Na sala de imprensa do Nilton Santos, que ainda se chamava Engenhão, em janeiro de 2014, o ar-condicionado e o Guaravita, patrocinador do clube, prestavam serviços relevantes ao jornalismo brasileiro. Fazia calor, havia gente demais e estávamos ali para ouvir Clarence Seedorf anunciar que deixaria o Botafogo, encerraria a carreira de jogador e assumiria o Milan como treinador. Antes de ele se sentar, alguém retirou, a seu pedido, o copo do patrocinador que enfeitava a mesa. Ao chegar, o holandês pediu que diminuíssem a intensidade do ar. Eu cobria a coletiva e achei que aquela recusa aos nossos recursos de sobrevivência ao verão carioca já era uma despedida simbólica antes da primeira resposta. Que Jogo É Esse: assine e receba a newsletter de futebol do GLOBO, escrita por Thales Machado, editor de Esportes Novo comandante: Corinthians contrata Clarence Seedorf como técnico até o fim de 2027 Seedorf passara um ano e meio tentando aperfeiçoar o Botafogo, tarefa que incluía jogar muito e opinar sobre assuntos que outros camisas 10 costumam deixar para lá. Queria mudar a alimentação e até um trecho do hino, por considerar inadequado que se cantasse sobre perder, ainda que fosse para dizer que não se podia. A composição de Lamartine Babo sobreviveu à consultoria. O time ganhou o Carioca e voltou à Libertadores, que Seedorf não disputaria. Ia trocar a possibilidade de conquistar a América pela oportunidade de ensinar futebol na Europa. Escrevi na época um texto de despedida no qual fiz uma previsão: “Não duvido do seu sucesso”. Imaginava que logo estaria na festa de gala da Fifa concorrendo a melhor treinador do mundo. Mais de 12 anos depois, às vésperas de sua estreia pelo Corinthians contra o Vitória, na segunda-feira, a carreira que acompanhei me dá motivos para desconfiar daquela bola de cristal. Minha previsão tinha a companhia de quatro Champions e um erro bastante comum: tratar a mudança de profissão como promoção. Seedorf virou treinador de um gigante sem passar pelo aprendizado como auxiliar ou pelas categorias de base. O Milan ofereceu a oportunidade ao homem que conhecia havia anos, embora ainda não pudesse conhecer o trabalho que estava contratando. A distinção parecia pequena diante daquele currículo. Seria injusto dizer que deu tudo errado. O Milan estava em 11º no Italiano quando ele chegou e terminou em oitavo, com 11 vitórias em 19 rodadas sob seu comando. Mas houve desgaste com a direção e, em junho, ele foi demitido. A imprensa relatou divergências com Adriano Galliani sobre o poder de decidir contratações. Antes do anúncio formal de sua saída, Berlusconi já o tratava publicamente como passado. A intimidade com o clube não lhe garantira tempo para construir uma carreira. No Shenzhen, da segunda divisão chinesa, ficou alguns meses de 2016 e saiu sem o acesso. No Deportivo La Coruña, em 2018, encontrou um time ameaçado de rebaixamento e reorganizou a rotina: treinos em dois períodos, refeições em grupo, mudanças na concentração antes dos jogos, escolha do capitão. Interferiu até na música do aquecimento do Estádio Riazor. O homem do Guaravita agora dispunha de um estádio inteiro para ajustar o ambiente. Foram duas vitórias em 16 jogos, insuficientes para evitar a queda. Há uma história daquela passagem que escapa à caricatura do mandão. Quando torcedores acusaram os jogadores de falta de empenho, Seedorf publicou dados físicos para defendê-los. O time corria; o problema precisava de outra explicação. Muntari, que já trabalhara com ele no Milan, disse que o técnico estava mais calmo e conversava individualmente com os atletas. Na Itália, recém-aposentado, ainda pensava como jogador. Era um testemunho de evolução, embora a tabela não tenha colaborado para demonstrá-la. Na seleção de Camarões, a convicção de Seedorf cobrou outro preço. Na primeira convocação, deixou fora atletas que jogavam na China e questionou o nível competitivo daquele futebol, onde ele próprio trabalhara. Benjamin Moukandjo, capitão do título africano de 2017, considerou as declarações injustas, reclamou de não ter recebido uma conversa e se aposentou da seleção. Seedorf foi demitido em julho de 2019, depois da eliminação nas oitavas da Copa Africana. Sua carreira no banco entrou então numa pausa de sete anos que termina nesta segunda-feira, na Neo Química Arena. A vida continuou movimentada. Separado da brasileira Luviana, razão de sua conexão com o Brasil e português perfeito, casou-se com Sophia Makramati, canadense de origem iraniana, e em 2022 anunciou a conversão ao Islã, agradecendo à mulher por ajudá-lo a conhecer a religião. Esclareceu que manteria o nome recebido dos pais. Associou-se a Khabib Nurmagomedov num projeto de escolas que combinava futebol e elementos de artes marciais. Comentou a Champions, foi anunciado pela Fox para a Copa de 2026, integrou o conselho de supervisão da federação holandesa, do qual saiu para assumir o Corinthians, e se tornou consultor do Esteghlal, do Irã. Tem licença UEFA Pro. Chamar esse intervalo de desemprego seria desconhecer uma agenda que provavelmente daria trabalho até para organizar no calendário. O que essa agenda não oferece é uma experiência recente de dirigir uma equipe diariamente. Na apresentação ao Corinthians, Seedorf disse que recusara projetos nos quais não acreditava e citou os grandes treinadores com quem conviveu. Em 2021, havia denunciado a falta de oportunidades para técnicos negros na Europa. As explicações podem conviver: receber propostas não significa ter acesso às mesmas portas. A dificuldade de conseguir trabalho também precisa ser considerada ao avaliar uma carreira que nunca ganhou continuidade. Ainda assim, o Corinthians, depois de oito derrotas seguidas no Brasileiro, precisa explicar melhor sua escolha. A história de Seedorf permite admirar a independência, a curiosidade e a segurança com que atravessou países e profissões. Oferece menos elementos para confiar que saberá recuperar, com urgência, um time em crise. O clube acrescentou uma dúvida de sete anos a problemas que precisam de resposta na próxima rodada. Seedorf pode dar certo, e seria ótimo descobrir o treinador que imaginei naquela sala do Engenhão. A diferença é que, em 2014, eu fazia uma previsão sobre uma carreira que ainda não existia. Agora há uma trajetória a examinar, curta em jogos e longa em intervalos. Para decidir quem entregará a escalação na segunda-feira, esses 12 anos importam mais do que as quatro Champions. Eu tinha o direito de me entusiasmar com o craque numa crônica de despedida. O Corinthians não. E tinha a obrigação de contratar o técnico competente. A ver se conseguiu.
Que Jogo É Esse: Da saída do Botafogo até a volta no Corinthians; o que esperar de Seedorf
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O Globo
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