Renovação legislativa nos EUA está no centro das atenções de investidores

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Fonte da notícia: Valor Valor

Embora boa parte do mercado avalie que os possíveis efeitos de uma vitória democrata nas eleições de meio de mandato (“midterms”) nos Estados Unidos já estejam nos preços dos ativos financeiros, o resultado da votação pode restringir os poderes de Donald Trump e trazer implicações para a agenda econômica do país.

O cenário fiscal está no centro das discussões, assim como a possibilidade de regulamentação da inteligência artificial (IA), o que pode favorecer juros mais altos e pressionar o desempenho das ações. Outro ponto de atenção é o risco de escalada militar contra o Irã após a votação.

Os eleitores escolherão os 435 deputados da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 senadores. Os resultados oficiais podem levar dias ou semanas para ser divulgados, e a posse será em janeiro de 2027.

Os republicanos atualmente detêm a maioria em ambas as casas, e chegam às eleições em desvantagem, em meio à baixa aprovação de Trump: 32% dos americanos aprovam sua gestão, enquanto 66% desaprovam, segundo a pesquisa Reuters/Ipsos mais recente, publicada em 26 de outubro. A insatisfação é atribuída à alta do custo de vida, após tarifas comerciais e a guerra com o Irã pressionarem a inflação e os preços da energia.

As apostas no Polymarket indicam 62% de probabilidade de os democratas conquistarem maioria na Câmara e no Senado. A chance de o partido assumir o controle da Câmara, mas os republicanos manterem o Senado, é de 29%.

Somados, esses dois cenários indicam uma probabilidade de 91% de que os democratas obtenham a maioria na Câmara. Já uma vitória republicana nas duas casas tem apenas 9% de chance.

Alex Pelle, economista-sênior do Banco Mizuho para os Estados Unidos, avalia que uma vitória democrata nas duas casas do Congresso aumentaria a probabilidade de uma flexibilização fiscal adicional no curto prazo. Na visão dele, os democratas devem tentar reverter os cortes no programa governamental de assistência à saúde Medicaid previstos no orçamento.

Como boa parte dos possíveis desdobramentos fiscais já está embutida nos ativos, no entanto, Pelle estima que esse cenário provocaria uma alta de 2 pontos-base no rendimento dos Treasuries de dez anos, atualmente em torno de 5%. Se o resultado levar a uma Câmara controlada pelos democratas e a um Senado de maioria republicana, o Mizuho projeta uma queda de 3 pontos-base no rendimento do título.

Já no cenário mais improvável, de maioria republicana nas duas casas, Pelle estima um recuo de 7 pontos-base. Sobre o futuro da inteligência artificial, os democratas tendem a defender uma regulamentação mais rigorosa da tecnologia, o que poderia pressionar as ações de empresas do setor e afetar o desempenho do mercado acionário.

Os republicanos, por outro lado, são menos propensos a avançar nessa agenda. O próprio presidente Trump se opõe a iniciativas de maior regulação no setor.

“A política fiscal e o boom de investimentos em IA são dois dos principais motores da economia dos Estados Unidos”, avalia Pelle, em nota. “É improvável que as eleições de meio de mandato gerem grandes mudanças políticas no curto prazo, mas podem alterar as expectativas do mercado em relação a ambos os temas, especialmente à medida que os investidores se preparam para o ciclo eleitoral presidencial de 2028, que é mais importante.”

Para Benjamin Mandel, sócio-fundador e chefe de pesquisa da Jubarte Capital, embora boa parte dos poderes de Trump permaneça intacta mesmo com maioria democrata no Congresso, sua agenda fiscal e as indicações para cargos no governo ficariam mais vulneráveis. “Tudo se resume ao poder de barganha, que seria bem menor em um cenário de vitória democrata no Legislativo”, afirma.

Ele avalia que um Senado de maioria democrata poderia bloquear indicações para vagas no Conselho de Governadores do banco central americano que venham a surgir nos próximos dois anos. Entre elas estão a cadeira de Jerome Powell, cujo mandato como diretor do Fed termina em janeiro de 2028, e a de Lisa Cook, caso Trump consiga destituí-la.

Isso limitaria a capacidade do presidente de construir uma maioria de aliados na autoridade monetária. O Citi aponta que uma das principais preocupações do mercado é o risco de escalada das tensões com o Irã após as eleições de meio de mandato, diante de rumores de que Trump poderia retomar a ofensiva militar nas próximas semanas.

“Muito dependerá do grau de agressividade de eventuais táticas de escalada”, afirma a equipe do banco americano. As possibilidades vão desde ataques a estações de radar até investidas contra a infraestrutura petrolífera iraniana.

“Esta última hipótese provavelmente levaria o Irã a retaliar contra a infraestrutura de petróleo na região, o que poderia impulsionar os preços do petróleo e pressionar as ações para baixo.” O Morgan Stanley está entre as instituições que tratam as eleições de meio de mandato como um “não evento” para os ativos financeiros.

Para a equipe do banco americano, o resultado terá mais implicações microeconômicas, uma vez que muitas das políticas que vêm direcionando o cenário macroeconômico nos últimos dois anos, como a geopolítica, tarifas comerciais e as mudanças na política migratória, estão sob a autoridade do Executivo nos EUA.

“Do ponto de vista dos mercados, fatores que recentemente têm influenciado os preços dos ativos, como tarifas, política tributária e desregulamentação, permaneceriam amplamente inalterados, mesmo diante de uma mudança no controle do Congresso”, afirma a equipe do banco, destacando que boa parte da agenda de Trump pode avançar sem a necessidade de novas leis ou de medidas do Congresso.

“Mesmo que o controle do Congresso mude em decorrência das eleições de meio de mandato, essas diretrizes de política pública continuariam em vigor.” A equipe do Morgan Stanley admite que a política fiscal é a principal área em que diferentes resultados eleitorais podem afetar as perspectivas econômicas.

Ainda assim, o banco acredita que será improvável uma mudança mais ampla nesse campo, visto que “nenhum dos partidos tem grandes incentivos para promover alterações fiscais significativas por meio de cortes de gastos ou aumentos de impostos”. Na mesma linha, o estrategista-sênior para Estados Unidos do Rabobank, Philip Marey, acredita que, no caso de um governo dividido, Trump deve continuar concentrando seus esforços no que depende do poder Executivo.

“Em política externa, política comercial e imigração, Trump poderá manter o atual rumo”, ele afirma, enquanto a política fiscal provavelmente deve ficar “paralisada.” Ele observa que como o cenário de maioria democrata na Câmara e no Senado já está nos preços dos ativos, apenas uma surpresa com uma vitória republicana teria impacto significativo.

Haveria pressão de alta sobre os juros de prazos mais longos, em razão de novas medidas de estímulo fiscal. Marey vê pouca mudança na prática.

No caso de uma maioria democrata no Congresso, haveria uma mudança nas propostas de políticas públicas apresentadas no plenário. No entanto, Trump tem o poder de impedir as medidas às quais se opuser, e a oposição provavelmente não conseguiria reunir os votos necessários para derrubar o veto, mesmo caso o partido conquiste a Câmara e o Senado.

“O cenário mais provável é de paralisia legislativa”, diz. “Ao menos, esse cenário deverá limitar novos aumentos de gastos do governo e cortes de impostos, embora não esperemos nenhuma iniciativa séria para colocar a dívida pública dos Estados Unidos sob controle.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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