A Amazônia escondeu por milênios sociedades complexas, com estradas, praças e estruturas monumentais. Pesquisas recentes, publicadas nas revistas Nature e Science, revelam as formas de organização de povos indígenas que ocuparam a região há milhares de anos.
Estas construções desafiam a antiga ideia de uma floresta intocada e pouco habitada. Por muito tempo, a região foi retratada como uma floresta intocada, com populações pequenas e dispersas.
Contudo, descobertas arqueológicas das últimas décadas revelam um cenário distinto. Milhares de anos antes da chegada dos europeus, povos indígenas já construíam estruturas monumentais, organizavam assentamentos e modificavam a paisagem.
Dois novos estudos científicos, divulgados em periódicos internacionais, ajudam a compreender essa história complexa. Um deles, na Nature, identificou centenas de estruturas geométricas no Acre e Amazonas.
O outro, na Science, revelou uma extensa rede de assentamentos antigos no Vale do Upano, na Amazônia equatoriana. Tecnologia LiDAR desvenda o passado da Amazônia
As pesquisas usaram a tecnologia LiDAR, que mapeia o terreno por meio de pulsos de laser. Elas investigam regiões diferentes e encontraram vestígios de ocupações com características próprias.
Os resultados mostram a diversidade e complexidade das sociedades que viveram na região. As descobertas não indicam necessariamente uma única civilização amazônica.
Estruturas antigas no Acre e Amazonas A pesquisa na Nature analisou cerca de 4.500 km² no Acre e Amazonas, usando LiDAR.
O levantamento identificou 432 estruturas arqueológicas, das quais 36 já eram conhecidas. Mais de 90% dos registros encontrados eram inéditos para os pesquisadores, revelando uma vasta rede de antigas construções.
Com base nos dados e projeções, cientistas estimaram a existência de 24 mil a 30 mil estruturas semelhantes na região. Este número é uma extrapolação e não corresponde à quantidade de construções já identificadas.
A estimativa aponta para uma ocupação bem mais densa e complexa. Entre os vestígios encontrados estão geoglifos e estruturas geométricas escavadas no solo, além de valas e caminhos.
As datações por carbono-14 indicam que parte dessas construções ocorreu entre 600 a.C. e 850 d.C., mostrando sua antiguidade.
Pesquisadores levantam a hipótese de que algumas estruturas funcionaram como espaços cerimoniais e políticos. A interpretação aponta para organização coletiva e ocupação planejada do território.
Contudo, isso não significa que todos os locais eram cidades ou centros urbanos nos moldes atuais. O estudo também estima a população para o período de maior uso das estruturas.
Um cenário aponta para 1,2 milhão a 3 milhões de pessoas, entre 100 e 300 d.C. Outra possibilidade, mais conservadora, sugere 250 mil a 600 mil habitantes.
Os números são preliminares e exigem mais investigações. Vale do Upano e suas cidades conectadas
Na Amazônia equatoriana, a pesquisa na Science identificou outra organização territorial. No Vale do Upano, foram encontradas evidências de assentamentos que reuniam praças, moradias, áreas agrícolas e estradas.
Estas construções foram erguidas há cerca de 2.500 anos. O arqueólogo francês Stéphen Rostain liderou o trabalho, que combinou décadas de escavações com levantamentos LiDAR.
Mais de 6 mil plataformas de terra e 15 assentamentos foram identificados. Eles estão distribuídos por cerca de 300 quilômetros quadrados, indicando uma vasta ocupação.
Uma característica distintiva é a rede de estradas largas e retilíneas que conectava os assentamentos. As vias indicam que as comunidades mantinham conexões entre diferentes áreas.
Essa organização envolvia circulação de pessoas e integração dos espaços habitados. Trata-se de uma verdadeira rede urbana antiga.
A pesquisa também identificou terraços agrícolas, campos de cultivo e sistemas de drenagem. Esses elementos mostram que os habitantes desenvolveram técnicas para produzir alimentos.
Eles adaptavam o terreno às suas atividades cotidianas, demonstrando grande conhecimento de engenharia. As estruturas estão associadas às culturas Kilamope e Upano.
As primeiras plataformas foram construídas por volta de 500 a.C. A ocupação da região se estendeu até aproximadamente 300 a 600 d.C., abrangendo um longo período histórico.
As diferenças entre as duas grandes descobertas Apesar do uso de tecnologia semelhante, os estudos identificaram vestígios arqueológicos distintos.
Eles ajudam a compreender diferentes formas de ocupação da Amazônia pré-colonial. Cada pesquisa revela um aspecto único da história da região.
No Acre e Amazonas, a pesquisa foca em geoglifos e estruturas geométricas para atividades cerimoniais e políticas. No Vale do Upano, Equador, os vestígios mostram assentamentos com plataformas de moradia, praças, áreas agrícolas e estradas que conectavam comunidades.
As abordagens são complementares. Localização: Um estudo no Acre e Amazonas (Brasil); o outro no Vale do Upano (Equador).
Vestígios: No Brasil, geoglifos e estruturas geométricas; no Equador, plataformas, praças, estradas e áreas agrícolas. Organização: Estruturas brasileiras como espaços cerimoniais/políticos; no Equador, assentamentos conectados por rede de circulação.
Métodos: Ambos usaram LiDAR; pesquisa equatoriana também incluiu décadas de escavações. Foco: Estudo brasileiro projeta estruturas e populações; equatoriano destaca distribuição e infraestrutura.
Não há evidências de uma única civilização amazônica As descobertas têm uma relação importante: ambas reforçam que a Amazônia pré-colonial abrigou sociedades indígenas.
Elas eram capazes de construir estruturas complexas, organizar espaços coletivos e transformar o ambiente em que viviam. Isso muda a percepção sobre a região.
Isso não significa que os grupos pertencessem à mesma civilização ou tivessem contato direto. Os estudos analisam territórios diferentes, com vestígios e trajetórias históricas próprias.
As informações atuais não comprovam uma ligação direta entre essas populações. A diversidade é a chave.
A tecnologia LiDAR foi crucial, pois identifica alterações no relevo sob vegetação densa. Contudo, os resultados precisam ser interpretados em conjunto com escavações, datações e outras evidências arqueológicas.
A combinação de métodos garante a precisão das descobertas. Em vez de uma única sociedade, as descobertas revelam um mosaico de comunidades com diversas organizações.
Os vestígios ampliam o conhecimento sobre a história indígena. Eles mostram que a floresta amazônica foi, por milhares de anos, um território habitado, transformado e organizado por seus povos originários.
Isso reescreve a história da região.
O Liberal