Uma menina de 5 anos morta por disparos de fuzil, um policial militar acusado de homicídio qualificado e um senador recrutado para abrir portas no Superior Tribunal de Justiça (STJ). São os personagens no centro de um caso que entrou na disputa pela Presidência da República entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), adversários no segundo turno e no debate desta sexta-feira, na TV Globo, no qual o tema deve voltar à pauta.
Ofensiva: Lula ataca Flávio Bolsonaro por casos Master e Ana Clara e faz apelo a votos de idosos e de mulheres Além do caso Ana Clara: Flávio Bolsonaro advogou para livrar outros PMs acusados pela morte de inocentes de júri popular
A história começa em 2 de fevereiro de 2021, quando Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, brincava com o irmão Pedro, de 2, na porta de casa, na comunidade do Monan Pequeno, no bairro do Badú, em Niterói. Naquela manhã, policiais militares do 12º BPM faziam uma incursão pela região.
Segundo os agentes, a equipe foi recebida a tiros por traficantes e reagiu. Moradores negaram que tivesse ocorrido um confronto.
Durante a ação, Ana Clara foi atingida por um projétil de fuzil calibre 7,62 milímetros, que entrou pela parte posterior do braço direito, atravessou o membro, penetrou no tórax, atingiu a aorta e os pulmões e saiu pelas costas. A menina sofreu uma hemorragia interna e morreu depois de ser levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima.
Conforme a denúncia do Ministério Público do Rio (MP-RJ), um dos policiais ficou nervoso ao perceber que Ana Clara havia sido atingida e passou a repreender o cabo Bruno Dias Delaroli: “Olha a merda que você fez”. A frase foi repetida várias vezes.
A equipe também era integrada pelo cabo William Pereira Trindade e pelo soldado Leonardo Maia Santos, mas o documento não identifica qual deles fez a reprimenda. Bruno foi preso e se tornou réu por homicídio qualificado.
O cabo Bruno Dias Delaroli Reprodução
A investigação reuniu elementos que contrariavam a versão apresentada pelos militares. A viatura não tinha marcas de tiros e, embora Bruno afirmasse ter sido atacado por criminosos armados com pistolas, os peritos não encontraram estojos de munição dessas armas.
No local, foram recolhidos apenas estojos de fuzil calibre 7,62 milímetros, compatíveis com o armamento utilizado pelos agentes. Os vestígios estavam no ponto indicado por uma testemunha.
Uma mancha de sangue diante da residência também correspondia ao local onde Ana Clara havia sido atingida. A mãe, a tia e dois moradores negaram a existência de confronto.
De acordo com a denúncia do Ministério Público, os PMs teriam retornado à cena do crime para recolher estojos de munição. Diante dos depoimentos, os promotores solicitaram a apuração de possíveis crimes de fraude processual e falso testemunho envolvendo os três integrantes da equipe.
Para a acusação, Bruno disparou contra uma área residencial mesmo depois de ouvir moradores alertando sobre a presença de civis. O promotor Marcelo Abramovitch sustentou que o policial assumiu o risco de matar, conduta enquadrada como dolo eventual.
Bruno permaneceu preso até 18 de novembro de 2021, quando a Justiça autorizou que respondesse ao processo em liberdade, mediante medidas cautelares. A decisão ocorreu após um pedido de seu advogado, Paulo Márcio Ennes Klein, e manifestação favorável do MP-RJ.
Flávio Bolsonaro não teve participação na soltura do policial. Sua entrada na equipe de defesa ocorreria mais de dois anos depois.
O local onde Ana Clara foi morta Reprodução
Em 2024, Flávio passou a integrar a defesa de Bruno a convite de Klein, presidente do Instituto Família Policial, entidade dedicada à assistência jurídica para agentes de segurança. Os dois já se conheciam da época em que o criminalista atuou na defesa de Fabrício Queiroz, ex-assessor do parlamentar envolvido nas suspeitas de rachadinha no gabinete do então deputado estadual.
Flávio havia manifestado ao advogado interesse em exercer a advocacia criminal. Quando o processo chegou ao STJ, Klein decidiu procurá-lo.
Queria contar com um profissional que, além de advogado, ocupava um mandato no Senado e tinha acesso aos ministros do tribunal. O objetivo era impedir que Bruno fosse submetido ao Tribunal do Júri.
