Auxiliares do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não se surpreenderam com a informação de que a Casa Branca teria participado diretamente da logística de fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos. Segundo apuração do jornal norte-americano The New York Times, que ouviu autoridades dos EUA sob condição de anonimato, o jato particular usado na viagem de Flávio, da esposa e das duas filhas teria sido providenciado por Jason Miller, aliado da família Bolsonaro e integrante da estrutura de comunicação da Casa Branca.
Para integrantes do governo Lula, já estava claro que tanto a gestão de Donald Trump quanto a de Javier Milei, na Argentina, estavam diretamente envolvidas na operação que levou o senador aos Estados Unidos. Neste momento, o governo brasileiro não pretende tomar medidas diplomáticas sobre o caso.
O alto escalão defende cautela e aguarda o resultado das eleições de meio de mandato dos EUA, as midterms, marcadas para a próxima terça-feira (3/11), antes de avaliar os próximos passos na crise que tem tensionado as relações entre os dois países. O pleito renovará todas as cadeiras da Câmara dos Representantes, um terço do Senado e 36 governos estaduais.
Pesquisas de intenção de voto indicam que os republicanos correm o risco de perder o controle de pelo menos uma das Casas do Congresso, o que enfraquecerá Trump. A avaliação de fontes do Palácio do Planalto, ouvidas sob reserva, é de que Lula não deve comentar o episódio para evitar trazer o assunto para o colo do governo federal.
De acordo com o NYT, Flávio, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e sua família entraram nos Estados Unidos por meio do chamado “parole”, mecanismo que permite a permanência temporária de estrangeiros no país por razões humanitárias urgentes ou por benefício público significativo.
Nessa quarta-feira (28/10), o presidente dos EUA confirmou publicamente que Flávio havia recebido permissão para entrar no país. Ainda segundo a publicação, o senador deve solicitar futuramente o green card, documento que concede residência permanente nos EUA.
De acordo com uma fonte ouvida pelo jornal, o pedido poderá ser processado de forma acelerada, como ocorreu com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão mais novo de Flávio, que obteve residência permanente em julho deste ano. O jornal também identificou, por meio da análise de registros públicos do governo norte-americano, indícios de que Flávio apresentou o passaporte diplomático brasileiro, já cancelado, ao chegar aos EUA.
Na segunda-feira (26/10), a Polícia Federal (PF) solicitou que o senador entregasse os passaportes em até 24 horas. A determinação foi expedida judicialmente pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
A ordem, descumprida por Flávio, ocorreu em meio a investigações sobre os vínculos do senador com o advogado brasileiro Willer Tomaz, amigo dele e acusado de lavagem de dinheiro em um esquema envolvendo bets. Flávio também é investigado por suspeitas relacionadas à arrecadação de recursos para financiar Dark Horse, filme sobre o pai, Jair Bolsonaro, com dinheiro atribuído ao banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
Segundo autoridades migratórias argentinas citadas pelo The New York Times, Flávio, a mulher e as duas filhas entraram na Argentina às 22h50 de terça-feira, pela Ponte da Fraternidade, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú. A polícia federal argentina afirmou não ter registro da entrada da família no país.
Cerca de 40 minutos depois, Flávio e seus familiares embarcaram em um avião da empresa privada Baires Fly com destino a Guayaquil, no Equador. De lá, seguiram para Miami, onde chegaram na manhã dessa quarta-feira.
O jato particular teria sido providenciado por Jason Miller, assessor de Trump. Uma pessoa familiarizada com a logística da viagem afirmou ao The New York Times que o plano começou a ser organizado na segunda-feira, após a determinação para que Flávio entregasse os passaportes.
Metropoles