Por que a Cúpula de Teerã é um ponto de virada

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

O panorama foi sensacional. O Ministro da Defesa saudita, o Príncipe Khalid, irmão de MbS; o chefe da inteligência turca, Ibrahim Kalin; e o chefe militar do Paquistão, o Marechal de Campo Asim Munir, todos os três membros plenos da Aliança de Defesa de Meca, entram um suntuoso salão no proverbial palácio persa para cumprimentar – ou beijar o anel – do potentado, perdão, do secretário do Supremo Conselho de Segurança Nacional (SNSC), Moshen Rezaee, o número dois na estrutura de poder iraniana, situado logo abaixo do Líder Mojtaba Khamenei.

Aqui não se tratou de uma exibição do poderio da Aliança de Defesa de Meca – representando os neo-otomanos, os árabes e os sul-asiáticos. Aqui o que ocorreu foi a Cúpula de Teerã – tal como definida pelos persas.

O Irã só concordou em realizar essa revolucionária cúpula – na verdade sugerida por Asim Munir durante sua visita a Teerã na semana passada – fora da estrutura do acordo de Meca, e explicitamente dentro da estrutura de uma discussão sobre “segurança regional endógena”. Eles, portanto, discutiram a Palestina, o Líbano, o Iêmen, a segurança do Golfo e o Estreito de Ormuz, no espírito de reduzir as proverbiais “tensões regionais” e de pôr fim à guerra dos Estados Unidos contra o Irã e o Eixo da Resistência.

A Cúpula de Teerã talvez venha a significar a aceitação – relutante ou não – das exigências de segurança do Irã e do status definitivo do Estreito de Ormuz sendo elaborados pelo acordo Irã-Omã. Tudo depende, é claro, de qual será a decisão final da Casa de Saud.

E essa decisão está diretamente ligada a como Riad irá resolver seu mortal embate com o Iêmen. Teerã foi explícita: estamos preparados para mediar e ajudar a resolver o dossiê Iêmen.

No entanto, cabe a Riad tratar – e aceitar – as condições do Ansarallah. De outro modo, a guerra – pré-existente – irá continuar.

Desconstruindo as “sete condições” Foi o Dr.

Ali Bagheri Kani, o imensamente competente Vice-Secretário do SNSC, que ofereceu a melhor explicação do que estava sendo tratado à mesa de discussões. As quatro nações identificaram Israel como a principal fonte da instabilidade regional, tendo o Irã como seu alvo imediato e outros países vindo potencialmente (itálicos meus) a seguir.

A outra fonte são os Estados Unidos. Imaginem o Príncipe Khalid concordando com todo o citado acima.

Um acordo sobre a segurança duradoura no Oeste Asiático tem que ser construído de dentro para fora, sem depender de potências estrangeiras. Teerã se posicionou como o elo central (itálicos meus) conectando Arábia Saudita, Turquia e Paquistão.

Sintam-se à vontade para ficar estarrecidos. As quatro nações concordaram em continuar conversando.

O Irã irá coordenar a próxima reunião. Data e local não foram ainda escolhidos.

Acrescente-se a essa já surpreendente estrutura um Especial Mohsen Rezaee: ele, sem dúvida alguma, estava de muito melhor humor do que de costume. Vejam esse ponto alto:

“Sinto a presença de uma nova atmosfera na região, formada graças à resistência do povo iraniano e à capacidade de suas forças armadas. Senti uma atmosfera extremamente positiva nas discussões com esses senhores”.

Mesmo ao elogiar “o sucesso dessa discussão retórica e dessas declarações”, Rezaee manteve-se cauteloso: “Preferimos não dar qualquer declaração no momento presente, mas divulgaremos uma única declaração conjunta, na qual concordaremos no tocante a esses pontos e chegaremos a um entendimento, onde a implementação dessas questões será prática e real e daremos continuidade a elas”.

Enquanto isso, temos ainda pela frente uma tarefa de Sísifo: como forçar o Império da Pirataria a entender a diplomacia do Oeste Asiático. Bagheri-Kani: “Os Estados Unidos têm que atender às sete condições colocadas pelo Irã”.

Ele então acrescentou: “Rezaee mencionou hoje que o plano de sete dias poderia ser encurtado para cinco, ou mesmo quatro dias”. Desconstruamos esses números:

As sete condições continuam as mesmas: elas são a versão resumida daquele gato serialmente morto, o Memorando de Entendimento (MoU), que o próprio Trump rasgou e continua a afirmar que não quer dizer nada. Recapitulando: suspensão das sanções; cessação das ameaças militares; reconhecimento do direito iraniano ao uso de energia nuclear para fins pacíficos; retirada do apoio a Israel, reconhecimento do direito soberano do Irã sobre o Estreito de Ormuz; cessação da interferência nos assuntos internos do Irã; e fornecimento de garantias verossímeis contra agressões futuras.

Até mesmo os camelos no meio do Nejd sabem que os Excepcionais jamais irão cumprir qualquer um desses compromissos. O que muda agora é a linha do tempo.

Segundo o plano original, na improvável hipótese de os Estados Unidos virem a aceitar as condições, no sexto dia o Estreito de Ormuz seria aberto e, no sétimo, como em um ato de vontade divina, as negociações teriam início. A nova proposta de Rezaee só pode ser interpretada como uma gozação bem-humorada: tudo pode ser feito em cinco, ou até mesmo quatro dias.

Por que não? O que Rezaee está dizendo, em essência, é que as sete condições continuam valendo, mas se Trump estiver realmente interessado em negociar (ele não está, ele quer uma capitulação), o Irã não precisará esperar sete dias.

Quatro bastariam. O que quer que venha a acontecer a seguir – e após as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, é perfeitamente possível que seja um ataque militar trumpista – é Teerã que ainda estará no controle do relógio.

Mais as sete condições que são o prerrequisito para as negociações. Mais o fator tempo.

Mais o fato de que se nada andar, o Estreto de Ormuz permanecerá fechado. O que Bagheri-Kani e Rezaee – os dois caras mais importantes da área de segurança – estão reafirmando agora é que o Irã apresentou uma fatura ao Império da Pirataria.

Por sinal, cada item dessa fatura já foi aprovado pelo próprio presidente dos Estados Unidos, por mais que ele tente tirar o corpo fora. É “segurança endógena” ou nada

À primeira vista, a Aliança de Defesa de Meca era para ser um poderoso coletivo de alinhamento em questões de segurança/defesa liderado pelos sunitas. Mas a última coisa que o estrategicamente prejudicado Império da Pirataria poderia esperar é que o trio passaria a explorar caminhos de cooperação com a nação que eles vinham sendo forçados a tratar como uma ameaça existencial.

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