Não deve haver no mundo uma imagem mais associada com o glamour e o brilho das grandes estrelas de Hollywood do que a de George Clooney no tapete vermelho do Festival de Cinema de Veneza, de braço dado com sua esposa Amal. Ele, usando um impecável traje de gala da Giorgio Armani; ela, com um vestido preto preparado pelo franco-colombiano Haider Ackermann (um dos principais nomes da moda internacional) para Tom Ford, e luxuosos acessórios da mesma marca: brincos e pulseiras nos quais brilhavam esmeraldas e diamantes. Rock in Rio 2026: acompanhe o segundo dia do festival em tempo real Stavros Floros: saiba quem é ex-participante de reality de sobrevivência que perdeu parte da perna em acidente durante gravações Mas essa instantânea, que atraiu como um ímã irresistível a atenção unânime da mídia e das redes sociais na noite de inauguração da mostra, no fundo não passa de pura aparência. Uma miragem que apela à memória de outros tempos para dissimular uma realidade cada vez menos atenta a esse tipo de gesto. 'Devoradores de estrelas', ficção científica com Ryan Gosling Divulgação O distanciamento entre os estúdios de Hollywood e os grandes festivais de cinema parece não ter volta. Esse divórcio torna-se cada vez mais notório nesta época do ano, historicamente consagrada a antecipar a próxima temporada de premiações, com a chegada dos títulos e das figuras com maior potencial para chegar ao Oscar. A busca por explicações sobre esse distanciamento cada vez maior reaparece nestes dias, justamente quando Veneza inaugura a etapa mais prolífica do ano para os grandes festivais de cinema: Toronto, San Sebastián, Londres e Nova York. O que aconteceu para que algumas das estreias mais esperadas da última parte do ano tenham ignorado uma vitrine tão poderosa como a de Veneza para se apresentarem ao mundo? Falta “Digger” (estreia em 1º de outubro), talvez a mais esperada de todas essas novidades, dirigida pelo mexicano Alejandro González Iñárritu e com Tom Cruise em uma ousada aposta como ator. Falta “O outro lado das redes” (8 de outubro), sequência de “A rede social”, também escrita e dirigida por Aaron Sorkin. Falta o encerramento da trilogia de “Duna”, "Duna: parte três" (17 de dezembro), pelas mãos de Denis Villeneuve, com um grande elenco de estrelas encabeçado por Timothée Chalamet. Falta “As novas desventuras de Cliff Booth” (25 de novembro), sequência de “Era uma vez em... Hollywood”, dirigida por David Fincher, com Brad Pitt retomando o personagem que lhe rendeu um Oscar. Tom Cruise surge irreconhecível em "Digger", novo filme de Alejandro Gonzalez Iñárritu Reprodução Os veículos especializados não param de lançar especulações sobre o tema. Sobre algumas produções (como “Here comes the flood” ("Aí vem a enchente", em tradução livre), thriller da Netflix dirigido por Fernando Meirelles com Denzel Washington e Robert Pattinson), argumenta-se que ainda não estariam prontas para estrear com tanta antecedência. Mas, ao mesmo tempo, existe um segredo de polichinelo: títulos como “Digger” e “Duna: parte tês” foram deliberadamente afastados do circuito dos festivais, especialmente o de Veneza, por decisão dos próprios grandes estúdios de Hollywood. Chegarão ao público diretamente nos cinemas sem passar antes, como aconteceu a vida toda, por essa vistosa antessala, à qual até pouco tempo atrás todos queriam se juntar. No final de julho, quando ficou claro que os grandes nomes de Hollywood estariam ausentes da programação de Veneza em 2026, seu diretor, Alberto Barbera, disse que essa realidade falava muito mais dos problemas da indústria do entretenimento do que das decisões artísticas do próprio festival. Ele sugeriu que acusar Veneza, e por extensão outros festivais, desse vazio era simplesmente um erro. Falou de um cenário cheio de “turbulências” na indústria de Hollywood, derivado do aumento dos custos, dos fracassos de bilheteria e da concorrência cada vez maior para os grandes estúdios, impulsionada pelas plataformas de streaming. E também revelou um dado fundamental ao reconhecer que o único filme da produção mais recente de Hollywood que interessava em Veneza era “Digger”. “Mas os estúdios Warner”, explicou, “privilegiaram o elemento surpresa de sua trama, por isso decidiram pular os festivais e lançá-la diretamente nos cinemas”. Essa mudança de estratégia, admitem em Hollywood, não se reduz a um único exemplo. Os estúdios decidiram se precaver depois que, há um ano, em Veneza, assistiram ao vivo e a cores à imolação de alguns de seus projetos mais fortes. Há quem diga, maliciosamente, que o prêmio pelo conjunto da obra que Clooney acaba de receber com todas as honras em Veneza equivale a um tardio prêmio de consolação. Ou, melhor, a um pedido de desculpas do próprio festival que, há um ano, frustrou os planos que a Netflix tinha para levá-lo de novo a competir pelo Oscar por seu papel de protagonista em “Jay Kelly”. Adam Sandler e George Clooney em 'Jay Kelly' Divulgação/Netflix Esse filme, dirigido por Noah Baumbach e incluído na competição oficial pelo Leão de Ouro de 2025, havia chegado a Veneza como um dos títulos mais cotados da primeira etapa da corrida pelas premiações de Hollywood. No entanto, após o festival, rapidamente deixou-se de falar no filme. Inexplicavelmente, chegou ao anúncio das indicações praticamente sem chances. O mesmo aconteceu com outros títulos e figuras que passaram pela cidade dos canais também dentro da