Pela primeira vez desde o início do período eleitoral, em 16 de agosto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro, candidato a presidente pelo PL, promoveram um ato conjunto de campanha — antes tinham se encontrado apenas em eventos como a festa de Barretos ou a convenção do PL, além de atos de aliados. Tarcísio, porém, segue mantendo certo distanciamento do presidenciável, uma potencial fonte de desgastes na eleição estadual, e evitou temas polêmicos no palanque.
Aberto há 7 anos e sob relatoria de Moraes: Entenda o inquérito das fake news em andamento no STF Agregador de pesquisas: Datafolha e Quaest alavancam Cury no Rali, e Flávio reduz distância para Lula; veja números Nesta sexta (4), ambos estiveram em São Carlos, a 230 km da capital paulista, para uma série de eventos na região majoritariamente conservadora, onde falariam a um público de "convertidos". O primeiro ato foi uma visita rápida a um equipamento público de tecnologia. Tarcísio chegou depois do presidenciável, ambos se cumprimentaram e foram para um espaço interno, onde permaneceram por cerca de dez minutos. Na saída, concederam uma rápida entrevista coletiva e seguiram, também separados, assim como chegaram, para o segundo compromisso do dia. A princípio, o ato seguinte estava programado para ser uma caminhada, com direito a uma parada no Mercado Municipal, no Centro da cidade — havia a expectativa de fotógrafos e assessores de que ambos enfim protagonizariam a clássica foto comendo pastel juntos. Nada disso ocorreu. Sem pastel nem caminhada, Tarcísio chegou ao ponto de encontro — uma avenida central com calçadão e pessoas com bandeiras dos candidatos — antes de Flávio e foi logo para o corpo-a-corpo com os são-carlenses. Quando Flávio chegou e fez o mesmo, Tarcísio permaneceu um pouco distante, cercado por eleitores que pediam abraços e selfies. Após cerca de 15 minutos, o senador subiu no trio elétrico na praça em frente e esperou o governador. Ao todo, o evento durou cerca de uma hora.
A exemplo do que tem feito desde antes do período eleitoral, Tarcísio discursou ao lado de Flávio, mas fez poucas referências ao aliado, não citou propostas e projetos dele para o Brasil e basicamente se limitou a pedir votos ao senador lembrando de seu pai, Jair Bolsonaro. — Imagina se a gente tivesse um alinhamento com o governo federal, porque a gente não contou com o governo federal nesse momento. E como eles atrapalharam. Então a gente precisa de Flávio Bolsonaro na Presidência da República. Eu acompanhei o seu pai. Eu acompanhei Jair Messias Bolsonaro. Que é uma pessoa que eu vou ter sempre gratidão pelas portas que ele me abriu. E uma pessoa que era apaixonada pelo Brasil. O Flávio é o herdeiro do seu legado. É a pessoa que vai fazer a diferença. Então, o Brasil vai ser transformado com Flávio Bolsonaro presidente — disse Tarcísio, sem dar as mãos e ou abraçar o senador em cima do trio elétrico. Como mostrou O GLOBO, além de evitar se envolver em polêmicas do presidenciável, sobretudo após as revelações de ligações dele com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Tarcísio também mantém um "distanciamento estratégico" do senador por conta do chamado "voto Tarula", uma vez que pesquisas mostram que o governador atrai parte do eleitorado lulista no estado.
