Uma daça em ritmo inconstante — a um só tempo frenético e vagaroso — sustenta parte das cenas de “Quem ama cuida”, da TV Globo. Enquanto o cinegrafista Thiago Ferreira avança com uma câmera de quase 30 quilos pendurada no corpo e capta, sem pausas, os quiproquós no apartamento da vilã Pilar (Isabel Teixeira), uma coreografia cheia de minúcias é executada, aos sussurros, no estúdio: por um fone, o cameraman recebe indicações sobre as próximas falas dos atores; atrás dele, um assistente antecipa obstáculos e ajeita fios; móveis rapidamente saem do caminho; alguém usa um cabo de vassoura para abrir uma porta para a câmera; à distância, outro profissional ajusta o foco na lente; microfonistas se esgueiram para não aparecer no enquadramento e um ator se joga num sofá a fim de abrir passagem, ufa!, ao equipamento.
A novela por trás da novela também tem seus dramas. E, por mais ensaiado que seja, o balé sempre reserva algum espaço para o improviso.
No teatro: Nuno Leal Maia fala sobre afastamento da TV e envelhecimento: 'Não imaginava estar vivo aos 79 anos' Há meio século: 'Escrava Isaura', 'Anjo mau', 'Saramandaia' e mais — por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil?
Tudo isso (e mais um pouco) só acontece tanto porque o atual folhetim das 21h tem usado e abusado dos planos-sequência — e aqui dispensam-se lupas para constatar a façanha. Num mesmo capítulo, há cerca de duas semanas, foram exibidas sete tomadas deste tipo, três delas com cinco minutos de duração.
Um total de 25 minutos em que o espectador era conduzido de um ambiente a outro, aproximando-se dos personagens, flagrando reações e bisbilhotando confissões e futricas em diferentes perspectivas, num só fluxo, sem os habituais cortes de montagem na tela. De olho na estética
Em se tratando de um gênero cujo principal chamariz sempre foi a história — a trama, o enredo, o que acontece, afinal, neste ou no próximo capítulo —, chama a atenção que a maneira de filmar vire assunto. É verdade: abra aí o X ou o Instagram.
Nas redes sociais, não são apenas as maldades de Pilar ou os infortúnios da mocinha Adriana (Leticia Colin) que inspiram comentários. A câmera também tem reivindicado seu quinhão de protagonismo.
E Thiago, o cinegrafista responsável por essas sequências, assiste com alguma surpresa ao interesse crescente por seu ofício invisível, que desenvolve desde “A força do querer” (2017), na TV Globo. — Acaba que sou o olhar do público, né? É uma responsabilidade enorme — afirma o operador de câmera.
— Parece um jogo de futebol. Fica todo mundo concentrado e torcendo muito para dar certo.
A sensação é compartilhada pela atriz Letícia Colin, que encontra em tal dinâmica uma espécie de eletricidade própria da atuação nos palcos: — Tem uma adrenalina da concentração coletiva para sustentar seis minutos numa câmera que não corta.
Todo mundo tem que acertar as marcas, as falas, a escuta de um com o outro... Esse estado de atenção me encanta muito.
É o momento em que a gente está realmente mais vivo em cena. Cenas de um plano-sequência de 'Quem ama cuida'
Reprodução/TV Globo Recurso perseguido por grandes diretores de cinema, o plano-sequência está longe de ser novidade na televisão.
Dos últimos anos para cá, porém, multiplicaram-se as ferramentas à disposição de quem decide encarar o desafio. Diretora artística de “Quem ama cuida”, Amora Mautner brinca que Thiago parece um “humanoide”, tamanha a precisão com que conduz a câmera.
Antes de anunciar o “gravando!” no set, os d ois reformulam ideias e combinam posições com os atores, que veem na dinâmica contínua algo parecido com a atuação teatral: ou todos acertam ou todos acertam. De ‘Rocky’ a ‘O iluminado’
Amora não esconde que chega às raias da obsessão quando o assunto é a conceituação de seus projetos. A profissional gosta de falar sobre o assunto — e cita um tanto de referências que ancoram suas escolhas.
