247 – Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanham de perto os desdobramentos das eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos, agendadas para o dia 3 de novembro. Embora o Palácio do Planalto trate o pleito estritamente como um assunto de política interna americana, analistas e assessores da área internacional avaliam que o resultado das urnas terá impacto direto no tom da relação bilateral e na dinâmica de poder na América Latina.
Fontes da área internacional do governo ouvidas em reservado apontam que há uma forte expectativa de que o Partido Democrata reconquiste o controle da Câmara dos Representantes e dispute ombro a ombro o domínio do Senado. A vulnerabilidade dos republicanos é impulsionada pela queda na aprovação do presidente dos EUA, Donald Trump, — pressionado pelos desdobramentos da campanha militar no Irã e pela alta nos preços dos combustíveis e produtos de consumo.
Para o Planalto, uma vitória democrata no Congresso representaria um importante contraponto institucional às ambições de política externa de Trump, limitando a margem de manobra do republicano para impor agendas unilaterais na região. Apesar desse horizonte, uma fonte palaciana adverte que os impactos de uma eventual virada legislativa em Washington não devem ser superestimados.
A avaliação nos bastidores é a de que a Casa Branca continua no comando e que setores conservadores dentro do Departamento de Estado — em especial a ala anti-América Latina — permanecem ativos e operantes. Por essa razão, a orientação no governo Lula é manter um permanente estado de alerta e prontidão diplomática.
Ainda assim, interlocutores do governo destacam que o clima bilateral vive um momento de desaceleração das tensões. O sinal mais recente dessa busca por canais de diálogo foi a conversa entre o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ocorrida à margem da reunião de chanceleres do G20, em Atlanta, nos EUA.
O encontro serviu para aliviar ruídos diplomáticos imediatos e abriu caminho para a confirmação da presença do presidente Lula na cúpula de líderes do G20, em dezembro nos EUA, compromisso que deve encerrar a agenda internacional de viagens do seu terceiro mandato. O pano de fundo diplomático ainda exige equilíbrio refinado.
Donald Trump ainda não parabenizou formalmente o presidente Lula por sua vitória nas eleições brasileiras. Em contrapartida, diversas lideranças de peso do Partido Democrata não apenas parabenizaram o brasileiro como declararam apoio explícito e reconheceram prontamente a legitimidade das urnas.
A fricção ganhou contornos mais delicados após a concessão de visto de entrada por parte das autoridades americanas ao ex-candidato derrotado pelo PL, Flávio Bolsonaro. Alvo de investigações criminais no Brasil, o senador do Rio de Janeiro fugiu do país após decisões judiciais e seguiu para Miami sob a justificativa de que é vítima de perseguição política e ameaças em solo brasileiro.
Mesmo diante do acolhimento concedido a um aliado de primeira hora de Trump e da hesitação do republicano em saudar a vitória de Lula, o Palácio do Planalto prefere manter o foco na pragmática agenda de Estado. A aposta em Brasília é que o resultado das urnas imponha limites à Casa Branca e crie um ambiente mais favorável para o diálogo multilateral nos últimos atos da diplomacia brasileira no ano.
Brasil 247