A pandemia acabou, mas a Covid-19 não. Enquanto boa parte da população retomou a rotina e deixou para trás cuidados que se tornaram comuns durante a crise sanitária, o coronavírus continua circulando, provocando internações e tirando vidas.
O problema é que a doença parece ter desaparecido não dos hospitais, mas das preocupações de muitos brasileiros. Os números mostram uma realidade diferente.
O Brasil registra seis semanas de crescimento nos casos de Covid-19, com tendência de alta identificada em 19 unidades da Federação, segundo o Ministério da Saúde. O avanço atinge todas as regiões do país e diferentes faixas etárias, de crianças a idosos.
Somente em 2026, foram notificadas 118.851 ocorrências de síndrome gripal associadas à doença, conforme dados atualizados até 4 de novembro. O cenário nacional também preocupa pelo número de pacientes que desenvolveram complicações.
Até 31 de outubro, o país contabilizava 3.479 hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) com detecção do coronavírus e 437 mortes de pacientes com quadros graves nos quais o vírus foi identificado. Embora os indicadores permaneçam em níveis considerados baixos pelas autoridades sanitárias, os registros demonstram que a Covid-19 continua sendo uma ameaça, especialmente para os mais vulneráveis.
Em Goiás, são 8.067 infecções confirmadas e 23 mortes em 2026. Somente em Goiânia, foram contabilizados 1.435 casos e cinco óbitos.
Crianças menores de dez anos concentram 1.878 registros, enquanto pessoas com 60 anos ou mais representam 19 das 23 mortes ocorridas no estado. É verdade que o cenário atual está distante daquele vivido nos momentos mais críticos da pandemia.
Mas os dados reacendem uma discussão que parecia ter ficado no passado: até que ponto a população deixou de se preocupar com uma doença que, poucos anos atrás, mudou completamente a vida de milhões de brasileiros? O Brasil que parou diante de um vírus
Basta voltar a 2020 para lembrar o tamanho da tragédia. Ruas vazias, escolas fechadas, estabelecimentos comerciais com as portas abaixadas e famílias separadas por medo da contaminação.
O uso de máscaras passou a fazer parte da rotina, enquanto o álcool em gel se tornou um dos produtos mais procurados pelos brasileiros. Nos hospitais, a situação era ainda mais dramática.
Profissionais de saúde enfrentavam jornadas exaustivas, unidades de terapia intensiva operavam no limite e pacientes aguardavam por leitos. Em diferentes regiões do país, a falta de oxigênio e de equipamentos expôs a fragilidade da estrutura hospitalar diante de uma emergência daquela proporção.
A crise de Manaus, em janeiro de 2021, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos daquele período. Pacientes morreram em meio ao colapso do fornecimento de oxigênio hospitalar.
Em outras cidades, famílias receberam a notícia da morte de parentes sem sequer terem conseguido se despedir. O Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes por Covid-19 desde o início da pandemia.
Por trás de cada número havia uma história interrompida, uma família enlutada e uma ausência que permanece até hoje. Houve quem perdesse pais, filhos, avós e amigos em questão de dias.
Muitos brasileiros acompanharam enterros à distância, impedidos de participar de despedidas tradicionais pelas restrições sanitárias. A chegada das vacinas, em janeiro de 2021, representou uma mudança decisiva no enfrentamento da doença.
A imunização em massa contribuiu para reduzir hospitalizações e mortes e permitiu que a sociedade retomasse gradualmente suas atividades. Em maio de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou encerrada a emergência de saúde pública de importância internacional provocada pela Covid-19.
Mas o fim da emergência nunca significou a erradicação do coronavírus. A doença continua, mas os cuidados desapareceram
O que chama a atenção atualmente é a naturalização do risco. Pessoas com sintomas respiratórios continuam frequentando ambientes coletivos sem proteção, enquanto medidas como o uso de máscaras em situações de risco, a testagem e a atualização vacinal perderam espaço na rotina.
Há também uma falsa sensação de segurança alimentada pela ideia de que a Covid-19 se tornou apenas mais uma gripe. Embora a maioria das infecções não evolua para quadros graves, o vírus continua oferecendo riscos a idosos, pessoas imunocomprometidas e pacientes com determinadas doenças crônicas.
Além disso, algumas pessoas podem apresentar sintomas persistentes após a infecção, condição conhecida como Covid longa. A presidente da Sociedade Goiana de Infectologia, Christiane Kobal, atribuiu parte do crescimento dos registros à baixa adesão à vacinação.
Em entrevista ao Jornal Opção, a especialista chamou a atenção para a percepção equivocada de que as doses recebidas durante os primeiros anos da pandemia seriam suficientes para garantir proteção permanente. A preocupação é pertinente.
O tempo passou, novas variantes surgiram e a proteção imunológica pode diminuir, especialmente entre os grupos mais vulneráveis. Por isso, a vacinação precisa continuar seguindo as recomendações atualizadas das autoridades sanitárias.
É importante reconhecer que o crescimento recente também está relacionado à dinâmica de circulação dos vírus respiratórios e ao surgimento de novas variantes. Portanto, seria simplista atribuir toda a alta exclusivamente ao comportamento da população.
Isso, porém, não elimina a responsabilidade individual e coletiva na prevenção. Esquecemos rápido demais?
Talvez o aspecto mais preocupante seja a facilidade com que parte da sociedade parece ter apagado da memória os acontecimentos de 2020 e 2021. Durante meses, o país acompanhou boletins diários de mortes, disputas por respiradores, campanhas de vacinação e relatos de profissionais de saúde que precisavam escolher como utilizar recursos escassos.
Naquele período, a preocupação com o próximo era apresentada como uma necessidade de sobrevivência coletiva. Evitar aglomerações, proteger idosos e não sair de casa com sintomas eram atitudes associadas à preservação de vidas.
Hoje, poucos anos depois, parte desses cuidados é tratada como exagero. A vacinação deixou de ocupar o centro das conversas e o coronavírus passou a ser encarado, muitas vezes, com indiferença.
Não se trata de defender o retorno das restrições que marcaram a pandemia, tampouco de alimentar um clima de medo. O cenário epidemiológico é diferente, a população dispõe de vacinas e tratamentos, e os indicadores de gravidade são significativamente menores.
O que não pode desaparecer é a consciência de que doenças infecciosas continuam exigindo atenção. A pandemia também deveria ter deixado outra lição: decisões individuais podem produzir consequências coletivas.
Uma pessoa infectada que ignora os sintomas e mantém contato próximo com familiares vulneráveis pode contribuir para uma cadeia de transmissão que termine em hospitalização ou morte. O desafio, portanto, não é viver permanentemente sob o temor de uma nova tragédia, mas preservar o aprendizado adquirido a um custo humano tão elevado.
A Covid-19 deixou de ocupar diariamente as manchetes, mas não deixou de existir. E os números recentes, tanto em Goiás quanto no restante do Brasil, deveriam ser suficientes para lembrar que a prevenção não pode depender apenas da gravidade das notícias.
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Jornal Opção