O tema de hoje é: como se manter casada. Tendo como premissa um paneleiro de teto.
Em julho deste ano eu e meu marido colocamos o casamento em risco ao decidir reformar a cozinha. O projeto arquitetônico se baseou em fotos do Pinterest.
A equipe da obra consistia em um único pedreiro guatemalteco, com um emprego formal durante a semana e aparecendo somente aos sábados. O crédito da assessoria hidráulica é de uns vídeos no YouTube.
Tinha tudo para dar errado e não deu, e depois de meses de caos e de pó surgiu a cozinha dos sonhos. Eis que meu marido suspira.
O que ele realmente precisava para ser feliz era um paneleiro de teto. Um daqueles racks presos por ganchos sobre a pia ou a bancada, de onde pendem variadas panelas.
Ele me revela o desejo, e eu, feliz pelo recente êxito matrimonial, a superação de meses comendo galeto de padaria e esquentando Nescafé num micro-ondas na garagem, digo: claro, meu amor. Pode instalar.
No dia seguinte surge o paneleiro em frente à janela. E agora a coisa fica boa.
Venham comigo, eu quero todo mundo discernindo, avaliando cuidadosamente a situação. Esta é uma janela sanfonada, abrindo para o interior do cômodo.
Meu marido que, se não for inteligente, vem enganando muitíssimo bem por quase 20 anos, instalou o paneleiro de um modo que impede a abertura da janela. Ele pega uma frigideira, encaixa o furo do cabo num dos ganchos do rack e sorri, sugerindo aplausos.
Então eu tive que explicar para ele que, quando alguém coloca um pedaço de madeira na frente de uma janela, de um jeito que impede a janela de abrir, a janela (me acompanhem) não abre. Não precisa abrir, ele respondeu.
Moral da obra: nunca se sabe com quem estamos casados. O delírio de ser um Anthony Bourdain, a fantasia de fritar um ovo na versão remediada de uma cozinha do MasterChef, fez esse homem ignorar a função das janelas.
Ah, mas essa é a sua opinião, Martha. Qualquer contenda em um casamento tem pelo menos duas versões.
Concordo e garanto que em nenhuma versão a janela abre. Eu me percebi casada com um negacionista, e aqui demando o apoio geral.
Se ele quiser convencer alguém da supremacia de um paneleiro sobre uma janela que arranje um jornal para escrever. Eu me uno aos bons (vocês), pela verdade, pela ciência, pelos avanços da mecânica, pelas persianas se abrindo a fim de espraiar o cheiro de bife, pela honra e memória do nosso prático e poético antepassado, o inventor do buraco na casa para ver o mundo.
Digam lá se é uma escolha difícil, eu acredito em janela aberta, ele acredita em frigideira pendurada. Eu já dormi o suficiente com este homem para entender que num casamento o mais importante é fazer vista grossa e calar a boca.
Eu me calo, ele se cala, vocês se calam diante das neuroses de um casal, óbvias para os de fora e invisíveis para os de dentro. Um casamento dispensa a lógica geral em nome de outra inventada a dois.
É um jogo único e intransferível de toma lá dá cá. Ou um contrato, onde aceitamos as manias alheias, desde que a gente se apoie, se ame, se entenda e releve.
A estas condicionais eu acrescento outra: desde que todas as janelas da casa possam se abrir. Que assim seja.
O Globo