Genoino: “Temos que corresponder à esperança que brotou das ruas”

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O ex-presidente do PT José Genoino afirmou que a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato abriu uma oportunidade para transformar a mobilização popular das eleições em um projeto de mudanças no Brasil. Em entrevista ao programa Nocaute, apresentado pelo jornalista Fernando Morais, Genoino destacou que a participação de milhões de brasileiros na campanha criou expectativas que o governo e as forças políticas que apoiaram o presidente têm a responsabilidade de atender.

“Agora nós temos que corresponder a essa grande esperança que brotou das ruas”, declarou o ex-deputado, ao defender que Lula estabeleça uma relação permanente com a sociedade e não restrinja a condução do governo às negociações com o Congresso Nacional e o mercado financeiro. Para Genoino, o resultado do segundo turno, realizado em 25 de outubro, representou uma manifestação da sociedade em defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos sociais.

O ex-presidente do PT avaliou que a eleição colocou o país diante de uma escolha sobre seu futuro e provocou uma mobilização que ultrapassou as estruturas partidárias. “Eu acho que domingo o Brasil estava numa encruzilhada.

A esperança, o futuro, a democracia, a soberania, os direitos do povo e o caos, a violência, o retrocesso, a ditadura, a intransigência, a submissão ao imperialismo, a negação da liberdade, da democracia. E eu acho que o Brasil acordou”, afirmou.

Genoino relatou que participou diretamente da campanha nas ruas, depois de decidir não disputar mais um mandato parlamentar. Segundo ele, o contato com a população permitiu identificar uma mudança no envolvimento político de pessoas que não participavam habitualmente de atividades partidárias.

O ex-deputado destacou especialmente a presença da juventude, das mulheres, de profissionais liberais e de integrantes de gerações que participaram das lutas pela redemocratização do país. Na sua avaliação, a mobilização expressou um sentimento coletivo que se desenvolveu durante a reta final da disputa eleitoral.

“A política entrou nas ruas. É interessante quando a gente vê a política penetrando nas veias da sociedade”, disse.

Genoino também chamou a atenção para a participação de idosos que, mesmo sem a obrigação legal de votar, compareceram às urnas. Ele mencionou pessoas que enfrentaram dificuldades de locomoção e relatou o caso de uma mulher de 96 anos, moradora da região do Butantã, em São Paulo, que circulava pelo bairro com um cartaz nas costas: “Vivi na ditadura, mas não quero morrer numa ditadura”.

Para o ex-presidente do PT, episódios como esse demonstram que a eleição mobilizou sentimentos relacionados à memória da ditadura, à defesa das liberdades e à expectativa de um futuro diferente. “Essa eleição foi no interior das pessoas.

As pessoas precisavam de um pertencimento, as pessoas precisavam de um encanto. E esse encanto foi cruzar com o Lula”, afirmou.

Na avaliação de Genoino, a mobilização popular também estabelece uma responsabilidade para os dirigentes políticos que participaram da campanha. Ele considera que o governo precisa reconhecer o papel desempenhado pela sociedade na vitória eleitoral e criar condições para que essa participação continue durante o mandato.

“Você sempre esteve do lado certo”, disse Genoino a Fernando Morais, ao recordar a trajetória de ambos nas lutas democráticas. Em seguida, relacionou os valores que marcaram essas experiências ao resultado da eleição e à responsabilidade dos apoiadores de Lula de não decepcionar a população.

“A governança não pode ser só congressual, tem que ser com a sociedade. E nós temos que governar com uma pauta de mudanças profundas na estrutura desse país”, defendeu.

O ex-deputado argumentou que a democracia brasileira não pode se limitar à realização periódica de eleições. Segundo ele, o país precisa enfrentar problemas estruturais relacionados às desigualdades sociais, ao racismo, ao machismo e à concentração do poder político e econômico.

Para isso, propôs que Lula convoque um processo de diálogo nacional com organizações da sociedade civil, movimentos sociais, entidades representativas da juventude, das mulheres, dos trabalhadores e de setores ligados à saúde e à educação. “O Lula tem autoridade e legitimidade para propor um diálogo nacional com a sociedade civil”, afirmou.

Genoino explicou que essa interlocução deveria contar com espaços organizados de participação, capazes de apresentar propostas, formular críticas e acompanhar as decisões do Executivo. Ele ressaltou que a iniciativa não pode ser utilizada como instrumento de controle dos movimentos sociais.

“Esse diálogo não é para cooptar, não é para tutelar, é para ouvir, para receber crítica, para receber reparos, para receber sinalizações”, declarou. O ex-presidente do PT afirmou que a dimensão da mobilização eleitoral aumenta a responsabilidade das forças políticas que sustentam o governo.

