Citada pela Polícia Federal (PF) como parte de um esquema que visava “ocultar vantagens” ilícitas a membros do governo do Rio, a cobertura na Barra da Tijuca onde mora o ex-governador Cláudio Castro (PL) está registrada em nome de um ex-secretário estadual que comprou cerca de R$ 9 milhões em imóveis no ano passado, em um intervalo de oito meses. O proprietário é o advogado José Mauro de Farias Jr., que foi titular da secretaria estadual de Transformação Digital antes de adquirir uma série de propriedades na capital fluminense e no interior do estado, entre fevereiro e outubro de 2025. Crise no STF: Fachin tira pedido de investigação contra Mendonça do inquérito das fake news e determina manifestação do ministro e de Gonet Presidente: Com STF em crise, Lula diz que ninguém, em nome da democracia, 'pode usar o cargo que tem em benefício pessoal' Farias abriu, nos últimos anos, uma rede de ao menos dez empresas seguindo um padrão: todas têm a letra “J”, inicial de seu nome completo, seguida por numeração sequencial. Ele foi um dos alvos, em agosto, da Operação Sem Refino, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A operação mirou supostos “benefícios” feitos pelo empresário Ricardo Magro, hoje foragido da Justiça, a Castro, através de terceiros. A investigação apura se esses pagamentos foram contrapartidas ilícitas a decisões do governo estadual que beneficiaram a Refit, empresa de Magro que teve sua falência decretada nesta semana. As defesas de Farias e de Castro negam irregularidades. Patrimônio Arte O Globo Da Serra a Volta Redonda A cobertura hoje usada por Castro, localizada na Barra da Tijuca, foi comprada por Farias em outubro de 2023, por R$ 3,4 milhões, conforme revelado pelo GLOBO. À época, Farias ainda era secretário do governo Castro, posto que ocupou desde 2020 até dezembro de 2024. Levantamento do GLOBO em cartórios aponta que Farias, depois disso, adquiriu mais R$ 8,8 milhões em imóveis, através de uma rede de empresas criadas com essa finalidade. Em fevereiro de 2025, Farias adquiriu quatro terrenos no condomínio Fazenda Marambaia, em Petrópolis, Região Serrana do estado, por R$ 942 mil cada um. Em abril, ele comprou uma casa no condomínio Quinta do Lago, na mesma cidade, por R$ 2,5 milhões. Nos meses seguintes, Farias comprou um apartamento em Volta Redonda, município do Sul fluminense, por R$ 1,8 milhão; um apartamento no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio, por R$ 415 mil; e uma sala comercial na Barra da Tijuca, por R$ 250 mil. Todos esses imóveis foram adquiridos através da J15 Real Estate, empresa aberta por Farias em 2023, e que também é dona de três carros que foram apreendidos pela PF na Operação Sem Refino. Já a J3 Real Estate, foi usada para comprar a cobertura onde Castro mora. Embora o contrato de locação desse apartamento tenha sido assinado pelo ex-governador em abril de 2026, a PF encontrou mensagens no celular de Castro que indicam que ele supervisionou obras no local nos meses anteriores. A Procuradoria-Geral da República (PGR) citou o imóvel na Barra como um dos locais em que o ex-governador, sem constar formalmente como dono, “exercia a posse de fato, (...) sendo reconhecido por terceiros como o real proprietário”, e levantou suspeita de ocultação de vantagens indevidas. “Os indícios indicam o uso sistemático de interpostas pessoas para custeio de despesas pessoais e blindagem de bens de alto padrão”, apontou a PGR em despacho na operação contra Castro. “Investimento” Em nota enviada anteontem ao GLOBO, a defesa de Castro negou “qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimeno de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros”. Já a defesa de Farias enviou petição ao STF, após ser alvo da operação, argumentando que a compra da cobertura na Barra se tratou de um “investimento imobiliário”, e que o uso das empresas nessa operação é uma “estrutura corriqueira de planejamento patrimonial”. Segundo a defesa de Farias, a decisão de alugar o imóvel para Castro, por R$ 10 mil mensais, se deveu a uma “relação pessoal de amizade existente com o ex-governador e sua família, não se podendo extrair dessa circunstância a existência de qualquer contrapartida ilícita”. Ele negou ainda ter vínculo com a Refit. Procurado pelo GLOBO para comentar também sobre os outros imóveis, Farias afirmou que “constituiu patrimônio” ao longo dos últimos 30 anos, e que “todos os seus rendimentos, participações societárias e bens foram devidamente declarados” à Receita Federal. Ele afirmou que, além da cobertura na Barra, nenhuma das propriedades citadas é ou foi usada por integrantes do governo. De acordo com o ex-secretário, o imóvel em Volta Redonda é para “uso familiar”, e a sala comercial abriga seu escritório de advocacia, enquanto os demais imóveis citados foram comprados para “empreender no mercado imobiliário”. Reforma de campos Antes de Farias deixar o governo do Rio em 2024, uma das fontes de receita do então secretário foram contratos para reformar campos de futebol, que totalizaram R$ 18,4 milhões, captados através da gestão estadual. As reformas foram tocadas pela Eagle Sports Empreendimentos, empresa da qual Farias é sócio, e que foi contratada entre 2020 e 2023 para obras em campos de grama sintética. Essas contratações foram feitas por empresas que patrocinaram eventos esportivos no Rio, e que pagaram reformas de campos de futebol como uma “contrapartida social” para obter benefícios fiscais do estado, algo previsto na Lei de Incentivo de Esporte. Essas contrapartidas tinham que ser aprovadas pelo governo Castro. No primeiro desses casos, em setembro de 2020, uma troca de e-mails com a empresa responsável pelo evento “Rei e Rainha do Mar” mostra que a secretaria estadual de Esportes definiu que a contrapartida do projeto seria a reforma de um campo soçaite em Nova Iguaçu. A gestão estadual também recusou um orçamento de outra firma, mais barato, e autorizou apenas que a Eagle, empresa de Farias, executasse o serviço. Em nota, Farias afirmou que as contratações da Eagle são “atividade entre empresas privadas, com prestação de serviço a preço de mercado e entregas concluídas”.
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Ex-secretário dono da cobertura de Cláudio Castro comprou R$ 9 milhões em imóveis após deixar governo
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O Globo
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