Por que algumas pessoas estão pagando para fazer amigos?

Por que algumas pessoas estão pagando para fazer amigos? - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

No ano passado, Alexandra Pitzer pagou US$ 290 (R$ 1.473) para conhecer um grupo de desconhecidas. Pitzer, de 33 anos, tinha acabado de se mudar de Nashville, no Tennessee, para Honolulu, por causa do trabalho do marido no Exército, quando um anúncio no Instagram de um aplicativo de conexão entre amigas chamou sua atenção.

O aplicativo, Real Roots, organiza encontros entre grupos de mulheres depois que elas respondem a um questionário de personalidade. Se as participantes se derem bem, podem pagar à Real Roots para organizar encontros com o mesmo grupo durante as semanas seguintes.

Pitzer clicou no anúncio, fez seu cadastro e logo se viu em uma cervejaria com outras oito mulheres. Elas rapidamente criaram laços, e Pitzer continuou encontrando algumas delas mesmo depois que o pacote chegou ao fim, saindo para acampar e ir à praia.

— Consigo imaginar a maioria delas se tornando amigas para a vida toda — disse Pitzer. —Temos uma conexão genuína.

Impulsionadas por uma epidemia de solidão e por estilos de vida cada vez mais voltados para o ambiente on-line, mais pessoas estão pagando a startups para fazer novas amizades presencialmente. Como resultado, empresas que conectam pessoas em busca de amizade, como a Real Roots, a 222 e a Timeleft, estão ganhando popularidade rapidamente, cada uma gerando milhões de dólares em receita por ano.

Ao se cadastrarem, os dezenas de milhares de usuários desses aplicativos, geralmente com idades entre 20 e 50 e poucos anos, respondem a perguntas sobre sua origem, seus interesses e seus valores. As empresas levam em consideração critérios pouco convencionais, como senso de humor, a maneira como a pessoa gosta de passar o tempo com os amigos e se ela gosta de conhecer pessoas com posições políticas diferentes das suas.

Quando os usuários escolhem um evento no calendário dos aplicativos, os algoritmos das empresas entram em ação. Os participantes são agrupados em pequenos grupos, selecionados entre todas as pessoas inscritas com base em características como idade e outras respostas ao questionário, e recebem instruções para se encontrar em um local previamente determinado.

Às vezes, o encontro acontece em uma mesa reservada em um restaurante. Em outras ocasiões, pode ser em um ônibus que leva o grupo a uma trilha, em uma aula de preparo de dumplings (pastéis tradicionais da culinária asiática) ou em uma partida de shuffleboard (jogo semelhante ao curling, praticado sobre uma superfície lisa).

Depois de pagar, basta comparecer ao local combinado. — Acredito que a nossa geração anseia por encontros presenciais, em um ambiente mais intimista, sem ideias preconcebidas criadas pelo meio digital — disse Arman Roshannai, um dos cofundadores da 222.

A proposta de conectar desconhecidos presencialmente tem se mostrado bem-sucedida, e cada vez mais startups estão entrando nesse mercado. Em setembro, o Tinder, aplicativo de relacionamentos, lançou o recurso “Group Hangout” (encontro em grupo), para ajudar amigos a planejar “atividades presenciais juntos”.

Os aplicativos estão ganhando força em um momento em que cerca de 67% dos adultos relataram sentir solidão social e emocional, em parte por não se sentirem integrantes de um grupo significativo, segundo um estudo de 2024 do Making Caring Common Project, da Universidade Harvard. Cerca de 45% dos adultos que se sentem solitários afirmaram que “não sabem muito bem como desenvolver amizades próximas”.

— Acredito que este seja um momento de fragilidade no mundo, e muitos jovens também estão se sentindo vulneráveis de diversas maneiras — disse Richard Weissbourd, psicólogo, professor sênior de Harvard e coautor do relatório. Em agosto, Sylvia Le, de 25 anos, pagou cerca de US$ 170 (R$ 863) para participar de um passeio de um dia às montanhas organizado pela 222.

Sylvia trabalha com marketing e se mudou para Nova York em abril, depois de crescer na Costa Oeste dos Estados Unidos. No dia do evento, ela foi até um ponto de encontro no Washington Square Park e, em seguida, embarcou em um ônibus com o grupo que lhe havia sido designado.

A viagem durou uma hora e meia. O grupo fez uma trilha e almoçou antes de retornar à cidade.

— Às vezes, pode ser um pouco constrangedor para mim socializar quando esse é o objetivo principal do jantar ou de alguma coisa do tipo — disse ela. — Então, ter uma atividade torna tudo mais natural.

