PT termina primeiro turno com gosto amargo na boca, diz especialista sobre eleição

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Fonte da notícia: Valor Valor

O resultado das urnas na noite de ontem, que deixou o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) a frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% dos votos contra 45,16% do petista, deixa um gosto amargo na boca do Partido dos Trabalhadores, de acordo com Lincoln Secco, professor de História Contemporânea na USP e autor do livro “História do PT”.

“O que sei internamente da campanha do PT é que presidente Lula não acreditava que ele sairia perdendo nesse primeiro turno e ele mesmo disse isso no discurso depois, é um gosto amargo de fato porque esse resultado mostra que o partido não está mais enfrentando o eleitorado antipetista de Fernando Collor em 1989 ou Fernando Henrique Carodos em 1994 e 1998”, explica o professor.

A força demonstrada pelo Partido Liberal de Flávio Bolsonaro mostra um eleitor que quer o bolsonarismo, avalia Lincoln. Segundo estimativas da Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 deputados federais. O número é 24 deputados a mais que o registrado na eleição anterior. O segundo lugar ficou com a federação PT-PCdoB-PV, com 88 deputados, seis a mais que em 2022.

Já no Senado, contando com parlamentares que já estão no cargo, a bancada do PL soma agora 28 cadeiras, a maior da Casa. Acrescentando ao número os partidos aliados, o bolsonarismo tem ao menos 49 dos 81 senadores como força. Além disso, o partido elegeu cinco governadores em primeiro turno e ainda tem outras disputas no segundo.

O Centrão também perdeu força diante do bolsonarismo. A federação entre União Brasil e PP, que hoje contabiliza 98 deputados federais, caiu para 87. O Republicanos do presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), foi de 42 para 41. O PSD diminuiu de 48 para 43 e MDB de 38 para 36.

Apesar do cenário desfavorável para a esquerda, o professor não acha que a situação está definida. “Embora uma virada do segundo para o primeiro colocado seja inédita, a distância é de menos de 2%. O Flávio já conquistou o voto útil no primeiro turno e será mais difícil para ele, apesar das vantagens, capturar mais votos além desses que já conseguiu desidratar dos adversários”, avalia.

Lincoln também explica que agora a campanha petista vai apostar em todas as frentes e enxerga que mirar no eleitor que se absteve —uma parcela de 33 milhões de pessoas—, deveria ser o foco. “O PT vai apostar em todo esse receituário: votos de candidatos derrotados, o resgate da frente ampla de 2022, mas essa estratégia vai ter muito menos força agora. Para mim o essencial é a abstenção, não porque ela foi a maior, mas porque em contraposição ao voto bolsonarista, que é ideológico, o PT precisa fazer com que as pessoas que não se sentem representadas por nenhum dos dois, saiam para votar”, argumenta.

Contudo, para Lincoln, um eventual novo governo Lula seria de crise institucional permanente. “Caso ele ganhe ele vai ter que mobilizar a sociedade contra a extrema direita no Senado especificamente porque a Casa vai avançar sobre o Supremo Tribunal Federal e dificultar as próprias nomeações do presidente para a Corte. Com certeza vai ser um governo mais frágil e de crise institucional permanente”, comenta.

Por fim, o professor da USP considera o antipetismo que saiu das urnas fascista. Na visão dele, o antipetismo clássico tinha um setor contido por uma maioria que não necessariamente tinha valores próprios. "Por isso o PSDB liderava esse campo, era um partido de ideologia fraca. O bolsonarismo é o contrário e eles dominam o antipetismo fascista, extremista. O bolsonarismo tem um projeto de uma revolução com valores próprios, de mudança para a base da sociedade, então. isso é muito diferente do antipetismo clássico."

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