Depois da reeleição de Lula no domingo (25), perfis de direita passaram a pedir nas redes o boicote a comércios de donos petistas, e listas de lojas para evitar começaram a circular em várias cidades. Em alguns posts, o pedido ia além do consumo e chegava à demissão de funcionários que votaram no presidente.
A reação veio rápida. O deputado federal Paulo Pimenta (PT) disse ter recebido denúncias de perseguição a trabalhadores e de boicote a empresas e profissionais que apoiaram Lula, e anunciou uma representação na Polícia Federal e no Ministério Público Federal.
A empresária Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, escreveu que “ameaçar de demitir, cancelar ações sociais, tudo isso são práticas NAZISTAS” e perguntou: “Imagina se fosse o pessoal de esquerda fazendo isso?”. No caso das demissões, há crime.
Segundo a Folha de S.Paulo, em texto repercutido pelo Blog do Noblat, mais de 400 denúncias de assédio eleitoral chegaram à Procuradoria-Geral do Trabalho nas 40 horas seguintes à vitória de Lula. Segundo o Sleeping Giants, o Ministério Público do Trabalho do Paraná abriu investigação contra a vereadora de Londrina Jessicão, eleita deputada estadual pelo PL, que pediu nas redes a demissão de quem votou no petista.
O que pouca gente lembra é que o boicote por motivo político foi usado durante anos contra a direita, e comemorado a cada resultado. Desde maio de 2020, o movimento Sleeping Giants Brasil marca empresas nas redes e cobra que elas tirem anúncios de veículos e personalidades que o grupo acusa de espalhar desinformação.
Segundo o Poder360, a página foi criada por um casal de estudantes de Direito de Ponta Grossa (PR), em reportagem que revelou os responsáveis em dezembro de 2020. O primeiro alvo foi o Jornal da Cidade Online.
Em junho de 2020, o grupo comemorou que mais de 200 empresas tinham retirado anúncios do site, que ficou sem o AdSense do Google, e celebrou a exclusão de uma vaquinha que rendia cerca de R$ 20 mil por mês ao portal. Em 2021, a campanha contra o apresentador Sikêra Jr chegou, na conta do próprio grupo, a 206 empresas em 100 dias, comemoradas como “uma vitória de todos os Giants”.
Segundo a Notícias da TV, o programa perdeu 57% do intervalo comercial na RedeTV. Com a Jovem Pan, cada anunciante que saía ganhava um post de agradecimento, até a lista do grupo chegar a 111 empresas em setembro de 2023.
Quando o YouTube desmonetizou os canais da emissora, em novembro de 2022, o post foi “ISSO NÃO É UM TESTE! Isso é UM GRANDE DIA”. Em 2024, o próprio Sleeping Giants repercutiu o balanço citado pela Notícias da TV: o faturamento da emissora caiu 26% em 2023, uma perda de R$ 27 milhões.
O Terça Livre, de Allan dos Santos, perdeu 94 empresas em dois meses de campanha e encerrou as atividades em outubro de 2021. Olavo de Carvalho teve a conta bloqueada no PayPal em agosto de 2020 e, em janeiro de 2021, a PagSeguro deixou de processar o curso dele.
O grupo agradeceu a empresa “pela responsabilidade social”. Empresas catarinenses também entraram na mira.
A Havan, de Brusque, aparece em pelo menos sete listas de boicote publicadas no X entre 2018 e 2023, entre elas a de um perfil que, em 2018, perguntou “Vamos boicotar?” e teve 20,8 mil curtidas, e a de outro perfil que chamou o rol de “lista de marcas q a gente tem q boicotar até o resto das nossas vidas”.
As listas mais compartilhadas são de Thiago dos Reis (@ThiagoResiste), que publicou três vezes “Empresas cujos donos são BOLSOMINIONS, pra boicotar”. A versão de agosto de 2022 teve 30,9 mil curtidas e a de janeiro de 2023, 27,5 mil.
Nas duas, além da Havan, estava a Mormaii, marca nascida em Garopaba. Segundo o Metrópoles, Thiago dos Reis foi eleito deputado federal pelo PT de São Paulo neste mês, com 137.220 votos.
Em 2020, outro post sobre o tema passou de 17 mil curtidas: “Cancelar a Smart Fit, não comer hambúrguer no Madero e passar reto no Mundo Verde não é boicote, é Cidadania”. Em janeiro de 2023, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que muita gente deixou de comprar de empresas que apoiaram o governo anterior e que ele mesmo presta atenção em quem está comprando.
A fala circulou em vídeo e foi tratada pela oposição como incentivo a boicote ideológico. Nesta semana, um print com posts antigos de Ana Fontes voltou a circular.
Em janeiro de 2021, no dia em que a PagSeguro deixou de atender o curso de Olavo, ela teria escrito “Grande dia arrasaram” para o Sleeping Giants e, em junho do mesmo ano, “bora #desmonetizasiqueira”. A resposta que lembrou os posts, “Achei que você gostasse de boicote, amigue”, passou de 12 mil curtidas.
Os posts originais de 2021 não aparecem mais na busca do X. O Jornal Razão não defende boicote a ninguém, e demitir alguém por causa do voto é crime.
Mas boicote não muda de nome conforme o alvo: a mesma prática que foi comemorada durante seis anos contra jornais, TVs, youtubers e lojas de direita não pode virar nazismo só porque, agora, o alvo é outro. Fontes: reportagem do Poder360, Notícias da TV, lista de eleitos do Metrópoles e Folha de S.Paulo, via Blog do Noblat.
© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/politica/esquerda-boicote-grande-dia-nazismo-havan-mormaii
Jornal Razão