Quatro bombas que Lula deixou e que ameaçam o futuro da economia

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Fonte da notícia: Gazeta do Povo (Economia) Gazeta do Povo (Economia)

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumir o Palácio do Planalto em 5 de janeiro, pela quarta vez, herdará uma economia em que a dívida pública não para de crescer, os juros estão fora de controle e o poder de compra das famílias está enfraquecido. Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o modelo petista que ancorou o crescimento no estímulo constante à demanda, sem ganhos de produtividade, esbarrou nos próprios limites, e se não houver correção o cenário mais provável é de uma crise de crédito.

As fontes também indicam que se não houver uma mudança contundente de rumos na condução econômica, o país pode enfrentar uma estagnação prolongada. Segundo o head de alocação da XP Investimentos, Rodrigo Sgavioli, o país vive uma dinâmica de um pé no acelerador e outro no freio — em referência à expansão dos gastos públicos, que estimula a demanda, mas pressiona a inflação e obriga o Banco Central (BC) a manter os juros elevados para contê-la.

Para evitar um colapso semelhante ao vivenciado em momentos de descontrole fiscal do passado, Lula terá de desarmar as quatro bombas que ele mesmo plantou: forte aumento da dívida pública, juros em níveis  elevados, explosão do endividamento privado e aumento da insegurança jurídica.

Um eventual sucesso do próximo mandato dependerá fundamentalmente da disposição de Lula de implementar um ajuste estrutural focado na contenção das despesas obrigatórias, na restauração da segurança jurídica e na aprovação de reformas que destravem o crescimento potencial do país, apontam os especialistas.

O presidente reeleito, entretanto, não sinalizou disposição em implementar medidas desse tipo ao longo da campanha eleitoral. As contas públicas enfrentam uma situação cada vez mais delicada, marcada por déficits persistentes, crescimento acelerado da dívida e pouca margem para cortar despesas.

Na última década, o país registrou superávit primário apenas em 2022, resultado considerado excepcional pelos analistas. No terceiro mandato de Lula, a velocidade de crescimento da dívida pública mais que dobrou, e o endividamento deve chegar a entre 85% e 91,5% do PIB, conforme o cenário e o horizonte das projeções.

O problema é agravado pela rigidez do orçamento: mais de 90% dos gastos são obrigatórios, o que limita a capacidade do governo de reduzir despesas e reequilibrar as contas. Segundo a diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, o arcabouço fiscal perdeu credibilidade porque despesas foram excluídas de suas regras, enfraquecendo seu papel de controle das contas públicas.

Há divergências sobre o tamanho do ajuste necessário. Ribeiro cita uma regra prática que aponta para um superávit primário de 2,5% do PIB, considerando juros reais de 5%.

Já o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, avalia que um ajuste de 1% a 1,5% do PIB no início do governo seria suficiente para colocar a dívida em trajetória de queda a partir de 2030. A recuperação do grau de investimento não deve ocorrer no curto prazo.

As projeções de mercado apontam para seis a dez anos de disciplina fiscal contínua. Para reverter a trajetória da dívida, os especialistas defendem uma regra fiscal vinculada ao endividamento em relação ao PIB.

Enquanto a dívida superar 80% do PIB, as despesas públicas ficariam sem aumento real, acima da inflação, com flexibilização conforme o endividamento diminuísse. A contenção dos gastos ajudaria a recuperar a confiança dos investidores e reduzir os juros.

O ajuste exigiria mudanças nas regras de reajuste do salário mínimo e de correção de aposentadorias e do BPC, que poderiam passar a acompanhar apenas a inflação em períodos de estresse fiscal, segundo Ribeiro. Lula se mostrou contrário a essas mudanças durante a campanha.

Outra medida seria corrigir os pisos constitucionais de saúde e educação apenas pela inflação, o que geraria uma economia acumulada de R$ 40 bilhões a R$ 53,6 bilhões até 2030, segundo estimativas da Genial. A lista inclui ainda uma reforma administrativa para conter gastos com pessoal e supersalários, além de um corte de 10% nos gastos tributários não constitucionais sem avaliação de resultados.

Lula também não sinaliza disposição para essas medidas. A desconfiança dos investidores em relação às contas públicas eleva os juros cobrados nos contratos de longo prazo, aumentando o custo da dívida do governo e transferindo mais recursos públicos para quem recebe esses juros.