Nos três meses anteriores ao início das primeiras gravações da trama, a diretora queimou a mufa para chegar à “concepção estética do folhetim”, como diz. Reviu, então, seus filmes prediletos de Samuel Fuller (“um dos maiores craques do plano-sequência”, como define) e traçou um conjunto de códigos que pudessem ser reproduzidos ao longo dos oito meses em que a novela estaria no ar (até janeiro de 2027).
E aí não teve jeito: as sequências sem cortes assumiram a marca mais reconhecível da história, como ela identifica. Mas não por mero maneirismo.
— O que faz um plano-sequência dar certo é quando ele não vira um artifício de exibição vaidosa. Isso tem que acontecer se a função dramática da cena pedir — enfatiza Amora, que menciona títulos como “Rocky, um lutador” (1976), “O iluminado” (1980) e “Os bons companheiros” (1990) como exemplos de execuções distintas do mesmo recurso.
— O desafio maior é reinventar algo que já foi usado de tantas formas. Então, a receita é estudar e ver e rever filmes.
Gastar tempo com abstração significa, sim, deixar que a concretude venha. E eu me critico muito.
Tenho pavor de que um plano fique firulento. Sinto vergonha alheia de quem faz isso para se exibir.
Mas, afinal, o que justifica, então, tantos planos-sequência num folhetim? Amora sugere a resposta por meio de um exemplo: numa intriga familiar, dispensar a alternância convencional de enquadramentos pode lançar o espectador no miolo das hesitações, dos silêncios e das tensões que alimentam o gênero.
E não só. Ao mudar de ambiente ou abandonar momentaneamente um personagem para seguir outro, a câmera também escolhe quando desvela determinada informação — ou quanto tempo convém escondê-la.
Em outras palavras, não se limita a registrar o drama: ajuda a construí-lo. — Isso é especialmente produtivo na telenovela, que trabalha intensamente com conflitos interpessoais, segredos, revelações e diferentes níveis de conhecimento entre personagens e espectadores — observa Simone Maria Rocha, professora da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisadora da linguagem audiovisual na ficção televisiva.
— Mas o público nunca foi indiferente à maneira como as histórias são contadas. A novela brasileira construiu, ao longo de sua história, um repertório sofisticado, e o espectador aprendeu a reconhecer suas convenções, seus ritmos e seus modos de produzir emoção.
O que acontece agora é que determinadas escolhas de direção passam a ganhar mais visibilidade, inclusive fora da própria obra. Um gesto autoral
Nem sempre foi assim, é claro. Herdeiras diretas das radionovelas, as primeiras produções do gênero concentravam seus maiores atrativos no texto e no elenco, enquanto a direção permanecia quase sempre à sombra.
A partir dos anos 1960, porém, algumas experiências passaram a dar maior visibilidade ao trabalho de direção, que aos poucos conquistou o reconhecimento de uma assinatura artística. Um gesto autoral, por que não?
Galerias Relacionadas Autor do livro “A Hollywood brasileira — Panorama da telenovela no Brasil”, Mauro Alencar identifica um marco dessa transformação em “A muralha” (1968).
Na produção da TV Excelsior, Sérgio Britto imprimiu um tratamento cinematográfico à adaptação do romance de Dinah Silveira de Queiroz. Poucos anos depois, Walter Avancini experimentou planos-sequência em “Fogo sobre terra” (1974), de Janete Clair, antes de consolidar uma assinatura estética inovadora em “Gabriela” (1975), que também fez uso do recurso de modo mais frequente.
— Este foi o ponto de mutação estética — analisa Mauro, que destaca ainda o trabalho de nomes como Jayme Monjardim, em “Pantanal” (1990), Luiz Fernando Carvalho, em “Renascer” (1993) e “O Rei do Gado” (1996), e Walter Carvalho, nas novas versões de “Pantanal” (2022) e “Renascer” (2024).
