Marvell pode estar cometendo erro de US$ 115 bilhões com a aquisição da Lumentum

Marvell pode estar cometendo erro de US$ 115 bilhões com a aquisição da Lumentum - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

A Marvell Technology pode ter escolhido o pior momento para decidir adquirir a Lumentum Holdings por uma avaliação de US$ 115 bilhões. A aquisição, anunciada na manhã desta segunda-feira (2), não foi uma grande surpresa para Wall Street, depois que a Bloomberg informou, na semana passada, que as duas empresas estavam em negociações avançadas.

Agora, porém, os detalhes foram confirmados, com a Marvell concordando em adquirir a Lumentum em uma transação inteiramente em ações que avalia a companhia em US$ 115 bilhões, ou US$ 1.132 por ação da Lumentum. O valor representa um prêmio de 24% em relação ao preço de fechamento de 28 de outubro, um dia antes de a Bloomberg informar que as duas empresas discutiam uma fusão.

Por volta das 12h40 desta segunda-feira (2), as ações da Marvell caíam 4,85%, para US$ 186,87, nas negociações do pré-mercado, após encerrarem a sexta-feira (30) com queda de 10%. Os papéis da Lumentum, por sua vez, recuavam 10,5%, para US$ 752,33, antes da abertura do mercado, caminhando para ampliar a desvalorização de 8,6% registrada na sexta-feira.

As ações da Marvell acumulam queda de 22% desde o fechamento de 28 de outubro. Não há dúvida de que a aquisição representa uma aposta na continuidade da forte demanda por inteligência artificial (IA) e na expansão da infraestrutura necessária para sustentá-la.

A fusão também ocorre em um momento em que, para dizer o mínimo, os investimentos relacionados à IA enfrentam dificuldades, à medida que as preocupações de Wall Street se espalham do chamado setor de “neoclouds” (empresas especializadas no aluguel de capacidade processamento para IA) para as grandes companhias de tecnologia que têm impulsionado a expansão da infraestrutura de IA.

O índice Nasdaq Composite, com forte peso de empresas de tecnologia, caiu 5,3% no mês passado, registrando seu pior desempenho mensal desde março de 2025. O sentimento dos investidores mudou significativamente, especialmente porque as taxas de juros tornaram o endividamento muito mais arriscado, mesmo para empresas com balanços sólidos.

“Até agora, os investidores tendiam a se concentrar nas ‘neoclouds’ como um dos elos mais fracos da cadeia de IA, enquanto presumiam que as ‘hyperscalers’ [grandes empresas de tecnologia que operam plataformas de computação] tinham lucros mais do que suficientes em seus negócios tradicionais para financiar enormes investimentos em IA e cobrir confortavelmente seu custo de capital”, afirmou o analista Richard de Chazal, da William Blair, em relatório divulgado nesta segunda-feira.

Isso mudou após a divulgação dos resultados de Alphabet, Amazon.com, Meta Platforms, Microsoft e outras empresas. “A volatilidade da semana passada indica que os investidores estão fazendo essas perguntas importantes e se tornando um pouco mais céticos em relação às expectativas de crescimento futuro da receita, diante da enorme dimensão dos investimentos realizados atualmente”, acrescentou de Chazal.

“Eles estão buscando cada vez mais diversificação e proteção.” O economista Claudio Irigoyen, do Bank of America, também demonstrou certo pessimismo.

“Os investidores estão cada vez mais preocupados com os investimentos relacionados à IA e, quanto mais os gastos de capital continuam crescendo, maiores são os riscos. As empresas conseguirão monetizar seus investimentos ou a velocidade de adoção poderá decepcionar?”, questionou Irigoyen em relatório.

“O aperto das condições financeiras globais também representa um risco de primeira ordem. Os investimentos de capital em IA e as condições financeiras estão conectados, com as taxas de juros mais elevadas refletindo, ao menos em parte, o aumento da oferta de dívida para financiar os investimentos em IA”, acrescentou o economista.

Wall Street, porém, está dividida quanto às perspectivas dos investimentos relacionados à IA. Uma equipe de analistas do Citi liderada por Heath Terry afirmou que subestimar as grandes empresas de tecnologia pode ser um erro.

“Continuamos acreditando que o mercado está subestimando o crescimento da receita impulsionado pela IA nas ‘hyperscalers’, apesar das revisões para cima após os resultados do terceiro trimestre e das persistentes restrições de infraestrutura”, afirmou Terry em relatório. O Citi destacou que a receita combinada de Amazon Web Services (AWS), Meta, Google e Microsoft no terceiro trimestre registrou crescimento superior a 25% em relação ao ano anterior e que os planos de investimentos de capital das grandes empresas de tecnologia implicam um crescimento de aproximadamente 30% da receita combinada em 2027.

Isso é suficiente para que o banco mantenha uma visão otimista sobre as possibilidades de essas grandes empresas de tecnologia aproveitarem os benefícios da IA, mesmo com a continuidade do aumento dos investimentos. O Citi estima que os gastos globais com IA totalizarão cerca de US$ 1,7 trilhão em 2027, um aumento de 64% em relação a 2026, com as quatro maiores ‘hyperscalers’ respondendo por aproximadamente 64% do investimento total no próximo ano.

“Esperamos que a aceleração da adoção de IA pelas empresas sustente os investimentos no setor, apesar dos gargalos relacionados a equipamentos, regulamentação e financiamento”, afirmaram os analistas do Citi. Isso certamente seria uma boa notícia para a Marvell e sua fusão de US$ 115 bilhões.

A Marvell e a Lumentum afirmaram que o mercado endereçável total da companhia combinada provavelmente crescerá para cerca de US$ 550 bilhões, uma vez que a fusão reunirá duas das maiores empresas do setor de redes ópticas, que se tornou uma peça fundamental dos investimentos em IA.

Data centers cada vez maiores exigem transceptores ópticos para transferir dados de maneira eficiente, convertendo sinais elétricos em luz. Trata-se de um segmento que cresce rapidamente em meio à expansão da IA.

A Marvell fabrica os processadores digitais de sinais utilizados nesses transceptores, enquanto a Lumentum produz lasers e outros componentes. “A infraestrutura de IA está passando por uma transformação arquitetural fundamental em direção à conectividade óptica, criando uma oportunidade que surge uma vez a cada geração”, afirmou o diretor-presidente da Marvell, Matt Murphy, em comunicado à imprensa.

No entanto, diante dos riscos crescentes e do pessimismo cada vez maior do mercado acionário em relação aos gastos com IA, a Marvell pode ter se atrasado alguns meses ao decidir fazer uma aposta tão grande na expansão da infraestrutura de inteligência artificial.

Publicação Original Valor valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →