Governadores de cinco Estados (AC, AM, TO, ES e RN) e do Distrito Federal foram eleitos no segundo turno neste domingo (25), sendo dois alinhados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito com 51,78% dos votos, e quatro aliados ao senador Flávio Bolsonaro (PL). Somando com o primeiro turno, 16 dos governadores eleitos declararam apoio ao bolsonarismo, outros sete ao petista e quatro ficaram neutros na campanha.
O PL foi o partido que mais elegeu governadores - seis ao todo - seguido do PSD, que elegeu cinco. O PT, Republicanos e PP elegeram quatro cada um.
O Executivo estadual de 23 dos 27 Estados e DF está nas mãos desses cinco partidos. Os resultados das urnas neste último domingo confirmam, em maioria, a previsão das pesquisas eleitorais divulgadas na véspera do pleito.
Dois candidatos conseguiram virar o placar do primeiro turno. Isso ocorreu no Tocantins, onde o deputado federal Vicentinho Júnior (PSDB) venceu a professora Dorinha (União), apoiada por Flávio Bolsonaro.
No primeiro turno, Vicentinho terminou em segundo lugar, com 43,94% dos votos válidos, ante os 45,52% de Dorinha. Vincentinho é empresário, natural de Goiânia e filho do ex-senador Vicentinho Alves.
No Rio Grande Norte, o governador eleito Cadu de Lula (PT) também conseguiu reverter a desvantagem e obteve 50,77% dos votos válidos, vencendo Alysson (União Brasil), que se manteve neutro em relação à eleição presidencial. Cadu Xavier, que adotou Cadu de Lula na urna, foi secretário da Fazenda da governadora Fátima Bezerra (PT), que ele vai suceder.
Já no Espírito Santo o ex-prefeito da capital Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) foi eleito governador ao derrotar Ricardo Ferraço (MDB), com 52,01% dos votos. Pazolini, que recebeu apoio de Flávio, se descompatibilizou da prefeitura da capital neste ano para concorrer ao governo estadual.
No Distrito Federal, a governadora Celina Leão (PP), apoiada por Flávio e pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, foi reeleita e derrotou Leandro Grass (PT). Com 98% das urnas apuradas, a candidata tinha 57,21% dos votos válidos, ante 42,79% do adversário.
Celina se tornou a primeira mulher eleita do Distrito Federal e não levou no primeiro turno por 1.089 votos. No Amazonas, foi eleito o senador Omar Aziz (PSD), apoiado por Lula, e derrotou a professora Maria do Carmo (PL).
Com 100% das seções apuradas, Aziz tinha 61,42% dos votos, contra 38,58% da adversária. Aziz, de 68 anos, retorna ao comando do Executivo amazonense após ter governado o Estado entre 2010 e 2014.
Segundo cientistas políticos, apesar de muitos dos governadores não serem alinhados com o presidente Lula, não deve haver dificuldades de governabilidade para nenhum dos lados ou reflexo no Congresso. Um exemplo é o Republicanos, que elegeu governadores nos maiores colégios eleitorais - Cleitinho, em Minas Gerais, e Tarcísio de Freitas, em São Paulo - mas, na Câmara, o presidente Hugo Motta ainda mantém apoio à base governista, além do partido ter ministérios.
O PL foi o grande vitorioso nas eleições estaduais, mas outros partidos de direita também” O que deve ocorrer, segundo especialistas, é a criação de novas coalizões e alianças políticas, inerentes ao sistema federativo brasileiro.
Para o professor André Borges, da Universidade de Brasília (UnB), apesar de o PL ter mais governadores eleitos, além de parlamentares na Câmara e Senado, isso não significa uma carta em branco para o partido - nem a nível estadual ou no Congresso. “O PL foi o grande vitorioso nas eleições estaduais, mas outros partidos de direita também tiveram bom desempenho, como o Republicanos.
Não está tudo concentrado em um único partido”, afirma. Segundo ele, ainda é preciso fazer política e trabalhar em articulações.
Ele cita como exemplo a tentativa do PL, já após o primeiro turno, de tentar negociar a presidência da Câmara. “O Hugo Motta fez uma articulação e tem apoio de 10 partidos.
Tudo indica que ele vai ser reeleito. Isso prova um equívoco tático da parte deles [do PL], porque mal acabou a eleição e eles já falavam a aliados que queriam a presidência da Câmara e do Senado.
Não é bem assim”, diz. Na visão dos especialistas, Lula deve manter a posição institucional com adversários políticos, como ocorreu com o governador Tarcísio no último mandato.
Apesar de adversários, ambos atuaram em conjunto para a construção do Túnel Santos Guarujá, primeiro submerso do Brasil, por uma Parceria Público-Privada (PPP). “Não houve qualquer tipo de boicote ou algo do tipo, o dinheiro foi repassado”, afirma o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Claudio Couto.
Na visão de Couto, a expectativa é que esse cenário se repita. “Se a gente tomar o que foi esse terceiro mandato, quando já tem uma ultra-direita em alguns governos, o Lula procurou estabelecer uma relação institucional.
A gente viu isso, por exemplo, na relação dele com o Tarcísio de Freitas e até mesmo com o [Ronaldo] Caiado, que tinha postura muito dura com questão da segurança pública, mas não houve atrito e sim divergência. Acredito que seria um cenário a se repetir”, diz.
Especialistas lembram que os apoios durante a campanha eleitoral podem ser frágeis e mudar após a vitória. Foi o caso, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe de Estado, que rompeu com o então governador de São Paulo João Doria (PSDB) e do Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC).
Além disso, governadores, sobretudo dos grandes Estados, “naturalmente são presidenciáveis em potencial”, segundo Borges, outro motivo para possíveis rompimentos. Os cientistas políticos reconhecem, contudo, que o alinhamento político ajuda durante a campanha e durante o governo pode influenciar na captação de investimentos.
“O alinhamento tem um efeito, mas hoje, menos do que no passado, porque existiu uma municipalização grande de políticas sociais. A 30 anos atrás, antes de existir o Fundeb e Fundef, os Estados realizavam essa intermediação.
Hoje, muitos programas fazem a transferência direta aos municípios, baseado em critérios mais universalistas, então reduziu esse espaço para barganha”, completa Borges. Na sua avaliação, ganharam destaque entre as candidaturas estaduais a governadora Raquel Lyra, reeleita em Pernambuco, que mesmo se mantendo neutra em relação à campanha nacional, venceu João Campos (PSB), ex-prefeito de Recife e que tinha apoio do presidente Lula.
Outra figura relevante foi Cleitinho (Republicanos), eleito no primeiro turno em Minas Gerais com 55,40%.
Valor