Com o avanço do Partido Liberal (PL) nas urnas nas eleições de 2026, o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, volta ao centro da cena política. Aos 77 anos, o dirigente acumula uma trajetória marcada por alianças com diferentes campos políticos: foi um dos articuladores da chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e José Alencar (PL) em 2002 e, duas décadas depois, comandou a legenda que recebeu Jair Bolsonaro e deu sustentação partidária à tentativa de reeleição do então presidente. AO VIVO: VEJA APURAÇÃO DOS VOTOS PARA PRESIDENTE Mapa de votação: Veja como votou cada cidade e estado para presidente No caminho, Valdemar foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do mensalão, renunciou ao mandato de deputado federal, cumpriu pena e voltou a ocupar posição de destaque na política nacional. Também foi alvo de diferentes investigações ao longo das últimas décadas. Formado em Administração de Empresas, Valdemar iniciou a carreira política ainda jovem, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Foi chefe de gabinete do pai, Valdemar Costa Filho, então prefeito do município, e depois ocupou a Secretaria de Obras, Viação e Serviços Urbanos da cidade.
Filiou-se à Arena em 1979 e, com o fim do bipartidarismo, ingressou no PDS, partido que sucedeu a legenda. Também presidiu a Companhia de Desenvolvimento de Mogi das Cruzes e ocupou a diretoria administrativa da Companhia Docas do Estado de São Paulo. Em 1990, foi eleito deputado federal pela primeira vez, já pelo PL. Valdemar assumiu pela primeira vez a presidência nacional da legenda em janeiro de 2000, após a morte de Álvaro Valle, fundador do partido. Ao longo dos anos seguintes, mesmo em períodos em que não ocupou formalmente o cargo máximo da sigla, manteve forte influência sobre seus rumos. Aliança com Lula e o mensalão Valdemar Costa Neto foi um dos articuladores da aliança entre Lula e o empresário José Alencar, então filiado ao PL, nas eleições de 2002. Com a vitória da chapa, a legenda passou a integrar o governo federal, e Valdemar participou da indicação de Anderson Adauto para o Ministério dos Transportes. A trajetória no governo Lula foi abalada em 2005, com a revelação do esquema que ficou conhecido como mensalão. Em depoimento à CPI dos Correios, Valdemar admitiu ter recebido R$ 6,5 milhões entre 2003 e janeiro de 2004, repassados pelo esquema operado pelo empresário Marcos Valério. Valdemar afirmou que os recursos foram usados para quitar despesas relacionadas à campanha presidencial de 2002 e negou que o dinheiro tivesse sido destinado à compra de apoio parlamentar. Parte dos valores, porém, não havia sido contabilizada oficialmente. Siga apuração dos deputados federais: Apuração para deputados federais de SP em tempo real E estaduais: Apuração para deputados estaduais de SP ao vivo Em agosto de 2005, Valdemar renunciou ao mandato de deputado federal antes da conclusão de um processo que poderia resultar em sua cassação. Com isso, manteve os direitos políticos e voltou a ser eleito para a Câmara em 2006 e novamente em 2010. No julgamento do mensalão, o STF condenou Valdemar a sete anos e dez meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Ele começou a cumprir a pena em dezembro de 2013, inicialmente em regime semiaberto. Em maio de 2016, o Supremo concedeu a Valdemar o indulto previsto em decreto presidencial e declarou extinta a pena que ainda restava cumprir. Mesmo afastado do Congresso e, durante parte desse período, da direção formal do partido, continuou a exercer influência sobre a legenda. Quer saber como seus vizinhos votaram? Veja apuração dos votos para presidente por estado ou município Outras investigações Em 2013, Valdemar também foi investigado no âmbito da Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, que apurava suspeitas de venda de pareceres técnicos de órgãos públicos para favorecer interesses privados. O STF abriu inquérito para investigar suspeitas envolvendo o dirigente. Dois anos depois, seu nome voltou a aparecer em uma investigação ligada à Operação Lava-Jato. Em delação, o empresário Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, afirmou ter destinado R$ 200 mil em pagamentos não contabilizados a Valdemar. Registros eleitorais apontavam ainda R$ 300 mil em doações oficiais ao diretório nacional da legenda. Apuração pelo Brasil: veja resultados por estado ou município Outras apurações relacionadas à Lava-Jato também atingiram Valdemar ao longo dos anos. Em 2024, uma investigação baseada em delações da Odebrecht e relacionada à Ferrovia Norte-Sul foi arquivada pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, por falta de elementos mínimos de corroboração e pelo tempo transcorrido. Aproximação com Bolsonaro A aproximação de Valdemar Costa Neto com Jair Bolsonaro ganhou força em 2021, quando o então presidente buscava uma legenda para disputar a reeleição. Bolsonaro se filiou ao PL em 30 de novembro daquele ano, em uma cerimônia em Brasília. A partir daí, Valdemar passou a comandar uma legenda que incorporou Bolsonaro e parte expressiva de seu grupo político. Sob a presidência do dirigente, o PL se consolidou como uma das principais forças da direita brasileira e ampliou sua bancada no Congresso. Desde então, Costa Neto manteve relação próxima com o grupo bolsonarista e participou diretamente das articulações eleitorais envolvendo o ex-presidente e integrantes de sua família. Investigação sobre emendas parlamentares Em julho de 2026, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou a indisponibilidade de até R$ 119,2 milhões em bens de Valdemar no âmbito de uma investigação sobre a destinação de emendas parlamentares. Segundo a Polícia Federal, ao menos 21 emendas, que somavam R$ 119,2 milhões, teriam sido indicadas ou redirecionadas com participação do presidente do PL, apesar de ele não exercer mandato parlamentar. Cerca de R$ 104 milhões desse total já haviam sido pagos. Na decisão, Dino afirmou que mensagens e planilhas apreendidas pela PF indicavam que Valdemar tinha autonomia para direcionar recursos de emendas, sobretudo de comissão, a partir de uma espécie de cota atribuída à sua condição de presidente partidário. A defesa de Valdemar negou irregularidades e afirmou que a decisão se baseava em premissas frágeis e inferências subjetivas. O dirigente também negou ter indicado pessoalmente emendas e afirmou que, em municípios sem representação direta em Brasília, a direção partidária atua como interlocutora de demandas locais.
O Globo