programação de Veneza 2025, incluindo a competição oficial: “Coração de lutador: the smashing machine”, com Dwayne “The Rock” Johnson; “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos, com Emma Stone; “Casa de dinamite”, de Kathryn Bigelow; “Frankenstein”, de Guillermo del Toro; e “Depois da Caçada”, de Luca Guadagnino, com Julia Roberts e Andrew Garfield. Em alguns casos (como “Frankenstein” e “Bugonia”), as indicações vieram, mas em menor proporção do que se imaginava antes da estreia no festival, e com a carga adicional de várias críticas negativas durante o evento. Depois de Veneza, já ninguém apostava neles para vencer o Oscar de melhor filme. Cena de 'Bugonia' Divulgação Os outros títulos desta lista, respaldados por poderosos estúdios ou plataformas de streaming, chegaram a Veneza carregados de expectativas favoráveis, também receberam ali críticas muito duras e partiram com a sensação, depois confirmada, de que passariam completamente despercebidas pela temporada de premiações. A memória nos leva um pouco mais longe. Ninguém em Hollywood esquece que o colapso de “Coringa: delírio a dois”, a estreia de Hollywood mais aguardada de todo 2024, começou com uma apresentação muito frustrante na competição oficial do Festival de Veneza daquele ano, na qual choveram críticas negativas e comentários pessimistas. A esse risco artístico somou-se a equação econômica, cada vez mais complicada para os estúdios e sintetizada pela Vanity Fair em uma reportagem muito comentada publicada recentemente. “Provavelmente não se consegue ir e voltar de Veneza por menos de 300 mil dólares”, diz-se ali, citando o depoimento de um renomado assessor de imprensa. Essa cifra pode parecer, à primeira vista, apenas um trocado dentro de um projeto no qual se gastam milhões de dólares, mas o impacto desses custos (traslados, hospedagens, gastos com pessoal, logística e marketing em um dos festivais mais caros do circuito) pode se tornar insuportável se a crítica internacional for impiedosa ao julgar o filme e desencadear, a partir daí, uma onda de comentários negativos. Os estúdios terminaram de se convencer com o surgimento do fator político. Não há nada melhor para uma estreia forte do que conseguir que se fale dela o máximo possível. Mas, quando as críticas não são favoráveis, as redes alimentam e multiplicam as piores reações. Atores e diretores logo se veem diante de um pelotão de jornalistas ansiosos por explorar esse filão e, aproveitando a oportunidade, interrogá-los sobre qualquer tema político ou da atualidade para estimular ainda mais o ruído midiático e as polêmicas. E nem todos estão dispostos a opinar ou a se imolar por uma declaração urgente. Os estúdios parecem ter aprendido finalmente a lição depois de vários fiascos. Agora sabem que os grandes festivais (o que acontece em Veneza também pode ser aplicado a Cannes) não são necessários e muito menos imprescindíveis para que o público descubra ali os títulos nos quais mais se investiu. Hoje, preferem substituí-los por ações de marketing convencionais, mais tranquilas e em um ambiente mais controlado (apresentações com muitas câmeras, rostos famosos, influenciadores e marcas em Los Angeles, Nova York ou Londres), em vez dos vistosos tapetes vermelhos dos grandes festivais. “A odisseia” e “Devoradores de estrelas” não precisaram de nenhum festival para se tornarem, até hoje, os candidatos mais fortes para levar o Oscar, ainda que, em outro tempo, tivessem passado tranquilamente pelo tapete vermelho de Cannes. Algo parecido aconteceu antes com “Oppenheimer”, “Uma batalha após a outra” e “Pecadores”, grandes protagonistas do Oscar nos últimos dois anos. 'Uma batalha após a outra' vence prêmio de Melhor filme no Oscar 2026 Patrick T. Fallon / AFP Ao mesmo tempo, os estúdios também sabem que os festivais podem ser excelentes plataformas de lançamento de filmes a priori menos conhecidos e mais comprometidos com o espírito de inovação, independência artística e risco próprio do cinema de autor. Se forem bem recebidos pela crítica e encontrarem um lugar nos grandes debates e conversas do momento, o caminho rumo aos prêmios pode ficar mais pavimentado para eles do que se imaginava inicialmente. O exemplo mais contundente dos últimos dias é “Cavalo selvagem nove”, de Martin McDonagh, que chegará aos cinemas brasileiros em 5 de novembro. Desde sua estreia em Veneza na noite da última quinta-feira, com o “aplausômetro” chegando a 14 minutos após a primeira gala, as previsões favoráveis sobre seu protagonismo na temporada de premiações não pararam de crescer, e já se prevê em alguns círculos que John Malkovich tem garantido o Oscar de melhor ator. “Os filmes que os estúdios produzem são caríssimos, então essa situação é simplesmente a consequência do tipo de cinema que se produz hoje. Antes, os estúdios faziam "Bonnie e Clyde: uma rajada de balas" e "Todos os homens do presidente". Isso já não acontece, então não precisam dessa plataforma de lançamento”. Foi o que George Clooney acaba de dizer em Veneza.** Cada vez há menos filmes de Hollywood nos grandes festivais, mas, pelo menos, restam ali o carisma e o charme glamouroso das últimas grandes estrelas, como ele.
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Por que os estúdios de Hollywood querem seus melhores filmes longe de festivais
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O Globo
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