Quando a IA vira commodity, o diferencial passa a ser o julgamento humano

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Todo ciclo tecnológico produz o mesmo espetáculo: de um lado, quem teme ser substituído; de outro, quem se deslumbra com a máquina. Os dois grupos erram pelo mesmo motivo. Ambos colocam a tecnologia no centro da história, quando o centro sempre foi, e continuará sendo, quem a comanda. Trabalho todos os dias com sistemas de IA e agentes que executam tarefas que há três anos exigiam equipes inteiras. E a conclusão a que chego não é reconfortante nem alarmista. É estratégica: quanto mais a máquina executa, mais caro fica o erro de quem decide mal sobre ela. Isso muda o critério de vantagem competitiva. Quando a ferramenta está ao alcance de qualquer concorrente, ela deixa de ser diferencial. Vira commodity. O que separa uma empresa relevante de uma empresa que apenas automatizou seus problemas antigos é a qualidade do julgamento humano que orquestra o sistema. Não é a IA que gera valor sozinha, mas sim a pergunta certa feita a ela, o contexto que ela não enxerga, a aposta em algo que ainda não existe no mercado. Os números confirmam essa divergência, e ela é maior do que o discurso corporativo costuma admitir. Segundo a pesquisa Panorama 2026, feita pela Amcham Brasil em parceria com a Humanizadas, 77% das empresas afirmam que a IA é prioridade, mas a maior parte delas ainda investe pouco, apenas 2% do orçamento anual.

O resultado dessa incoerência é direto: 61% dos executivos ouvidos pelo estudo afirmaram que não perceberam um impacto relevante nos resultados. Ou seja, a maioria diz que a IA importa e trata a IA como se não importasse. Esse é o tipo de contradição que separa quem lidera a transformação de quem apenas comenta sobre ela.

O motivo dessa lacuna é humano, não técnico. Um estudo da Deloitte, citado em análise sobre tendências de gestão para 2026, mostra que equipes de alta performance usam mais IA, mas se destacam sobretudo por confiança, inteligência social, agilidade e aprendizagem entre pares. A ferramenta é a mesma para todo mundo. O que rende resultado diferente é o tecido humano em volta dela. E aqui está o ponto que a maioria dos discursos sobre o futuro do trabalho insiste em ignorar: a automação não reduz a exigência sobre as pessoas, ela a eleva. A McKinsey observou que nas empresas de alto desempenho a tecnologia deixa de ser um centro de custos e se torna geradora de valor, e que o fator decisivo passa a ser a velocidade da tecnologia, e não apenas sua eficiência, para promover crescimento. Só que velocidade sem critério é apenas erro em escala maior. Quem define o critério é gente. O Future of Jobs Report do Fórum Econômico Mundial projeta 170 milhões de novos postos de trabalho até 2030 e o desaparecimento de 92 milhões, um saldo positivo de 78 milhões de vagas. Mas o dado que merece mais atenção do que o saldo líquido é outro: 39% das habilidades atuais dos trabalhadores devem se tornar obsoletas até 2030, e 63% dos empregadores apontam a lacuna de habilidades como a principal barreira para transformar suas operações. Isso não é um problema de desenvolvimento humano insuficiente diante de uma tecnologia tão desenvolvida.

Por isso insisto que o debate público está fazendo a pergunta errada. A pergunta central é que tipo de inteligência as empresas estão dispostas a cultivar para operar aquilo que sobra depois da automação: julgamento, senso crítico, visão de contexto, disposição para apostar no que ainda não tem caso de uso comprovado. Isso não se compra em licença de software. Se constrói. Empresas que tratam IA como projeto de eficiência vão colher eficiência, e nada além disso. Empresas que tratam IA como plataforma para reinventar modelo de negócio, criar novas linhas de receita e redesenhar a relação com o cliente vão colher outra coisa: vantagem competitiva de verdade, difícil de copiar, porque depende de gente e não de ferramenta. A tecnologia já democratizou o acesso à inteligência artificial. O que ainda não se democratizou, e talvez demore, é a capacidade de usá-la com ousadia sensata. Essa é a inteligência que está por trás da inteligência artificial - estamos falando de excelência humana. E é ela que vai decidir, nos próximos anos, quem lidera o mercado e quem apenas o acompanha. *Catia Dimov é COO e CFO da Zup Mais Lidas

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