A disparada do dólar hoje, após a reeleição do presidente Lula, evoca episódios históricos de estresse no mercado financeiro. Nesta segunda-feira, a moeda americana abriu em forte alta, de 8,65%, a R$ 5,42.
Desde a criação do Plano Real, em 1994, as maiores valorizações diárias do dólar se concentraram sobretudo nas crises cambiais de 1999 e financeira de 2008. Pós-segundo turno: Dólar dispara, Bolsa despenca, acionando vários 'circuit breakers'.
BC e Tesouro atuam no mercado Após disparada do dólar, ministro da Fazenda conversa com Lula e coordena com BC intervenção do Tesouro: ‘Precisamos ter alguma racionalidade’
Mas analistas ressaltam que, diferentemente do que ocorreu em 1999, quando o Brasil enfrentava uma crise cambial, ou em 2008, quando economias do mundo inteiro viviam uma forte turbulência financeira, a disparada do dólar nesta segunda-feira é um ajuste de preços. Trata-se de uma correção no cenário até então traçado por analistas, que previam a vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições, visto pelo mercado financeiro como um candidato mais disposto a fazer um ajuste fiscal nas contas do governo.
Nesta segunda-feira, a cotação do dólar comercial fechou a R$ 5,40, alta de 8,2%. Considerando a taxa média do dia, ou seja, que inclui as variações desde a abertura do mercado, o câmbio ficou em R$ 5,4998, uma valorização de 9,2% em relação à sexta-feira passada.
Essa taxa média é chamada de Ptax e é calculada pelo Banco Central. A variação de 9,2% foi a maior desde a crise global de 2008.
Essa alta veio após uma forte queda do dólar Ptax entre o primeiro e o segundo turno, quando saiu de R$ 5,2232 no dia 3 de outubro para R$ 5,0371 na sexta-feira passada, uma queda de 3,56%. Maiores valorizações diárias do Dólar desde o início do Plano Real
Editoria de Arte De acordo com a análise da consultoria de dados financeiros Elos Ayta, oito das dez maiores valorizações diárias do dólar Ptax desde o início do Plano Real, em junho de 1994, ocorreram em apenas dois anos: 1999 e 2008.
A crise cambial de 1999 concentra quatro desses episódios, todas registradas em um intervalo de dez pregões. A maior alta da série ocorreu em 15 de janeiro de 1999, quando a moeda americana avançou 11,10% em um único dia, em meio ao abandono do sistema de bandas cambiais pelo Banco Central e à adoção do regime de câmbio flutuante.
Ainda naquele período o dólar avançou 8,91% no dia 13, 6,61% no dia 26 e 5,51% em 21 de janeiro. Naquele momento, o Brasil enfrentava uma forte saída de capitais, redução das reservas internacionais e crescente desconfiança em relação à capacidade de sustentação do regime cambial.
A crise financeira internacional de 2008 também aparece quatro vezes no levantamento. A maior valorização daquele ano ocorreu em 8 de outubro, quando o dólar Ptax subiu 9,33%, seguida pelas altas de 7,79% em 22 de outubro, 5,98% em 6 de outubro e 5,41% em 29 de setembro.
A quebra do banco americano Lehman Brothers, em setembro, agravou a crise de confiança no sistema financeiro mundial, provocando uma corrida por dólares e a retirada de recursos dos mercados emergentes. O movimento foi intensificado pela rejeição inicial do pacote de socorro financeiro nos Estados Unidos e pelo receio de uma recessão global.
Fora das duas crises, apenas duas datas aparecem entre as dez maiores altas. O dólar Ptax avançou 8,79% em 18 de maio de 2017, dia seguinte à publicação pelo colunista do GLOBO Lauro Jardim de que o empresário Joesley Batista, da JBS, gravou o então presidente Michel Temer dando aval para compra de silêncio de Eduardo Cunha.
Já em 16 de agosto de 2007, a moeda americana valorizou-se 5,39%, durante as turbulências provocadas pela crise do crédito imobiliário de alto risco nos Estados Unidos, conhecida como subprime.
O Globo