Elizabeth Holmes já foi apontada como a próxima Steve Jobs. Aos 19 anos, criou uma empresa que prometia revolucionar os exames de sangue. Em pouco mais de uma década, tornou-se bilionária, conquistou investidores poderosos e virou estrela do Vale do Silício. A promessa de transformar a biotecnologia, porém, deu lugar a um dos maiores escândalos corporativos da região: condenada por fraude, ela trocou os holofotes pela prisão. Quem são: os 'nepo babies' que vão dar o que falar no cinema e na TV nos próximos meses 'True detective': Antonio Banderas e Nicolas Cage vão estrelar 5ª temporada de série policial A trajetória da fundadora da Theranos ganhou um novo capítulo com a estreia nos Estados Unidos de "You can see everything", documentário que mergulha na intimidade da empresária. Dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, o longa estreou nos cinemas americanos na sexta-feira (16) e virou fenômeno entre críticos e público: chegou a registrar 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, antes de cair para 99% com a entrada de novas avaliações. No Letterboxd, plataforma popular entre cinéfilos, alcançou nota 4,8 de 5 e foi apontado como o longa-metragem mais bem avaliado da história do site, segundo publicações americanas. A produção, ainda sem data prevista para estreia no Brasil, acompanha Holmes nas semanas que antecederam sua entrada na prisão, em maio de 2023, e se estende por três anos de filmagens. Em vez de apenas reconstituir o escândalo que derrubou sua empresa, o documentário investiga como ela enxerga a própria trajetória e como sustenta sua versão dos acontecimentos mesmo depois da condenação. A produção também mostra a vida doméstica da empresária com o companheiro, Billy Evans, e os dois filhos do casal. Mas o que há de tão fascinante nessa mulher que conseguiu convencer tanta gente de que estava prestes a transformar a medicina? A ascensão de uma jovem bilionária Nascida em Washington, nos Estados Unidos, em 1984, Holmes estudou engenharia química na Universidade de Stanford, na Califórnia. Em 2003, aos 19 anos, abandonou a faculdade para fundar a Theranos, empresa de biotecnologia que prometia revolucionar os exames laboratoriais. A ideia era ambiciosa: realizar uma ampla variedade de testes a partir de poucas gotas de sangue, obtidas com uma picada no dedo, em vez das tradicionais coletas com agulhas e tubos. Se funcionasse como anunciado, a tecnologia poderia tornar os exames mais acessíveis, rápidos e baratos. Holmes conquistou investidores de peso e atraiu para o conselho da empresa figuras influentes da política, dos negócios e das Forças Armadas americanas. Entre os apoiadores estavam o magnata da mídia Rupert Murdoch e o ex-secretário de Estado Henry Kissinger. Com uma imagem cuidadosamente construída — marcada pela voz grave e pelas blusas pretas de gola alta, à la Steve Jobs, de quem era admiradora —, Holmes vendia a ideia de que estava prestes a mudar o mundo. Em 2014, a Theranos chegou a ser avaliada em US$ 9 bilhões, e a empresária foi celebrada como uma das mulheres mais jovens a construir uma fortuna bilionária por conta própria. A imagem pública de visionária, no entanto, escondia uma tecnologia que não entregava o que prometia. Elizabeth Holmes AFP O escândalo que derrubou a Theranos A derrocada começou a ganhar força em 2015, quando reportagens do The Wall Street Journal, assinadas pelo jornalista John Carreyrou, revelaram problemas nos equipamentos e na confiabilidade dos exames. A investigação mostrou que a empresa recorria a máquinas convencionais de laboratório para realizar testes que, segundo sua propaganda, seriam feitos pela tecnologia própria. Holmes foi acusada de enganar investidores e, após processos e uma crise de credibilidade, a companhia fechou as portas em 2018.
Em janeiro de 2022, um júri considerou Holmes culpada de quatro acusações relacionadas a fraude contra investidores. Ela foi absolvida de acusações ligadas a pacientes. Em novembro daquele ano, recebeu uma pena de 11 anos e três meses de prisão, que começou a cumprir em maio de 2023 em uma penitenciária federal de segurança mínima no Texas.
Nathan Fiedler e Elisabeth Holmes em cena de 'You can see everything' Divulgação A vida depois da condenação Holmes teve dois filhos com Billy Evans, herdeiro de uma família do setor hoteleiro americano, com quem iniciou um relacionamento em 2017. O primeiro, William, nasceu em 2021, durante o período que antecedeu seu julgamento; a segunda, Invicta, nasceu no início de 2023, poucos meses antes de a empresária se apresentar à prisão. Evans permaneceu ao seu lado durante o processo judicial e a acompanhou até o início do cumprimento da pena. A maternidade e a separação dos filhos passaram a fazer parte da narrativa pública sobre sua vida após a condenação. Holmes, que mantém sua versão de que não agiu com intenção de cometer fraude, também voltou a despertar interesse por sua aparição no documentário. Amanda Seyfried em 'The dropout' Divulgação/Star+ A proposta de "You can see everything" é tão curiosa quanto sua protagonista. Conhecido por trabalhos que brincam com os limites entre realidade e ficção, como a série "The rehearsal", Nathan Fielder entra na intimidade de Holmes para tentar entender como ela se vê depois de tudo o que aconteceu. A equipe passou um período na casa da empresária antes de sua prisão, e o projeto se estendeu por três anos. No filme, ela chega a afirmar que nunca mentiu ao longo da vida, declaração que contrasta com a condenação por fraude contra investidores. A produção inclui ainda a atriz Amanda Seyfried, que interpretou Holmes na minissérie "The dropout" (2022), e explora a distância entre a imagem que a empresária construiu para o público e os fatos que vieram à tona.,
O Globo