a segurança durante os procedimentos. A inovação estava justamente na possibilidade de distribuir melhor o trabalho especializado. Enquanto um profissional permanece junto ao paciente, outro pode executar remotamente a programação e o controle técnico do exame. Após passar por avaliações e auditorias, a solução foi incorporada ao portfólio global da Siemens Healthineers em 2018. Um exemplo veio do Canadá. Segundo Coelho, há cerca de três ou quatro anos, um colega canadense entrou em contato para entender como a tecnologia estava sendo utilizada. Embora os desafios geográficos fossem diferentes, a dificuldade de disponibilizar especialistas em localidades remotas era semelhante. Mais acesso e produtividade Os benefícios da tecnologia se concentram em três frentes: ampliação do acesso a exames, padronização dos procedimentos e melhor aproveitamento dos profissionais especializados. Na prática, a operação remota permite que unidades de diagnóstico compartilhem conhecimento técnico e adotem protocolos mais uniformes. Isso significa que um exame realizado em uma localidade distante pode seguir os mesmos parâmetros estabelecidos por uma equipe especializada que atua em outro centro. A ferramenta também permite organizar de maneira mais eficiente o trabalho dos operadores. Como determinadas sequências de exames são executadas automaticamente pelos equipamentos após sua programação, um especialista pode acompanhar o andamento de um procedimento enquanto prepara a execução de outro em uma máquina diferente, respeitadas as condições técnicas e de segurança. Essa possibilidade ganhou importância durante a pandemia de covid-19. Com a escassez de profissionais e a necessidade de reduzir deslocamentos e contatos presenciais, a operação remota passou a oferecer uma alternativa para manter serviços de diagnóstico em funcionamento. Para Coelho, a crise sanitária evidenciou uma das principais vantagens da tecnologia: a capacidade de ampliar o alcance de profissionais especializados sem exigir sua presença física em todas as unidades atendidas. A experiência também abriu caminho para novos modelos de negócio. A Siemens Healthineers passou a desenvolver ofertas derivadas da operação remota, incluindo o WeScan, serviço no qual a companhia disponibiliza profissionais para realizar remotamente etapas da operação dos equipamentos de seus clientes. Nesse modelo, em vez de depender exclusivamente da contratação de operadores especializados para cada unidade, o prestador de serviços de diagnóstico pode recorrer à expertise da Siemens Healthineers conforme sua demanda. A proposta amplia as possibilidades comerciais da tecnologia, ao combinar equipamentos, conectividade e serviços especializados. Inovação brasileira com alcance global A trajetória do Virtual Cockpit também ajuda a explicar a importância da operação brasileira para a estratégia de pesquisa e desenvolvimento da Siemens Healthineers. Em 2025, a companhia destinou R$ 15 milhões a projetos de P&D no país. Desde 2013, os investimentos acumulados nessa frente superaram R$ 120 milhões.
A área de inovação conta com 12 profissionais responsáveis por coordenar o trabalho de mais de 70 pesquisadores em instituições parceiras, incluindo a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Hospital Israelita Albert Einstein. Parte desse trabalho é viabilizada por mecanismos de incentivo à pesquisa, como a Lei de Informática, que permite à companhia desenvolver projetos em colaboração com universidades e centros de inovação. O papel da equipe brasileira está concentrado principalmente nas etapas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Quando uma solução avança para a fase de produto comercial, passa a integrar os processos globais da companhia. Na avaliação de Coelho, o reconhecimento aparece também no aumento das demandas de projetos encaminhadas pela matriz para os pesquisadores brasileiros. O executivo destaca a combinação de competência técnica e competitividade de custos como um diferencial da estrutura nacional. A operação brasileira representa atualmente 45% dos negócios da Siemens Healthineers na América Latina. A companhia também mantém uma fábrica em Joinville, em Santa Catarina, e um centro de treinamento em Jundiaí, no interior paulista, voltado à capacitação de profissionais de radiologia e radioterapia. Banner da série Inovação de Resultado (Novo) Clayton Rodrigues Mais Lidas
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