O uso da inteligência artificial como ferramenta prática para elaboração e interpretação de textos é cada vez mais frequente. Na contramão dessa tendência, a jornalista e colunista do Valor Isabel Clemente se coloca como ativista da escrita de verdade, aquela que é forjada exclusivamente a partir da nossa mente, braço e coração.
A atitude de escrever, justifica Clemente, é um ato de resistência ao domínio da tecnologia sobre o preenchimento do papel em branco. Redigir com a mente livre, de preferência à mão, exercita a memória, organiza pensamentos e, assim como os exercícios físicos, contribui para a própria longevidade.
“Escrever é uma atividade criativa e mexe com circuitos poderosos na nossa mente. Quando abrimos mão da escrita, atrofiamos a nossa própria criatividade”, afirma Clemente, que está lançando o livro “Toda escrita é criativa” (Editora Giacombelo, 220 págs., R$ 69,90), coletânea de textos em que o personagem principal é a palavra e como fazer o bom uso dela no nosso dia a dia, profissional e pessoal.
De um simples e-mail ou mensagem nas redes sociais a uma redação para o vestibular, relatório, carta ou mesmo um livro, todo ato de escrever é válido e ajuda na conexão entre as pessoas e o exercício da mente. “O ato de escrever é um exercício poderoso para a nossa imaginação e uma forma de colocar a nossa identidade e nossa visão de mundo”, diz Clemente ao Valor.
Nesse sentido, ela considera “temerário” delegar à IA a elaboração de textos, mesmo aqueles considerados mais simples, repetitivos ou mesmo monótonos, como relatórios burocráticos de trabalho. “Como alguém vai aprender a escrever um conteúdo mais complexo se não consegue usar a mente para redigir algo muito simples?”, indaga ela, que considera o uso da IA, acima de tudo, um desrespeito com o leitor.
“Ler e escrever é um processo complexo e dinâmico, ligado ao ato de dar e receber”, diz a jornalista, que classifica como “inadmissível” a utilização de algoritmos para escrever qualquer tipo de texto, de uma simples anotação a um livro completo, discussão que tem agitado os meios literários.
“Se a pessoa não gastou tempo algum para escrever aquele texto, como ela pode desejar que eu gaste o meu tempo para ler?” No livro, a jornalista carioca e mestre em escrita criativa pela Royal Holloway, Universidade de Londres, mostra que escrever não é fácil e exige muita dedicação, mas pode ser algo prazeroso e divertido, com benefícios ao corpo e à mente.
Estudos apontam, por exemplo, que a redação de um simples diário pode ser eficaz no combate à depressão. “Enquanto escreve, a pessoa afasta pensamentos depressivos, lida melhor com a ansiedade, fortalece o sistema imunológico, reduz a pressão, melhora o desempenho dos pulmões.
É praticamente uma corrida”, defende Clemente. O passo seguinte é colocar a teoria em prática.
Não há fórmula pronta para uma escrita fluida, atraente, correta e elegante, assim como não existe alguém que escreva bem ou mal. O que existe são pessoas que escrevem mais ou menos.
A exemplo da academia de ginástica, o que conta para a evolução é a disposição e a disciplina, além de muita leitura. A ajuda de um profissional no ofício é sempre bem-vinda.
No livro, Clemente fornece algumas dicas e regras úteis, como o bom uso da palavra, estruturação do texto e algumas diretrizes gramaticais. Mesmo assim, é necessário reconhecer que escrever não é uma tarefa fácil ou simples.
“É duro como quebrar rochas”, escreveu Clarice Lispector em “A hora da estrela”. A tarefa é árdua, mas, graças a Clemente em sua labuta diária com as letras, as nossas rochas podem ser quebradas e polidas.
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