Quando o manejo passa a fazer parte da gestão de risco e as boas práticas entram na conta do crédito rural

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Fonte da notícia: Globo Rural Globo Rural

A safra 2026/27 começa com uma combinação que exige atenção redobrada: clima incerto, margens pressionadas e crédito que, embora anunciado em volume expressivo, nem sempre chega ao produtor no momento e nas condições de que ele precisa. O El Niño já está configurado, e seus efeitos podem ser diferentes de uma região para outra. Nesse cenário, cada decisão tomada antes e durante o ciclo produtivo terá mais peso sobre o resultado da lavoura. De acordo com as últimas projeções divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a soja deverá ocupar 49,3 milhões de hectares e produzir 181,6 milhões de toneladas em 2026/27. Para o milho, a estimativa é de 148 milhões de toneladas nas três safras.

Só na primeira safra, a área prevista é de 4,54 milhões de hectares, alta de 10,7%; na segunda, deve chegar a 18,48 milhões de hectares, expansão de 3,7%. São projeções de início de ciclo, sujeitas principalmente ao comportamento do clima. O avanço do milho merece atenção especial. A demanda por ração continua forte, mas a expansão da indústria de etanol de cereais tornou-se um dos principais estímulos ao cultivo. O grão ganha mais um destino relevante no mercado interno, o que influencia as decisões de plantio. Essa oportunidade, porém, aumenta a importância de proteger a produtividade: uma área maior não assegura, por si só, uma colheita maior ou uma margem melhor.

Globo Rural Não existe solução capaz de impedir uma estiagem ou uma chuva fora de hora. Existe, porém, uma forma de reduzir perdas que estão ao alcance do agricultor: acompanhar a lavoura de perto, identificar problemas cedo e agir com base no que acontece em cada área. É nesse contexto que o Manejo Integrado de Pragas (MIP) ganha ainda mais importância. O uso de biológicos vem ampliando as ferramentas disponíveis no campo. Seu maior valor aparece quando eles fazem parte de um programa estruturado, com monitoramento, escolha criteriosa das tecnologias, atenção ao momento de aplicação e avaliação dos resultados. O mesmo vale para as boas práticas agrícolas. Produto de alta tecnologia e acompanhamento técnico precisam caminhar juntos. Em um ano de El Niño, essa disciplina se torna ainda mais relevante. Alterações na distribuição das chuvas e na temperatura podem mudar o ritmo da lavoura e as condições de manejo. O agricultor precisa ter margem para ajustar suas decisões ao longo da safra. Monitorar pragas, preservar inimigos naturais, observar as condições de aplicação e registrar o que funcionou ajuda a evitar intervenções desnecessárias e a proteger o investimento já feito na produção. É assim que a sustentabilidade começa a aparecer no resultado: menos desperdício, melhor uso dos recursos e maior capacidade de reagir aos problemas no momento certo. O crédito compõe a outra parte dessa decisão. O Plano Safra 2026/27 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, mas o valor anunciado não elimina as dificuldades de acesso enfrentadas por muitos produtores. Com recursos disputados e custos que precisam caber na conta, demonstrar como a propriedade produz pode abrir oportunidades. Há uma ligação cada vez mais concreta entre boas práticas agrícolas e financiamento. No Plano Safra 2026/27, a adoção de práticas agropecuárias sustentáveis pode reduzir em 0,5 ponto percentual a taxa de juros de custeio para produtores elegíveis. Programas de boas práticas reconhecidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária oferecem ao agricultor um caminho para organizar, verificar e certificar o trabalho realizado na propriedade. Leia mais opiniões de especialistas e lideranças do agro A Plataforma Agro Brasil + Sustentável permite usar certificações válidas nesse processo de habilitação ao benefício. O certificado, por si só, não concede o desconto: é preciso atender aos requisitos da plataforma, e a operação continua sujeita à análise da instituição financeira. Esse é um avanço que merece atenção. Quando o produtor registra suas práticas, mede resultados e passa por um processo de certificação, ele ganha mais do que um selo. Ganha informações para gerir melhor a propriedade e elementos para demonstrar a qualidade de sua produção a quem compra e a quem financia. A certificação faz sentido quando retrata o trabalho efetivamente realizado no campo. A safra que se inicia pede essa visão do sistema de produção como um todo. Biológicos de alta tecnologia podem contribuir para o manejo; assistência técnica pode transformar dados em decisões; boas práticas podem reduzir perdas e fortalecer a segurança ambiental. Combinados e ajustados à realidade de cada propriedade, esses elementos criam melhores condições para buscar produtividade, qualidade e rentabilidade, mesmo diante de um clima mais desafiador. Produzir mais continuará sendo importante. Na safra 2026/27, produzir com critério e conseguir demonstrar como esse resultado foi alcançado pode fazer uma diferença decisiva. Para a agricultura regenerativa, o manejo integrado deixou de ser apenas uma decisão agronômica e passou a ser também uma decisão econômica. *Marcelo Poletti é CEO da Promip As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural

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