— A partir daí, as possibilidades estéticas incorporando a linguagem cinematográfica foram se ampliando a passos largos apoiadas nos avanços tecnológicos. Euforia no olhar
A rigor, “não há nada de novo” em planos-sequência, como ressalta Walter Carvalho. Diretor de fotografia e cineasta com longa trajetória na televisão — em produções como “O rebu” (2014), “Justiça” (2016), “Amor de mãe” (2019) e “Coração acelerado” (2026) —, ele vê com estranheza o entusiasmo em torno de um recurso tão antigo.
A euforia atual talvez esteja menos nas imagens do que no modo de consumi-las. Não custa lembrar: há não muito tempo, quem perdia uma cena de novela na televisão dificilmente tinha outra oportunidade de vê-la.
— Não consigo entender a fissura pelo plano-sequência como sendo uma novidade — opina. — Ao mesmo tempo em que a evolução dos equipamentos amplia as possibilidades criativas, ela também reveste o antigo de uma roupagem nova.
Uma boa resposta para as novas tecnologias está em Flaubert: quanto mais telescópios forem aperfeiçoados, mais estrelas nascerão. Walter frisa que, mesmo sem os cortes da montagem, a imagem exige uma composição cuidadosa: num plano-sequência, à medida que a câmera se desloca, atores entram e saem do enquadramento, objetos mudam de posição — e a atenção do espectador precisa ser conduzida sem que tudo isso se transforme numa confusão visual.
Do contrário, o resultado será uma “câmera bêbada”, como adverte. Os bastidores de gravação de um plano-sequência na novela 'Quem ama cuida'
Manoella Melo/TV Globo/Divulgação Por outro lado, tamanho esforço de encenação — a exemplo do que ocorre em “Quem ama cuida” — pode produzir, aos olhos de quem assiste, uma impressão de absoluta espontaneidade.
Como a ação se desenrola sem interrupções, o espectador tem a sensação de testemunhar os acontecimentos em tempo real, quase como se estivesse ali, colado aos personagens. Mas há uma contradição.
A continuidade que confere naturalidade também pode denunciar o artifício, tornando perceptíveis a coreografia dos atores e as manobras da câmera. Em vez de desaparecer, a técnica chama atenção para si mesma.
As possibilidades de execução, aliás, são muitas. Há planos-sequência realizados com câmeras sobre trilhos; outros recorrem a sistemas de estabilização, como a Steadicam e o Trinity, utilizados na novela das 21h.
São recursos que abrem leques no audiovisual, sem, no entanto, dispensar o planejamento exigido por tomadas dessa natureza. Uma conta que fecha?
Na televisão, porém, o desafio ganha contornos particulares. Diferentemente da produção de um longa-metragem, uma novela precisa dar conta de dezenas de cenas diariamente, num ritmo que não costuma admitir extravagâncias.
Curiosamente, o plano-sequência nem sempre dá mais trabalho. Em determinadas circunstâncias, pode até facilitar a vida de quem está no estúdio.
Ao dispensar a gravação de uma cena sob vários ângulos, o recurso permite ganhar tempo. Em compensação, cobra uma preparação minuciosa — e qualquer pedra no meio do caminho pode mandar todo mundo de volta à estaca zero.
— Existe a impressão de que, por resolver tudo num único plano, ele necessariamente economiza tempo. Pode economizar, sim, mas é preciso considerar todo o trabalho anterior à gravação — ilustra Fabrício Mamberti, diretor de novelas como “Deus salve o rei” (2018) e “Fuzuê” (2023).
— A conta não pode ser apenas quantos planos deixamos de gravar. É preciso considerar o tempo de ensaio, a complexidade da cena e a possibilidade de repetição.
A tecnologia oferece possibilidades extraordinárias, mas não elimina a complexidade. A pergunta que me acompanha continua sendo: por que realizar tal ação sem cortar? Quando existe uma resposta dramática, o recurso tem propósito.
E é o propósito que transforma a técnica em emoção.
O Globo