O Brasil às vezes parece aquele grupo de família no WhatsApp em que todo mundo sabe quem está brigando, mas ninguém lembra como começou. Só que um país não pode ser construído apenas pela lista do que deu errado. Recentemente, a historiadora Lilia Schwarcz compartilhou uma informação comprovada por estudos: seis em cada dez beneficiários do Bolsa Família de 2014 haviam deixado o programa até 2025. Durante anos ouvimos a falácia que programas sociais criariam dependência. O dado conta uma história mais complexa: políticas públicas também podem funcionar como impulso. Há uma ironia histórica que gosto de lembrar quando alguém trata reserva de vagas como uma invenção recente. Em 1968, em plena ditadura militar, foi criada a chamada Lei do Boi. Ela determinava a reserva preferencial de vagas em instituições federais de ensino agrícola para agricultores e seus filhos, proprietários de terra ou não. Permaneceu em vigor até 1985. O Brasil já sabia criar mecanismos diferenciados de acesso. A discussão sempre foi também sobre quem deveria ser beneficiado por eles. Hoje, milhões de brasileiros vão às urnas sem sequer saber dessa lei ou das desigualdades históricas deste país. E democracia é dessas coisas curiosas: a gente conquista para continuar conquistando. Porque não existe direito com seguro contra retrocesso. Por isso penso no voto como uma flecha. Cada pessoa aponta a sua. E talvez a pergunta mais importante seja: para onde estamos mirando? Gostaria de acreditar que ainda podemos nos encantar com a política e entendê-la como a capacidade de imaginar e construir futuro coletivo. Isso exige atravessar as cortinas de fumaça. Inclusive aquelas fabricadas por inteligências artificiais capazes de produzir em segundos uma mentira com cara, voz, legenda e convicção. Também exige abandonar uma fantasia: a de que votamos sempre racionalmente. Não votamos. Votamos por propostas, sim, mas também por identificação, medo, esperança, memória, família, igreja, amigos, WhatsApp, carisma e aquele inexplicável “fui com a cara”. É justamente por isso que precisamos cobrar resultados e permanecer engajados depois que a urna apita. Políticas de acesso abriram portas fundamentais no Brasil. Universidades passaram a receber estudantes que durante décadas sequer se imaginavam pertencendo àqueles corredores. Ainda falta muito? Evidentemente. Nesse sentido, o próximo capítulo brasileiro precisa passar por transformar coletivamente acesso em prosperidade. Educação em renda. Renda em patrimônio. Conhecimento em liderança. Talento em oportunidade. E oportunidade em liberdade de escolha. Qual é o nosso sonho brasileiro para os próximos vinte anos? A flecha está na nossa mão. “ o próximo capítulo brasileiro precisa passar por
Qual é o nosso sonho brasileiro para os próximos vinte anos? A flecha está na nossa mão
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O Globo
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