O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta na proximidade com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para conter o avanço da oposição no Congresso a partir do próximo ano e garantir a aprovação das pautas de interesse do governo.
A relação com o Parlamento no terceiro mandato foi marcada por altos e baixos, mas a expectativa é de maior tensionamento a partir da próxima legislatura, diante do crescimento expressivo da bancada do PL na Câmara e no Senado. O próprio Lula falou da relação com o Congresso no primeiro discurso após ser reeleito, falando das dificuldades que ele deverá ter diante de uma base de minoria da esquerda:
— Já tem gente falando “o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador”. Eu não escolhi o Congresso.
Foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas— disse.
Os dois parlamentares acompanharam a apuração de votos com aliados em Brasília, neste domingo. Após a proclamação do resultado, fizeram um pronunciamento à imprensa reconhecendo o respaldo das urnas.
Aliados do petista afirmam que a correlação de forças no Parlamento exigirá essa aproximação com os partidos do Centrão, mas defendem uma mudança na postura dessas siglas, que têm espaço na Esplanada mas não votam no Congresso necessariamente seguindo orientações do Palácio do Planalto.
A primeira tarefa, dizem aliados de Lula, será trabalhar pela recondução de Motta e Alcolumbre a partir de fevereiro. A avaliação é que é preciso garantir a manutenção deles nos cargos para estabelecer um canal de diálogo com a cúpula do Congresso.
Nas últimas semanas, os políticos destravaram propostas de interesse do governo (e considerados trunfos eleitorais), atendendo a pedidos do Palácio do Planalto. Os dois têm sido elogiados pelo entorno de Lula.
Alcolumbre foi considerado durante boa parte do Lula 3 como um ponto de governabilidade no Parlamento. Ele se afastou do petista, no entanto, após ser apontado pelo Planalto como um dos orquestradores da derrota de Jorge Messias para uma vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Alcolumbre e Lula ficaram cerca de três meses sem conversar, mas retomaram o diálogo em agosto, tendo como pano de fundo as eleições. Durante o afastamento de Alcolumbre e Lula, Motta buscou se aproximar do presidente da República, já que buscava eleger o pai dele, o ex-prefeito Nabor Wanderley (Republicanos-PB), para uma vaga ao Senado com apoio do presidente.
Wanderley não foi apoiado oficialmente por Lula e foi derrotado. Apesar disso, Motta é considerado um aliado importante do petista e deverá ter influência na escolha de aliados para compor a Esplanada.
A expectativa de integrantes da articulação política de Lula é que a Presidência poderá usar instrumentos para ajudar os aliados a serem reconduzidos. Além disso, os próprios congressistas dispõem de ferramentas para ajudar a atrair apoio dos parlamentares.
Na mesa aparecem propostas como gabinetes no Congresso e apartamentos funcionais; relatorias de projetos importantes; espaço em comissões; lugar na Mesa Diretora e, até mesmo, a repartição das emendas parlamentares. O cenário de Alcolumbre é considerado mais delicado, mesmo diante da vitória do presidente neste domingo, diante do crescimento da bancada do PL (que terá agora 28 senadores) e de parlamentares bolsonarismo que defendem o avanço de propostas que miram a atuação do STF, sobretudo o pedido de impeachment de ministros da Corte.
Diversos senadores eleitos de direita, como Guilherme Derrite (PP-SP), André do Prado (PL-SP), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Deltan Dallagnol (Novo-PR) e Evair de Melo (Republicanos-ES) descartam qualquer acordo para apoiá-lo. O PL já definiu que terá candidato na disputa para fazer frente ao presidente do Senado.
O nome mais cotado é o de Rogério Marinho (PL-RN), que foi coordenador-geral da campanha de Flávio. A ex-ministra Tereza Cristina (PP-MS) também demonstrou interesse em concorrer.
Apesar disso, aliados de Alcolumbre apostam na capacidade do parlamentar de “se reinventar” e falam da habilidade política e do carisma dele para conseguir apoio para ser reeleito ao cargo. Ao longo dos anos, conseguiu formar uma base de apoio própria na Casa (com parlamentares até mesmo do PL), o que também ajudará nesse processo.
Motta, que preside uma Casa onde a correlação de forças é mais pulverizada, tem conseguido adiantar acordos para se preparar para a pressão do PL de Flávio de fazer o próximo presidente da Câmara. Na última semana, conseguiu indicativo de apoio de 13 partidos: PP, União Brasil, Republicanos, PSD, MDB, PSDB, Cidadania, Podemos, Solidariedade, PRD, Avante, PSB e PDT.
Nos bastidores, parlamentares do PT reconhecem que o partido também deverá defender a recondução do presidente da Casa em anúncio nesta semana. Apesar disso, a vitória não está garantida.
Isso porque a votação é secreta, então não há garantias de adesão dos parlamentares desses partidos ao nome de Motta. A preocupação de Motta é não dividir o seu grupo de apoio dentro do Centrão e manter essa unidade até o dia da eleição para presidência da Câmara.
Para isso, ele buscou neutralizar um movimento de candidatura própria do PSD e obteve o apoio do líder da sigla, Antonio Brito, que era apontado como um possível candidato a comandar a Casa.
O Globo