A cotação internacional do petróleo tipo Brent atingiu US$ 117 por barril na sexta-feira (23), o maior patamar registrado desde maio de 2026. Impulsionada pelo nono mês da guerra no Oriente Médio, a commodity acumula valorização de cerca de 80% no ano e pressiona o governo federal sobre a manutenção de subsídios aos combustíveis em 2027, além de colocar em xeque a política de preços do diesel da Petrobras após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25).
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou na sexta-feira (23) que a União poderá manter as subvenções no próximo ano caso o barril continue em nível elevado e gere arrecadação extraordinária com royalties e tributos do setor. Já a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, declarou que “ninguém imaginou que nós íamos ter um final de outubro com o barril a US$ 116”.
Desde o início do conflito militar no Oriente Médio, o custo do óleo diesel vendido pela Petrobras para as distribuidoras permaneceu praticamente inalterado, enquanto a gasolina subiu menos do que as cotações externas devido às desonerações tributárias e subvenções federais. Sem essas medidas, o repasse integral da alta internacional afetaria diretamente o preço nas bombas para motoristas e o custo do transporte de cargas no país, pressionando a inflação de alimentos.
A subvenção ao óleo diesel, que havia sido prorrogada em setembro até 25 de outubro de 2026, deve ser estendida por pelo menos mais 30 dias para conter o repasse imediato. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) calcula que a defasagem no preço do diesel praticado pela Petrobras em relação ao mercado internacional gira em torno de 100%.
Em relatório, analistas do banco Goldman Sachs apontam que o preço realizado do combustível pela estatal, mesmo incluindo os subsídios governamentais, está 21% abaixo da paridade internacional, sob uma assimetria que favorece o produto importado em relação ao refinado internamente.
Essa diferença pode resultar em um forte reajuste após o período eleitoral. Continue lendo: Luiz Inácio Lula da Silva veta apostas e aciona Caixa para saques
Ainda assim, a decisão oficial sobre a extensão da subvenção ao diesel por mais 30 dias e o eventual reajuste nos preços pela Petrobras após o segundo turno ainda não haviam sido formalizados até a publicação das declarações. Para estender o alívio nos preços dos combustíveis até 2027, a equipe econômica precisará enviar uma nova proposta ao Congresso Nacional, pois o entendimento atual que permite uma flexibilização temporária da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), legislação que estabelece normas de controle para as finanças públicas, vale apenas para o exercício de 2026.
Essa regra extraordinária autoriza o governo federal a compensar a renúncia de receita tributária utilizando a arrecadação extra obtida com os dividendos e royalties do próprio petróleo em razão do conflito no exterior. “Se o Brent continuar em patamar muito elevado e a gente seguir percebendo que vai ter recurso adicional, é sim possível, e acho que essa deve ser a proposta do presidente, manter essa ajuda para suavizar.
Não é para tabelar preço, congelar preço, mas para evitar que a inflação estoure e prejudicar o prato de comida”, disse Durigan sobre o plano do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro acrescentou que não solicitará alteração nas metas: “Eu não vou pedir mais espaço fiscal, não vou gastar mais”.
Relatório de economistas da XP publicado na sexta-feira (23) mostra que o impacto nas contas públicas muda conforme a cotação da matéria-prima: “Como o Brasil é um importante produtor de petróleo, parte do custo dessa política é compensada pelo aumento das receitas governamentais decorrente dos preços mais elevados do petróleo.
Com preços acima de US$ 105 por barril, o impacto fiscal líquido torna-se positivo, criando espaço para ampliar os gastos com subvenções a fim de mitigar o impacto inflacionário”. Os principais números financeiros e operacionais do setor de óleo e gás em 2026 incluem:
O orçamento federal de 2026 foi elaborado pela equipe econômica considerando uma projeção de preço do petróleo a US$ 64 por barril, valor muito inferior à cotação acima de US$ 100 registrada nos últimos meses, o que gerou a receita extraordinária usada para custear os subsídios em vez de ampliar o resultado primário das contas públicas.
Entre junho e julho de 2026, o ministro Dario Durigan chegou a condicionar o encerramento das subvenções à estabilização do barril em torno de US$ 80, mas o agravamento das hostilidades no Oriente Médio impediu esse recuo e levou o diretor de Análise da Zero Markets, Marcos Praça, a apontar que o governo terá de escolher entre manter o subsídio com algum “malabarismo econômico” ou enfrentar o “descontentamento da população” com a alta nas bombas.
Durigan declarou também que o governo avaliará a manutenção do imposto de exportação sobre óleo cru. O tributo foi criado durante a guerra com caráter regulatório para direcionar a produção nacional às refinarias domésticas e garantir o abastecimento interno, tendo efeito arrecadatório secundário.
No comércio exterior, as dificuldades de navegação pelo Estreito de Ormuz e o conflito no Golfo Pérsico fizeram o Brasil ultrapassar a Arábia Saudita como o segundo maior fornecedor de petróleo bruto para a China nos primeiros nove meses de 2026. Dados alfandegários chineses mostram que o país asiático importou 44,29 milhões de toneladas de óleo brasileiro no período, superando as 43,12 milhões de toneladas adquiridas dos sauditas.
A Rússia manteve a liderança no fornecimento à China, com 9,94 milhões de toneladas em setembro (2,42 milhões de barris por dia), alta de 20% na comparação anual e queda de 11% ante agosto. A tensão geopolítica mantém a pressão sobre os preços globais de energia.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no sábado (24) que “está chegando a hora de decidir” entre fechar um acordo com Teerã ou “acabar com tudo”, após o governo norte-americano ordenar a retirada de pessoal diplomático do Oriente Médio. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que, se houvesse racionalidade, “eles não tentariam” um ataque, enquanto o país prepara medidas de retaliação.
“O aumento dos conflitos na região, aliado à preocupação de que uma escalada esteja próxima, significa que os mercados de petróleo precisam precificar o risco de esgotamento dos estoques de petróleo e derivados”, afirmou o analista do Commonwealth Bank of Australia, Vivek Dhar, em nota.
Os investidores acompanham agora a realização das eleições em Israel nesta segunda-feira (26), a reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) para definir a taxa básica de juros norte-americana e as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro de 2026.
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