Nas palavras de um aliado, Tarcísio vai manter uma espécie de “namoro de fachada" com Flávio, optando por encontros fora da capital ou em locais de “convertidos”. É o caso do ato de 7 de Setembro, na Avenida Paulista. Na ocasião, Tarcísio, que fez um duro discurso no evento do ano passado, citando Alexandre de Moraes, entre outras falas radicais, deve manter um tom mais moderado. A pessoas próximas, ele diz que se arrepende do tom anterior e vai, na próxima segunda, usar palavras mais neutras, sem se mostrar “mole” em relação aos casos que envolvem o Supremo Tribunal Federal, mas sem “colocar o dedo na cara de ninguém”. Em São Carlos, por exemplo, o governador modulou o discurso para não se desconectar de pautas bolsonaristas, mas sem se comprometer como há um ano na Paulista. — A gente não pode achar normal o que está acontecendo na Corte Suprema do Brasil e isso traz indignação. E a gente tem uma grande oportunidade nas mãos. A indignação tem que se conciliar com a esperança — falou Tarcísio, no interior. Nesse momento, a militância de São Carlos gritou "Fora, Moraes". Tarcísio respirou, se manteve em silêncio e, após o fim da rápida manifestação do público, concluiu a fala.
— A gente tem uma batalha para vencer — afirmou o governador. A postura de Tarcísio contrasta com a de Flávio. Embora tente se mostrar mais ponderado que o pai, o senador gritou "Fora Alexandre de Moraes" para os são-carlenses, ao mesmo tempo em que convocou a população para ir às ruas em 7 de setembro. — Vou pegar aquela vassoura e vou varrer a sujeira de Brasília, porque eu vou me comportar como um gari, combatendo a corrupção, limpando a sujeira (...) Todo mundo nas ruas em 7 de setembro, porque é fora Lula, fora Moraes — disse o senador. Enquanto Tarcísio mantém distância segura de Flávio, o mesmo não pode ser dito da postura do senador sobre o governador. Após sinalizar que poderia ser um "presidente de transição", em alusão à proposta de Flávio de criar um PL sobre o fim da reeleição, o filho de Jair Bolsonaro foi questionado nesta sexta se Tarcísio poderia sucedê-lo em um eventual mandato no Palácio do Planalto. — Tarcísio é um dos grandes quadros que nós temos. Botou ferrovia para tudo que é lado e a gente não consegue nem dar entrevista (devido ao barulho de um trem que passava próximo dali). É uma pessoa que fez história como ministro da infraestrutura do presidente Bolsonaro, assim como tem vários outros quadros também. Nesse momento aqui o Tarcísio, se Deus quiser, vai ser reeleito no primeiro turno como governador de São Paulo — disse Flávio, sem querer se comprometer com planos para 2030. Depois dos dois eventos de São Carlos, os dois candidatos seguiram separados para um almoço oferecido pelo prefeito da cidade. Flávio chegou antes de Tarcísio, cumprimentou os presentes e foi embora cerca de uma hora após o governador. O governador, que chegou depois de Flávio, permaneceu mais tempo no local. Moraes e Alcolumbre Na coletiva de imprensa da manhã, Flávio voltou a falar que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), articulou contra ele no Supremo Tribunal Federal. Na véspera, pelo X, o presidenciável criticou uma reunião de Alcolumbre com o ministro Alexandre de Moraes. "Alexandre de Moraes e Davi Alcolumbre teriam conversado longamente nesta quarta-feira (2/Set), em Brasília, e articulado com Flávio Dino alguma ação ilegal contra mim, com o único intuito de ‘reagir’ a André Mendonça e me desgastar eleitoralmente”, escreveu Flávio. Nesta sexta, durante evento de campanha em São Carlos (SP), Flávio voltou a tocar no mesmo assunto. — Eu infelizmente vejo que o Davi Alcolumbre está muito preocupado, assim como o Alexandre de Moraes, com a sua autoproteção. E eu lamento que ele tenha feito uma reunião longa com o Alexandre de Moraes na terça-feira, pouco antes do plenário, em que parece que foi combinado alguma coisa com o Flávio Dino para tomar algumas ações ilegais contra mim — disse Flávio. As acusações de Flávio Bolsonaro ocorrem em meio a uma escalada da crise no Supremo provocada pelas revelações do caso Master. Próximo ao ministro Alexandre de Moraes, Alcolumbre tem feito movimentos para se distanciar do senador e tem adotado postura de cobrar que as investigações do caso Master avancem também sobre o adversário de Lula.
O Globo