Foi justamente esse tipo de conexão humana que levou Roshannai, Keyan Kazemian e Danial Hashemi a criar a 222, como parte de um projeto de pesquisa na faculdade cujo objetivo era “decifrar o código da compatibilidade humana”. Um ano depois de o país ter entrado em lockdown durante a pandemia, os estudantes receberam uma bolsa de US$ 1.000 (R$ 5.080) da Universidade da Califórnia em Irvine para estudar se os dados de questionários de personalidade poderiam ajudar a prever a compatibilidade social.

Eles pediram aos amigos que respondessem aos questionários e, depois, ampliaram a iniciativa recrutando outros estudantes. Inicialmente, os fundadores da 222 conectavam grupos por meio de videochamadas.

Mais tarde, começaram a organizar jantares no quintal de casa. Em 2023, o projeto se transformou em um trabalho em tempo integral.

Desde então, a 222, que emprega 27 pessoas, expandiu suas operações para 21 cidades e organiza pelo menos uma experiência por dia. O aplicativo faz perguntas aos potenciais participantes, como “O que você acha da astrologia?” e “Quão atraente você se considera?”.

A empresa cobra US$ 22 (cerca de R$ 111) por mês para conectar pessoas e organizar os eventos, além de eventuais custos relacionados às atividades, como as taxas de uma aula de ioga ou o valor da refeição incluída em um jantar. Segundo os cofundadores, a empresa triplicou seu faturamento no ano passado e está a caminho de quadruplicar a receita neste ano, alcançando a faixa dos milhões de dólares de um único dígito elevado — ou seja, algo entre US$ 7 milhões (R$ 35,5 milhões) e US$ 9 milhões (R$ 45,7 milhões).

A Real Roots e a Timeleft têm registrado uma demanda semelhante. A Real Roots surgiu quando uma de suas cofundadoras, Dorothy Li, procurava fazer amizades depois de se mudar para São Francisco e começou a organizar encontros em grupo em seu apartamento com mulheres que conhecia pela internet.

Ela decidiu transformar a experiência em um aplicativo, lançado em 2024. A Real Roots, que organiza atividades para grupos de mulheres, de boliche a caça ao tesouro, está presente em 120 cidades.

A Timeleft lançou um aplicativo semelhante para organizar jantares entre desconhecidos em 2023, depois que várias tentativas anteriores fracassaram, segundo o fundador da startup, Max Barbier. Atualmente, o aplicativo está disponível em mais de 200 cidades.

Os aplicativos nem sempre fazem sucesso. Alguns usuários reclamam nas redes sociais que não conseguiram se conectar com as pessoas de seu grupo ou que as experiências podem parecer constrangedoras e artificiais.

Alex Cheney, de 34 anos, participou de vários eventos voltados à formação de amizades em cidades como Los Angeles, organizados por aplicativos como Timeleft, Groupvibe e Kin, ao longo dos últimos dois anos. No entanto, segundo ele, não conseguiu estabelecer amizades significativas.

— Quando se trata de construir uma amizade profunda, é quase como algo que você precisa explorar, criar em conjunto e desenvolver em tempo real —disse Cheney, que também havia tentado desenvolver um algoritmo de compatibilidade para encontros para tomar café. — Não sei necessariamente se é algo que se possa incorporar a um algoritmo de compatibilidade, porque você pode ter muita afinidade com alguém no papel.

Para outras pessoas, porém, a experiência tem sido mais bem-sucedida. Lauren Valenti, assistente executiva no setor financeiro, participou de um encontro da Real Roots em São Francisco em fevereiro.

Na época, Valenti, de 38 anos, era solteira e morava sozinha, enquanto muitas de suas amigas já tinham família. Ela percebeu que estava presa a um ciclo em que recorria a encontros amorosos em busca de conexão social.

Em seu primeiro encontro, realizado em um bar de vinhos, ela se aproximou de outras duas mulheres que também eram as únicas solteiras em seus respectivos grupos de amigos. Elas se sentiram tão à vontade umas com as outras que chegaram a conversar sobre assuntos pessoais, como o congelamento de óvulos.

—Foi muito bom finalmente encontrar alguém em pé de igualdade comigo e compartilhar essa conexão —disse ela. Valenti pagou cerca de US$ 290 (R$ 1.473) pelo pacote e se comprometeu a participar de uma série de encontros ao longo de seis semanas.

Hoje, ela tem um grupo de conversa com as amigas que conheceu naquele primeiro encontro e se reúne com elas regularmente. As amigas também recorrem umas às outras em busca de conselhos.

— Tem uma garota para quem estou prestes a mandar uma mensagem e dizer: ‘Amiga, tenho um monte de roupas no armário das quais estou tentando me desfazer — são todas suas, se você quiser’ — contou Valenti.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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