A estratégia da defesa consistia em afastar a acusação de homicídio doloso, sustentada pelo MP-RJ com base na tese de dolo eventual. Os advogados alegavam que Bruno havia reagido a tiros de traficantes e que a morte de Ana Clara ocorrera durante uma ação policial contra criminosos armados.
Pretendiam obter a desclassificação para homicídio culposo, sem intenção de matar, e transferir o julgamento para a Justiça Militar. Flávio aceitou o convite e não cobrou honorários.
Sua principal missão não era elaborar recursos ou fazer sustentações orais, tarefas desempenhadas por Klein, mas, a partir do prestígio do mandato de senador, facilitar o acesso aos ministros do Superior Tribunal de Justiça. Os dois percorreram gabinetes, apresentaram os argumentos da defesa e tentaram convencer os magistrados a impedir que Bruno fosse submetido ao Tribunal do Júri.
Ao obter audiências com os ministros, expunham os fundamentos jurídicos do recurso e defendiam pessoalmente a tese de que o policial não havia assumido o risco de matar Ana Clara. O documento que formalizou a entrada de Flávio na defesa foi assinado por Klein em 10 de abril de 2024, um dia depois de a Quinta Turma do STJ rejeitar, por três votos a dois, um agravo regimental apresentado pelos advogados.
Os ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Reynaldo Soares da Fonseca votaram contra o recurso. Messod Azulay Neto e Daniela Teixeira divergiram.
A maioria rejeitou a pretensão por fundamentos processuais, sem decidir sobre a culpa do policial. A papelada consultada pela coluna não permite estabelecer se Flávio participou de contatos com ministros antes desse julgamento.
Sua atuação formal no processo começou no dia seguinte. A defesa insistiu na tentativa de impedir o júri.
Em outubro de 2024, Klein apresentou outro habeas corpus ao STJ, sem a assinatura de Flávio. O pedido foi rejeitado por unanimidade em abril de 2025.
Os advogados recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas a ministra Cármen Lúcia também negou a pretensão. A Primeira Turma confirmou a decisão.
Em agosto de 2025, tornou-se definitiva a determinação de submeter Bruno ao Tribunal do Júri. A atuação de Flávio nos gabinetes do STJ, portanto, não conseguiu alterar o destino judicial do policial.
Cinco anos depois da morte de Ana Clara, o caso entrou na campanha presidencial. Durante o debate da Band, no último domingo, Lula cobrou explicações do adversário por ter participado da defesa do policial.
O presidente questionou por que um senador havia se envolvido na tentativa de impedir que o acusado pela morte de uma criança fosse levado a julgamento. Flávio respondeu que Lula estava criminalizando o exercício da advocacia e condenando antecipadamente um homem que ainda não havia sido julgado.
Outra controvérsia surgiu depois que o julgamento de Bruno, marcado para 21 de outubro de 2026, foi transferido para 5 de maio de 2027. O adiamento, durante o período eleitoral, levantou suspeitas de interferência com o intuito de evitar que o caso repercutisse na campanha.
Uma decisão obtida pela coluna, porém, apresenta outra explicação. Em 5 de agosto, a juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce dos Santos, titular da 3ª Vara Criminal de Niterói, informou que havia sido convocada para atuar como desembargadora substituta na 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Na condição de relatora, precisaria participar de uma sessão por videoconferência marcada para 21 de outubro, às 13h, mesmo dia e horário do júri. Por incompatibilidade de agenda, a magistrada transferiu o julgamento para o ano seguinte — ou seja, a decisão não decorreu de um pedido da defesa.
Enquanto aguarda o julgamento, Bruno continua na ativa na PM, mas está afastado do policiamento ostensivo e exerce funções administrativas no quartel do 12º BPM (Niterói). Segundo Klein, o policial encontra-se impedido de portar arma.
Bruno está noivo de uma dentista e ajuda a administrar o consultório da companheira. Antes de ser preso, cursava Odontologia, mas abandonou a faculdade depois de se envolver no processo criminal.
Procurado para comentar a acusação e as circunstâncias da morte de Ana Clara, o PM preferiu não se manifestar. A campanha de Flávio Bolsonaro também não retornou aos contatos da coluna.
O Globo