Em 2025, o Estado gastou R$ 1,3 trilhão apenas em juros, o equivalente a 9% do PIB. Camargo faz uma crítica direta a esse mecanismo: "Você faz programas para diminuir a pobreza e, ao mesmo tempo, é obrigado a transferir R$ 1,3 trilhão para os 10% mais ricos da população.

A desigualdade não vai cair nunca". O quadro piora porque mais da metade da dívida pública é indexada diretamente à taxa Selic.

O aperto monetário para combater a inflação degrada o resultado fiscal e realimenta a bola de neve do endividamento. Interromper esse círculo vicioso exige recuperar a confiança dos investidores já nos primeiros 100 dias de governo.

Segundo Sgavioli, quando o mercado acredita que as contas públicas serão ajustadas, os juros dos contratos de longo prazo caem antes mesmo de o Banco Central reduzir a Selic. A transição de 2016 ilustra esse efeito.

Após o avanço e a aprovação do Teto de Gastos, as taxas nominais de longo prazo caíram de 16,62% para 12,16%, enquanto os juros reais dos títulos públicos indexados à inflação recuaram de 7,32% para 5,65% em poucos meses. A queda dos juros reduz o custo de refinanciar a dívida pública.

Segundo estimativa da Genial, essa economia poderia chegar ao equivalente a 4,87 pontos percentuais do PIB acumulados até 2030. Com contas públicas mais equilibradas, o governo gastaria menos com juros, enquanto famílias e empresas poderiam obter crédito mais barato, sem depender de novos estímulos fiscais.

Segundo o Banco Central, em julho, 28,7% da renda das famílias estava comprometida com o serviço da dívida apenas com o Sistema Financeiro Nacional, o maior número da série histórica iniciada em 2005. A taxa média de juros com recursos livres cobrada das pessoas chegou a 61,7% ao ano em agosto.

A Serasa aponta que nesse mês eram 83,9 milhões de consumidores negativados, o maior número da série histórica iniciada em 2016 e o vigésimo mês consecutivo de alta. Em setembro, 81,7% das famílias estavam endividadas, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Na prática, o Estado, que paga cada vez mais juros para rolar sua dívida, empurra esses juros para quem precisa tomar crédito: famílias e empresas. A deterioração das finanças estatais transbordou para o setor privado, criando três frentes de estresse: o alto comprometimento da renda familiar, o aperto das empresas com recordes de recuperação judicial e a ameaça de uma crise de crédito.

As empresas vivem situação similar. O número de empresas inadimplentes no Brasil cresceu em agosto de 2026 e chegou a 9,3 milhões de CNPJs, de acordo com a Serasa Experian.

A concentração maior é entre micro e pequenas e do setor de serviços. Mesmo gigantes como Raízen, Cosan e CSN estão apertadas por dívidas e vendendo ativos.

Segundo Camargo, para tirar famílias e empresas do sufoco, o governo precisa parar com os programas de renegociação e perdão de dívidas, já que o perdão governamental geraria um risco moral danoso: "Por que vou pagar minha dívida se daqui a três anos eles vão perdoar? Você está incentivando as pessoas a não pagarem".

No longo prazo, os especialistas apontam que é necessária a consolidação da educação financeira nacional e a implementação de uma agenda microeconômica para baratear o crédito. Ribeiro detalha que ela passa por aumentar a competição bancária, reduzir a tributação sobre os bancos e garantir segurança jurídica na recuperação de ativos.

A insegurança jurídica é a face mais visível do ambiente de negócios brasileiro, que sofre com mudança constante de regras e credibilidade fiscal insuficiente para reconquistar o grau de investimento. Um dos exemplos marcantes de insegurança jurídica na condução do governo federal foi a proibição abrupta das bets durante a campanha eleitoral.

Cada empresa havia desembolsado R$ 30 milhões em outorgas para operar legalmente por cinco anos. Após anunciar a proibição, o governo afirmou que não devolveria os valores pagos pelas empresas.

Para as fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, a solução exige resgatar a estabilidade institucional e o respeito estrito aos contratos, já que um ambiente jurídico previsível favorece o investimento produtivo. Para destravar o PIB potencial, Sgavioli defende focar em reformas microeconômicas e na elevação da produtividade de setores defasados.

O caminho aproveita vocações estratégicas do país, como energia limpa, minerais críticos e data centers. Se não desarmar as quatro bombas, Lula poderá entregar ao sucessor, em 2031, uma economia com dívida pública ainda maior, juros elevados e crédito mais caro, prolongando os desequilíbrios fiscais e limitando as perspectivas de crescimento do país.

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Publicação Original Gazeta do Povo (Economia) gazetadopovo.com.br
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