O que está acontecendo na França? Quatro perguntas para entender os protestos que tomaram o país

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A França está abalada por uma das maiores ondas de agitação social dos últimos anos. Manifestações pacíficas contra o governo foram, no fim de semana, tomadas também por tumultos e saques, provocando danos em todo o país e aprofundando a sensação de que a nação está diante de um acerto de contas consigo mesma. O GLOBO no Mundo: receba as notícias internacionais no seu WhatsApp Quer morar fora do Brasil? Guia completo de imigração reúne informações sobre custo e qualidade de vida, salários, vistos, oportunidades e características de 36 países À medida que o caos diminuía no domingo, líderes políticos trocavam acusações sobre a responsabilidade pela violência, enquanto os cidadãos observavam, chocados, suas cidades cobertas de cacos de vidro e carcaças carbonizadas de carros incendiados. A violência resultou da convergência de três movimentos: uma mobilização estudantil, iniciada semanas antes, por melhores condições nas escolas; um movimento nacional emergente contra o alto custo de vida; e grupos oportunistas que aproveitaram as manifestações como pretexto para saquear estabelecimentos. Protestos violentos contra o custo de vida deixam rastro de destruição na França Os protestos intensificaram a percepção de que a França enfrenta uma crise fiscal e social. O país tem a segunda maior economia da União Europeia. O governo tenta aprovar um orçamento impopular, que prevê medidas de contenção de gastos, enquanto enfrenta a indignação popular — um cenário que contribuiu para colocar Marine Le Pen, líder da extrema direita, na posição de favorita para vencer a eleição presidencial na próxima primavera europeia. O que aconteceu na França neste fim de semana? Mais de 500 mil pessoas participaram de cerca de 110 manifestações em toda a França no sábado, segundo o Ministério do Interior. Foi o maior dia de protestos desde que as manifestações começaram, aproximadamente um mês antes. A CGT, uma das principais centrais sindicais do país, apresentou uma estimativa ainda maior, afirmando que 800 mil manifestantes haviam saído às ruas. Após protestos com quase 2 mil presos: França contabiliza destruição de lojas e prédios públicos, e distúrbios viram instrumento eleitoral Em meio a muitas manifestações pacíficas, grupos violentos depredaram cerca de 1.500 estabelecimentos comerciais e diversos símbolos do Estado francês, o que levou a aproximadamente 2 mil prisões. Um ataque incendiário destruiu grande parte da prefeitura de Limoges, no centro da França. Em Marselha, a segunda maior cidade do país, pessoas mascaradas invadiram um prédio público e derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa. Galerias Relacionadas Por que os estudantes estão protestando? Estudantes do ensino médio começaram a protestar no mês passado para expressar sua insatisfação com as condições das escolas. Eles apontam problemas como infraestrutura deteriorada, salas de aula superlotadas, horários excessivamente carregados, falta de professores e funcionários e financiamento insuficiente para as instituições de ensino. Muitos também defendem uma reformulação das plataformas estatais de seleção para o ensino superior e as universidades, que consideram injustamente seletivas. Outros países: Da França à Albânia, onda de protestos liderada por jovens se espalha pela Europa contra o custo de vida: 'Tentando fazer revolução' Os estudantes bloquearam centenas de escolas. Segundo o governo, pelo menos 24 delas foram incendiadas ou sofreram danos. Desde setembro, milhares de pessoas foram presas, e mais de 1.000 policiais, estudantes e funcionários de escolas ficaram feridos. A revolta dos estudantes foi agravada pela resposta contundente da polícia. Promotores e um órgão independente de fiscalização policial estão investigando pelo menos 34 casos envolvendo acusações de conduta abusiva por parte de agentes durante os protestos. Entre os casos investigados está o de um garoto de 15 anos que perdeu a mão esquerda, possivelmente em decorrência da explosão de uma granada policial, segundo autoridades. Outro caso envolve um menino de 14 anos que sofreu ferimentos graves causados por uma granada de gás lacrimogêneo disparada por um policial a curta distância. Polícia e manifestantes voltam a se enfrentar na região da Praça da República, em Paris Por que outros grupos se juntaram aos estudantes? Ao longo de outubro, sindicatos e outros grupos de mobilização social passaram a participar cada vez mais das manifestações estudantis. Eles organizaram atos maiores tanto para demonstrar solidariedade aos estudantes quanto para protestar contra uma variedade mais ampla de problemas. Parte dos manifestantes está indignada com o custo de vida e a alta dos preços dos combustíveis, que dispararam, em parte, em consequência da guerra com o Irã. Agricultores também aderiram aos protestos, insatisfeitos com os custos da atividade agrícola. Perfis nas redes sociais ligados ao movimento dos "Coletes amarelos" — que, há quase uma década, provocou uma onda de protestos na França, com manifestações nas estradas contra os altos preços dos combustíveis e outras questões — também passaram a convocar novos atos. 'Coletes amarelos': entenda o movimento que inspira nova onda de protestos na França Partidos de esquerda igualmente aproveitaram os protestos como parte de uma manifestação mais ampla de descontentamento com o presidente Emmanuel Macron, que está limitado a dois mandatos e se aproxima do fim de seu período no cargo. Esse tipo de insatisfação tem uma longa história na França. Em 1968, protestos liderados por estudantes quase derrubaram o governo e ajudaram a transformar a sociedade francesa. Em Montpellier, no sul da França, manifestantes protestam contra o alto custo de vida na França SYLVAIN THOMAS / AFP Quais são as consequências políticas? No domingo, líderes da extrema direita e integrantes do governo centrista responsabilizaram a extrema esquerda pelo caos. Eles apontaram especialmente para o França Insubmissa, um dos principais partidos de esquerda, que, segundo eles, teria provocado a agitação. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu acusou dirigentes partidários de estimular a desconfiança dos estudantes em relação à polícia. Ele também afirmou que alguns dos envolvidos nos tumultos eram integrantes da chamada “ultraesquerda”. O França Insubmissa rejeitou a acusação. Seu líder, Jean-Luc Mélenchon, atribuiu ao governo a responsabilidade por medidas que, segundo ele, tornaram os distúrbios mais prováveis. Em uma publicação nas redes sociais, Mélenchon afirmou que o primeiro-ministro Sébastien Lecornu era “responsável pelo caos”, seja por “incompetência”, seja por uma estratégia deliberada de pior cenário, destinada a criar um partido da ordem que fizesse as pessoas esquecerem seu fracasso nas contas públicas. Lecornu não respondeu à acusação.

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