PSM da 14 de Março enfrenta mudanças na gestão, obras e redução de leitos

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Fonte da notícia: O Liberal O Liberal

Desestruturação administrativa, assim pode ser resumida a situação do Pronto-Socorro Mário Pinotti (PSM da 14 de Março), no bairro do Umarizal. A principal unidade hospitalar de portas abertas do Estado do Pará, responsável por atender mais de 120 mil pacientes por ano, passa por vários problemas administrativos sérios que ocasionam prejuízos para o atendimento à população, colocando, inclusive, vidas em risco.

Em menos de um ano, o Pronto-Socorro já tem a terceira gestão nomeado pelo prefeito Igor Normando. Recentemente, o Hospital Pronto-Socorro Mário Pinotti passou por uma nova troca de gestão.

A nova administração iniciou uma série de reformas e reorganizações internas no PSM. A última mudança ocorreu no dia 2 de setembro com a nomeação da nova diretora geral Cristiana Sampaio Braga, que levou para a gestão a própria equipe do Hospital Pronto-Socorro Humberto Maradei - o PSM do Guamá.

Aproximadamente 500 servidores efetivos, com décadas de experiência de trabalho no PSM da 14, reclamam que a nova gestora não tem diálogo com quem conhece os problemas e as soluções para o PSM Mário Pinotti. [instagram=DfIwttOtVHZ]

Sem diálogo, a nova gestão iniciou uma série de obras. Em vez de aumentar a quantidade de leitos para atender a população, as obras diminuirão o número de leitos no hospital.

No térreo, onde há três enfermarias com oito leitos, agora há apenas seis leitos em cada setor. Em outra enfermaria com seis leitos, que funcionava como sala laranja, de atendimento semi-intensivo usada para recuperação dos pacientes, será desativada para a ampliação de uma sala vermelha.

No total, no mínimo dez leitos devem ser desativados. “Estão fazendo um destroço atrás do outro.

Vão deixar os médicos de injetáveis desalojados, querem reduzir a sala de espera onde a população fica aguardando, e caberá menos pessoas. Eles não discutiram com as equipes de velha guarda.

Nós somos mais de 500 pessoas no Pronto-Socorro, funcionários de carreira efetiva, e ela se recusou a sentar conosco”, destaca a diretora da Associação dos Servidores da Saúde no Município de Belém (Assesmub), Rosana Rocha. “É uma direção muito malquista, porque ela não conseguiu agregar com a categoria e isso é muito ruim, porque já é o terceiro gestor que mandam nos últimos oito meses”, complementa.

DESESTRUTURAÇÃO DO FLUXO – Uma das funções vitais para o bom funcionamento de um hospital é a do médico de fluxo, também conhecido como médico fluxista ou, simplesmente, fluxista. De acordo com a Resolução nº 2.077/2014, do Conselho Federal de Medicina (CFM), que normatiza os serviços hospitalares de urgência e emergência, a presença do médico coordenador de fluxo é obrigatória nos Serviços de Urgência e Emergência com mais de 50 mil atendimentos ao ano.

O levantamento dos atendimentos da Sesma aponta que os atendimentos realizados no PSM da 14 de Março têm aumentado ano após ano. O total de atendimentos subiu de 105.041, em 2019, para 122.054 no ano passado (2025), um crescimento de 16,2%.

Os pacientes de Belém correspondem a 106.599 atendimentos, representando 87,3% do total de 122.054 atendimentos realizados em 2025. Todos os dias, aproximadamente 250 pacientes procuram a unidade hospitalar.

Quase 90% dos pacientes atendidos são da capital paraense. Os outros 10% são dos 143 municípios do Estado do Pará.

Entretanto, a ocupação de leitos há uma mudança deste perfil, com os pacientes do interior ocupando uma boa parte dos leitos. Os municípios do interior do Estado encaminham todo tipo de paciente para o PSM da 14 de Março, já que o hospital é referência para cirurgia geral, traumatologia, ortopedia, neurologia, neurocirurgia e estabilização de pacientes com doenças crônicas.

Neste cenário, o médico fluxista como um avaliador dos casos tem autonomia para mudar pacientes entre os setores do PSM e solicitar transferências para hospitais de referência. Ele é de fundamental importância para salvar vidas.

Um dos problemas apontados por várias fontes ouvidas pela reportagem é a quebra desse fluxo, que ficou desestruturado com a saída de médicos experientes e a contratação de recém-formados, por meio de empresas terceirizadas. Além dos médicos das enfermarias e das clínicas, os fluxistas também podem dar alta aos pacientes.

Isso propicia a liberação dos leitos para outros pacientes que chegam ao hospital. A atuação é fundamental para que não haja sobrecarga.

Para exercer bem essa tarefa, o profissional deve ter experiência e uma ampla visão das 21 especialidades atendidas no PSM. O fluxista necessita passar nas enfermarias e também receber pacientes em ambulâncias para avaliar os casos.

