O presidente do Chile, José Antonio Kast, se reunirá com o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, em uma rara visita de Estado a La Paz, na capital boliviana, na sexta-feira, em um sinal de que o novo alinhamento da direita na América do Sul abre caminho para um degelo diplomático e para a integração econômica entre dois adversários históricos. Os dois líderes devem discutir novos corredores logísticos, comércio de energia e reforço da segurança nas fronteiras. A Bolívia rompeu relações diplomáticas com o Chile em 1978, quando negociações sobre a antiga reivindicação boliviana de acesso soberano ao Oceano Pacífico fracassaram. O país, que não tem saída para o mar e encerrou no ano passado duas décadas de governos socialistas, perdeu o litoral para o Chile em uma guerra no século 19.
A última visita formal de Estado de um líder chileno à Bolívia ocorreu há mais de sete décadas.Apesar da ausência de relações formais, Chile e Bolívia mantêm há anos uma coordenação em nível técnico em áreas como imigração e comércio. A Bolívia usa portos do norte do Chile para importações e exportações. E, durante os respectivos mandatos, os ex-presidentes chilenos Gabriel Boric e Michelle Bachelet visitaram o país vizinho. Paz e Kast estão alinhados com o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e aderiram ao “Escudo das Américas”, ampla iniciativa regional de segurança lançada pela Casa Branca. A delegação de Kast à Bolívia inclui a ministra da Energia, Ximena Rincón, que deve assinar um acordo de integração energética. A Bolívia, que já foi importante exportadora de gás natural para Brasil e Argentina, agora enfrenta queda na produção e dificuldades no abastecimento de combustíveis. “A ideia é fortalecer todos os aspectos das relações comerciais, com Oruro e Potosí funcionando essencialmente como portas de entrada e saída de mercadorias do país”, disse Paz à imprensa local no fim de setembro, em referência aos dois departamentos bolivianos que fazem fronteira com o Chile. Paz disse na terça-feira que ofereceu a Kast acesso à hidrovia Paraguai-Paraná, que conecta Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai ao Oceano Atlântico. A reaproximação representa uma mudança drástica para a Bolívia, onde a histórica reivindicação territorial há muito ocupa um espaço central no debate político. Sob o ex-presidente Evo Morales, a Bolívia tentou obrigar o Chile, por meio da Corte Internacional de Justiça, a negociar acesso soberano ao Pacífico, mas perdeu o caso em 2018. Os atritos persistem. Em junho, o Chile anunciou a “maior apreensão de drogas” de sua história depois de detectar o que investigadores disseram ser mais de 1.000 toneladas de madeira boliviana supostamente impregnada com drogas ilícitas. Entidades empresariais bolivianas questionaram a condução da investigação pelo Chile, levantaram dúvidas sobre a coleta de provas e pediram maior transparência. Os dois governos procuraram impedir que a disputa em curso prejudicasse o clima antes da viagem de Kast. A Bolívia, que enfrenta dificuldades econômicas, tem muito mais a ganhar com a retomada das relações do que o Chile. Em reunião em Santiago na semana passada, o ministro das Relações Exteriores do Chile, Francisco Pérez Mackenna, e sua contraparte boliviana, Héctor Huanca Gutiérrez, se comprometeram a ampliar a cooperação contra o tráfico de drogas e o crime organizado, inclusive com coordenação para rastrear cargas sem prejudicar o comércio legítimo nem o direito da Bolívia ao livre trânsito. Outra fonte de atrito é o contrabando. Durante a campanha presidencial no ano passado, Paz provocou controvérsia no Chile ao propor a legalização de veículos sem documentação na Bolívia, muitos dos quais foram supostamente roubados do outro lado da fronteira, onde a fiscalização é precária. “Precisamos construir confiança dos dois lados”, disse o vice-ministro de Comércio Exterior da Bolívia, Rodrigo Arce. “O caso da madeira nos fez recuar alguns passos, mas a chegada de um presidente chileno à Bolívia depois de mais de 70 anos nos faz avançar.”
Valor