As reportagens do jornalismo econômico costumam fazer um enquadramento informativo com base em pressuposta reprodução de consensos ortodoxos. Fornecem algumas informações relevantes, mas algumas escolhas editoriais merecem exame.
A expressão “guinada heterodoxa” aparece sempre associada a uma ameaça inflacionária. Já a defesa de cortes de despesas é frequentemente apresentada como exigência de sustentabilidade fiscal.
Esse contraste produz uma assimetria de enquadramento: Orientação da propostaEnquadramento encontradoRedução da Selic proposta por heterodoxoRisco de inflação, câmbio eperda de confiançaCorte de despesas defendido por ortodoxoCondição para reduzir os jurosRevisão das metas de inflaçãoDesvio em relação à orientação necessáriaManutenção de juros elevadosNecessidade associada às condições fiscais e às expectativas de O Mercado onipotente e onisciente
Não se deve concluir todos os jornalistas econômicos compartilharem essas interpretações preconceituosas. A seleção de fontes, a edição de títulos e a construção da narrativa também dependem de rotinas profissionais, disponibilidade de entrevistados (só ortodoxos) e decisões editoriais apriorísticas.
O enquadramento favorece uma interpretação quando apresenta suas hipóteses como diagnóstico técnico e as hipóteses concorrentes como riscos políticos. Uma cobertura intelectualmente plural deveria submeter ambas as correntes de pensamento às mesmas perguntas: 1.
Quais são as evidências? 2. Quais são as hipóteses? 3.
Quais são os riscos? 4. Quem suporta os custos de cada alternativa?
É necessário distinguir três fenômenos no preconceito contra a heterodoxia. Primeiro, preferência teórica.
Um economista pode utilizar modelos ortodoxos porque considera seus fundamentos empiricamente adequados. Isso não constitui, por si só, preconceito – apenas desconhecimento de causa alternativa.
Segundo, fechamento paradigmático. Ocorre 1.
quando resultados incompatíveis com determinado modelo são descartados sem exame equivalente, ou 2. quando a origem intelectual de uma proposta substitui a avaliação de seus argumentos.
Terceiro, desqualificação retórica. Expressões depreciativas podem funcionar como mecanismos de demarcação entre posições consideradas legítimas e ilegítimas.
Nas reportagens do jornal Valor, há sinais do segundo e do terceiro fenômenos, particularmente na caracterização das propostas alternativas como problemas secundários ou ameaças presumidas. Mas as mesmas reportagens também apresentam argumentos quantitativos e mecanismos econômicos para análise.
Por isso, a evidência disponível sustenta uma crítica à assimetria de tratamento. Demonstra uma rejeição universal e automática de qualquer proposta heterodoxa.
O questionamento de os economistas usualmente consultados defenderem interesses materiais ou posições sociais, inclusive pessoais, é pertinente à Economia Política do conhecimento, porém, não é feito pelos jornalistas. Os participantes do debate público ocupam posições institucionais diferentes: universidades, centros de pesquisa, consultorias, bancos, gestoras e veículos de comunicação.
Essas posições influenciam os problemas considerados prioritários, os indicadores acompanhados e os riscos aos quais dedicam maior atenção. Uns se pronunciam na “grande (sic) imprensa brasileira”.
Outros, apenas na rede social ou portais de notícias de esquerda. Por exemplo, um operador de instituição financeira exposta a títulos públicos prefixados atribui grande importância à preservação do valor de mercado de sua carteira.
Já um pesquisador do emprego e do desenvolvimento produtivo enfatiza os efeitos dos juros sobre investimento, renda e atividade econômica. Nenhuma dessas perspectivas é automaticamente inválida.
O erro seria deduzir, apenas devido à posição profissional, uma determinada pessoa defender conscientemente seus privilégios ou seus argumentos serem desonestos. Para demonstrar uma defesa deliberada de interesses materiais ou de status, seriam necessárias evidências adicionais: vínculos relevantes, incentivos econômicos, padrões sistemáticos de posicionamento e eventuais conflitos de interesse.
É possível investigar a relação entre posição social e produção intelectual sem reduzir toda divergência teórica a interesses pessoais. “Não acredito em fantasmas… mas que existem, existem.”