Esse acompanhamento permite liberar leitos nas salas vermelhas, laranjas e no CTI, assim como encaminhar pacientes para tratamentos mais intensivos, quando é o caso. O médico de fluxo é vital para dar funcionalidade e agilidade a qualquer unidade hospitalar de urgência e emergência.

Anteriormente, esse fluxo era organizado por três médicos. Com a entrada da Tríade Serviços, apenas dois médicos fazem o trabalho, e não há cobertura no horário noturno do hospital e aos finais de semana.

Por causa disso, nesses momentos há uma sobrecarga do PSM da 14 de Março com aumento da lotação. A lotação voltou a ocorrer na última sexta-feira (30) com pacientes aguardando atendimentos nos corredores. Aliado a isso, estariam sendo chamados médicos com pouca experiência e até recém-formados para um trabalho que é decisivo, como já denunciado por reportagens anteriores do Grupo Liberal.

Uma fonte interna do PSM da 14 de Março apontou que a falta de experiência dos novos fluxistas gera vários problemas. As equipes dos setores críticos sentem na gravidade dos pacientes que chegam.

“Estão deixando internar pacientes no hospital que não são casos urgentes, e alguns pacientes graves, que deveriam ser levados logo para sala vermelha, sala laranja ou CTI estão indo com atraso para esses setores. Eles já estão indo graves demais, às vezes, sem nem ter como reverter a gravidade culminando em óbito”, denuncia.

O fluxista também pode auxiliar na classificação de risco dos pacientes. O setor de classificação de risco à vida é o primeiro por que os pacientes passam em qualquer hospital.

Nos casos em que o profissional da entrada tem dúvidas na classificação, o médico de fluxo pode ser chamado para avaliar o caso e definir qual é o risco para o paciente, agilizando o atendimento de casos mais graves. O conhecimento e a experiência do médico coordenador de fluxo também são fundamentais no contato com os hospitais de referência, conveniados ao SUS.

Os hospitais possuem leitos para casos específicos, permitindo, assim, liberar espaço no Pronto-Socorro Mário Pinotti. As mudanças administrativas recentes no PSM da 14 desestruturaram esse fluxo.

O último colapso do Pronto-Socorro, no dia 14 de outubro, teve como uma das causas a desorganização desse fluxo. “Foi o caos e isso colocou em risco as pessoas e toda a equipe.

A saúde mental da equipe fica abalada, e claro que vai ter paciente que não vai ser medicado, troca de remédios, vai ter erro médico”, explica uma pessoa que vivenciou aqueles dias. A não disponibilização de leitos no PSM da 14 leva uma bola de neve no sistema de saúde de Belém, já que muitas Unidades de Pronto-Atendimento fazem transferências de casos de grande risco para o Pronto-Socorro.

“Se não giram os leitos, os pacientes das UPAs morrem na espera. Por isso, a gravidade do que aconteceu.

Imagina o que aconteceu nas salas vermelhas das UPAS para onde ninguém estava olhando. Pessoas morreram! No Pronto-Socorro da 14, pacientes e acompanhantes foram contaminados com tuberculose, por bactérias resistentes dentro do hospital, porque os pacientes estavam amontoados nos corredores”, declarou.

“Nós somos a última esperança de muitas pessoas. Tem sempre que ter leitos”, assegura um dos médicos.

Nota da Sesma A Secretaria Municipal de Saúde de Belém (SESMA) informou que o Hospital Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti passa por um processo de reorganização administrativa, estrutural e assistencial, visando melhorar o atendimento e a segurança dos pacientes.

As obras em andamento atendem às exigências do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), acompanhado pelo Ministério Público Federal, e incluem a ampliação dos leitos de UTI e a reestruturação da Sala Vermelha, com melhorias na capacidade assistencial do hospital. Sobre a equipe médica, a transição contratual resultou em uma readequação pontual da escala de médicos fluxistas, com o desligamento de apenas um profissional.

Os demais foram mantidos, sem substituição de médicos experientes por recém-formados. O atendimento aos pacientes graves segue a classificação de risco e a avaliação médica, com articulação entre a urgência, a Sala Vermelha e as UTIs.

Eventuais relatos de atrasos ou falhas são apurados individualmente, conforme os registros de cada atendimento. A gestão mantém diálogo com os servidores e já realizou reuniões com trabalhadores e representantes dos setores.

Nos primeiros 50 dias de gestão, foram retomadas comissões hospitalares que estavam desativadas havia mais de três anos, reativadas ferramentas de gestão e adotadas medidas para melhorar a rotatividade dos leitos e ampliar as transferências externas de pacientes críticos. As ações e os indicadores são acompanhados pelo Ministério Público Federal.

Publicação Original O Liberal oliberal.com
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