Para ele, a população que participou da campanha precisa encontrar canais para continuar influenciando os rumos do país. “Nós estamos proibidos, nós da esquerda estamos proibidos de frustrar o povo.

Quanto maior é a expectativa, maior é a responsabilidade com esse povo”, advertiu. Genoino defendeu que o quarto mandato de Lula tenha como prioridades a valorização do salário mínimo, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, a ampliação das políticas educacionais, a regulamentação do trabalho por aplicativos e a construção de um modelo de desenvolvimento com autonomia econômica e tecnológica.

Na sua avaliação, essas propostas precisam integrar um projeto de transformação que dê continuidade à mobilização eleitoral e estabeleça perspectivas para as novas gerações. “Nós da esquerda não podemos ficar domesticados pelas brechas do neoliberalismo.

Nós temos que ser antissistema”, afirmou. Ele reconheceu, entretanto, que mudanças estruturais não podem ser realizadas apenas com uma vitória eleitoral e dependem de um processo de organização política e acumulação de forças.

O ex-deputado também destacou que o governo precisará enfrentar resistências no Congresso Nacional e pressões do mercado financeiro. Segundo ele, setores empresariais que apoiaram Flávio Bolsonaro durante a eleição passaram a tentar influenciar a composição do novo governo e a definição de sua política econômica.

Genoino defendeu que Lula mantenha o diálogo com esses setores, mas sem abandonar os compromissos assumidos com a população durante a campanha. “Essa classe dominante apostou num caminho e agora ela quer governar com o Lula vitorioso.

Calma lá, nós vamos dialogar com vocês. Mas quem ganhou fomos nós”, declarou.

Para ele, o enfrentamento das pressões econômicas depende também da participação da sociedade na defesa de políticas públicas. Genoino questionou a submissão de investimentos sociais às exigências de austeridade fiscal e afirmou que áreas como saúde, educação e proteção social precisam ser tratadas como prioridades do Estado.

“Eu acho que saúde, educação, salário mínimo, BPC não pode estar submetido ao teto de gasto, porque a vida está acima, as necessidades humanas estão acima da lógica da austeridade”, afirmou. O ex-presidente do PT também sugeriu ampliar os instrumentos de democracia direta.

Como exemplo, mencionou a possibilidade de o partido propor um plebiscito sobre o orçamento secreto durante as eleições municipais de 2028, permitindo que a população participe da discussão sobre o controle e a destinação dos recursos públicos. “Temos que exercitar a democracia participativa, a democracia direta”, disse.

Genoino ressaltou ainda que o quarto mandato de Lula deve ser pensado como parte de um processo de renovação política. Para ele, a esquerda não pode reduzir o debate sobre o futuro à escolha de um sucessor do presidente, mas precisa construir um projeto capaz de incorporar a juventude e os setores sociais que ganharam protagonismo na eleição.

O próprio ex-deputado afirmou que sua decisão de não concorrer novamente está relacionada ao desejo de contribuir para essa renovação. Ele pretende dedicar-se à formação política e ao trabalho junto às comunidades, sem ocupar posições de direção.

“Eu quero abrir as portas para que essa nova geração entre e tome conta. Eu quero ser assessor dessas novas forças que estão emergindo.

Não quero dirigir, não quero tutelar. Eu quero só ajudar”, declarou.

Ao analisar os desafios do governo, Genoino insistiu que a relação com o Congresso e os setores econômicos não pode substituir a participação popular. Para ele, a sustentação política do quarto mandato precisa estar associada à capacidade de manter a sociedade mobilizada em torno de propostas de transformação.

“Nós vamos dialogar com a Faria Lima, sim. Mas dialogar e fazer enfrentamento.

Nós vamos dialogar com o Congresso, sim. Mas nós vamos também dialogar com a sociedade”, afirmou.

Genoino defendeu que a atuação do governo combine a presença nas instituições com o contato permanente com trabalhadores, movimentos sociais e moradores das periferias e pequenas cidades. “Nós vamos ter duas pernas.

Uma perna nos palácios […] e uma perna nas ruas, nas quebradas, nas comunidades, nas cidades pequenas”, disse. Para o ex-presidente do PT, o significado da reeleição de Lula não se encerra na conquista de um quarto mandato.

A vitória, segundo ele, precisa ser traduzida em políticas que respondam às expectativas de quem participou da campanha e viu no resultado eleitoral a possibilidade de mudanças na sociedade brasileira. “Agora nós temos que corresponder a essa grande esperança que brotou das ruas”, concluiu.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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