O contraste com a reação do economista norte-americano John H. Cochrane à proposta de André Lara Resende (ALR), onde é citado como “argumento de autoridade”, é esclarecedor.
Cochrane, um dos principais formuladores da Teoria Fiscal do Nível de Preços, reconhece a coerência da proposta e admite os juros elevados poderem agravar problemas fiscais e inflacionários. Simultaneamente, questiona a capacidade de uma redução da Selic produzir, por si só, juros longos menores, estabilidade cambial e credibilidade fiscal.
A diferença metodológica é relevante. Cochrane não precisa aceitar a proposta para reconhecer a possibilidade teórica de seu mecanismo causal.
Ele distingue 1. o que a teoria permite, 2.
o que a experiência histórica sugere e 3. o que ainda precisa ser demonstrado empiricamente.
Essa postura é compatível com um debate científico plural: levar a hipótese concorrente a sério antes de julgá-la. O jornalismo econômico brasileiro deveria cobrar testes das interpretações sem pressupor a resposta.
Uma investigação mais abrangente, com base na abordagem da complexidade dos circuitos de retroalimentação da dívida pública e dos juros, partiria de quatro circuitos causais interdependentes. Circuito fiscal ortodoxo: déficit primário → dívida → risco percebido → juros
Circuito financeiro de ALR: Selic elevada → maior despesa financeira → aumento do endividamento público → risco percebido Circuito macroeconômico: juros → crédito para alavancagem financeira → investimento → crescimento da renda → arrecadação fiscal
Circuito de expectativas: notícias plantadas → interpretações sem pluralidade → decisões de carteira → preços de ativos → novas expectativas Nesse esquema conceitual, os circuitos podem reforçar-se ou compensar-se conforme a conjuntura.
A questão não é escolher antecipadamente qual circuito existe. Todos podem operar simultaneamente.
O desafio é identificar seus pesos relativos e suas mudanças ao longo do tempo. Seria especialmente útil estimar, com dados brasileiros, os efeitos de choques nos juros sobre despesas financeiras diante dos retornos operacionais, taxa de câmbio, taxa de inflação, taxa de crescimento, receitas fiscais e prêmios de risco, controlando a causalidade reversa.
Também seria necessário comparar políticas alternativas com a mesma metodologia, inclusive seus efeitos distributivos. O problema é transformar um paradigma em monopólio da explicação.
As reportagens do jornalismo econômico revelam três fragilidades recorrentes no debate econômico público: A passagem de correlações e simulações condicionais para conclusões causais muito abrangentes.
A tendência a tratar expectativas de mercado como sinais objetivos, sem examinar suficientemente sua formação endógena. A assimetria na exigência de provas: propostas heterodoxas precisam demonstrar não provocarem efeitos adversos, enquanto determinados pressupostos ortodoxos recebem tratamento mais próximo de um consenso preestabelecido pela opinião midiática.
A questão do status também merece uma formulação mais ampla. Em qualquer comunidade científica, paradigmas dominantes organizam reputações, critérios de publicação, formação profissional e acesso aos espaços de decisão.
Esses mecanismos favorecem a reprodução intelectual de determinadas abordagens, mesmo sem intenção consciente de excluir alternativas. A crítica mais consistente à ortodoxia não consiste em acusar seus representantes de preconceito ou defesa de privilégios, mas em demonstrar 1.
onde seus modelos transformam hipóteses particulares em conclusões universais e 2. onde seus argumentos deixam de considerar interações sistêmicas relevantes.
Da mesma forma, uma abordagem heterodoxa precisa 1. submeter suas próprias hipóteses a testes, 2.
reconhecer efeitos indesejados e 3. evitar explicações com atribuição de toda a causalidade aos juros ou às decisões dos investidores.
O avanço científico surgiria de uma análise na qual juros, dívida, crescimento, inflação, distribuição patrimonial e expectativas fossem tratados como variáveis simultaneamente determinadas, em processos históricos, institucionais e financeiros sujeitos a retroalimentações. Essa abordagem da complexidade permitiria substituir a disputa entre rótulos — ortodoxo e heterodoxo — por uma investigação das condições concretas sob as quais cada mecanismo causal predomina.
Este é o propósito central da Nova Ciência Econômica.
Brasil 247