Como funciona a contagem de votos nos EUA? Não há órgão nacional: cada estado e mais de 10 mil governos locais apuram do seu jeito, com prazos e regras próprios. Entenda por que isso explica a demora.
Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria. Se você acordou hoje e alguma corrida americana ainda está sem vencedor, não é sinal de fraude nem de desorganização.
É a consequência de um desenho institucional. No Brasil, as urnas fecham às 17h (horário de Brasília) e o resultado sai em poucas horas.
Nos Estados Unidos, essa conta não existe: não há “a” eleição americana, há milhares de eleições locais que acontecem no mesmo dia. A Constituição dá aos estados a autoridade principal sobre o “tempo, o lugar e a maneira” das eleições para o Congresso.
O Congresso pode “fazer ou alterar” essas regras, mas o presidente não tem papel nesse desenho. Os estados, por sua vez, delegam o trabalho: o que há de fato são mais de 10 mil jurisdições eleitorais, quase sempre condados ou municípios, de cidades com algumas centenas de eleitores a um condado com mais de 5 milhões.
O governo federal faz pouco: fixa a data (a lei de 1845 e a de 1872 que vimos nesta semana), protege direitos de voto e dá dinheiro e orientação. Até 2002, nem dinheiro dava.
Foi a disputa de 2000 que levou o Congresso a aprovar a Lei Help America Vote (HAVA), a primeira lei federal de administração eleitoral, que criou a Comissão de Assistência Eleitoral, mas com diretrizes voluntárias e sem poder de regulação. A própria lei preserva a responsabilidade dos estados.
A contagem começa nos condados, depois cada estado faz a apuração final e a certificação. Quem aparece na TV dizendo “fulano venceu” é a imprensa, com base em projeções, e uma projeção não é um resultado oficial: entre uma e outro podem passar dias ou semanas.
Os estados certificam entre 10 de novembro e 18 de dezembro, e 41 deles têm prazo fixo. Quando se pode começar a contar o voto pelo correio.
Em 44 estados e no Distrito de Columbia, os funcionários podem começar a processar essas cédulas antes do dia da eleição. Em seis (Alabama, Mississippi, New Hampshire, Pensilvânia, Virgínia Ocidental e Wisconsin), só no próprio dia, antes de as urnas fecharem.
Na Pensilvânia e em Wisconsin, só a partir das 7h do dia da eleição. Nenhum estado pode divulgar resultados antes de as urnas fecharem.
A Flórida, que pode começar semanas antes, tinha 99% dos votos contados às 22h51 (Costa Leste) em 2024. Até quando o voto pode chegar.
Em 14 estados e no Distrito de Columbia, cédulas pelo correio com carimbo até o dia da eleição são contadas mesmo que cheguem depois. A Suprema Corte confirmou, em 29 de junho de 2026, por 5 a 4, que os estados podem fazer isso.
A Califórnia aceita até sete dias, o Alasca, até dez, e a certificação estadual da Califórnia só ocorre em dezembro. Em Nevada, o eleitor ainda tem seis dias para corrigir um problema de assinatura.
Como se vota. Cerca de 70% dos eleitores registrados vivem em locais onde a maioria vota em cédula de papel marcada à mão, quase sempre lida por escâneres ópticos, e outros 26,5% em locais com máquinas que imprimem a cédula.
A Louisiana é o último estado que ainda usa urnas sem papel. Só três empresas dominam cerca de 85% do mercado de equipamentos, e todos os 50 estados fazem algum tipo de auditoria depois da eleição, 36 deles com contagem manual de uma amostra.
Voto em ordem de preferência. Alasca e Maine, onde há disputas apertadas para o Senado, usam esse sistema: se ninguém passa de 50%, o menos votado é eliminado e seus votos vão para a segunda opção, rodada a rodada.
No Maine, a apuração é centralizada na capital, e o resultado costuma sair na semana seguinte. No Alasca, a próxima rodada está marcada para 18 de novembro.
Recontagem e certificação. Vinte e seis estados têm recontagem automática se a diferença for pequena, e o limite mais comum é 0,5%.
No Alasca e no Maine só há recontagem automática em caso de empate, embora qualquer candidato possa pedir. O Maine certifica o resultado em 23 de novembro, o Alasca em 25.
Há uma defesa dessa fragmentação: dá flexibilidade para lidar com situações como desastres naturais e deixa cada estado testar soluções. Comentaristas conservadores lembram que é uma proteção contra o excesso de poder federal.
Quem critica, inclusive muitos moderados, vê uma colcha de retalhos que confunde o eleitor. E há um detalhe jurídico: o Congresso já tem poder, pela Cláusula das Eleições, de uniformizar regras.
O que falta não é permissão constitucional, e sim maioria política. É a minha leitura do texto, não de uma fonte.
O desenho brasileiro é o oposto. A urna eletrônica é usada desde 1996.
Ao fim da votação, cada urna imprime o boletim de urna, e os dados seguem por uma rede exclusiva da Justiça Eleitoral para a totalização no TSE, em Brasília. O TSE afirma que o resultado sai em poucas horas e que o sistema tem mais de 40 oportunidades de auditoria por ciclo.
São desenhos para realidades diferentes: o brasileiro é rápido e centralizado, o americano é lento e fragmentado, e o papel em quase todos os locais deixa uma cédula física que pode ser recontada. Em março, Trump assinou um decreto que mandava os estados trabalharem com o Correio para montar listas de eleitores verificados e pedia que o Correio retivesse cédulas de quem não estivesse nas listas.
Foi suspenso por liminar. Nesta semana, o Departamento de Justiça processou o Alasca para impedir a certificação da disputa do Senado caso o republicano Dan Sullivan perca, alegando que um candidato de mesmo nome confundiu o eleitor.
O governo diz proteger a integridade do pleito, e críticos veem interferência federal em um processo que é dos estados. Quando alguém disser que “a contagem americana demora”, a pergunta certa é: em qual estado, sob qual lei? Em uns, o resultado sai em horas; em outros, em semanas.
Nenhum dos dois sinais, sozinho, diz algo sobre a lisura da eleição. O que a demora mostra é um país que decidiu, em 1787, que a eleição não pertence a Washington.
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