Perfis usam IA para inserir mulheres em campanhas e atrair seguidores

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Uma tática digital que combina montagens políticas e imagens criadas por inteligência artificial vem sendo utilizada nas redes sociais com o objetivo de capturar a atenção de internautas e comercializar material pornográfico, segundo reportagem da BBC News Brasil. A investigação mapeou 37 contas ativas no Instagram e no TikTok operando com avatares de mulheres virtuais fabricadas por algoritmos. As publicações exibem essas figuras fictícias em atos públicos ou vestindo roupas com símbolos associados ao presidente Lula (PT) e, em volume significativamente maior, ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.

A engenharia por trás do esquema utiliza pautas em alta — como a polarização partidária — para alavancar a contagem de inscritos e encaminhar o público para plataformas como OnlyFans e canais do Telegram. Nestes locais fechados, a comercialização de assinaturas e conteúdos eróticos ocorre por meio de intermediárias financeiras e transferências para o exterior.

Em um dos episódios de maior alcance relatados pela apuração, uma personagem virtual foi inserida digitalmente no topo de um trio elétrico no Farol da Barra, em Salvador (BA), ao lado de Flávio Bolsonaro, gerando um registro editado que acumulou centenas de milhares de visualizações. Na mesma conta onde divulgava convites para transmissões eróticas e produções explícitas, a avatar artificial ocupava, em quadros originais, as posições que pertenciam ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e à ex-candidata Cristina Graeml (PSD). A reportagem registrou que a página chegou a ficar indisponível no início da manhã de terça-feira (20), mas retornou ao ar no mesmo dia ostentando mais de 500 mil seguidores.

Somadas, as 37 páginas contabilizam um alcance próximo de 7 milhões de seguidores. O levantamento detalhado revelou mais de 504 mil interações registradas, quantitativo que engloba 18,6 mil comentários e cerca de 500 mil reações do público. Na quase totalidade dos casos, os administradores omitiram os avisos de criação por computador, descumprindo as diretrizes oficiais das próprias plataformas.

Interpelada sobre as constatações, a Meta declarou: “temos regras contra nudez e atividade sexual de adultos e removemos conteúdos violadores quando identificados. A Meta emprega amplos esforços, incluindo o investimento em tecnologia, para mitigar os riscos de que tais conteúdos circulem em suas plataformas”.

Por sua vez, o TikTok informou que “os conteúdos compartilhados pela reportagem foram removidos da plataforma por violarem nossas Diretrizes da Comunidade”. Em complementação, a empresa apresentou suas regras sobre mídias sintéticas e integridade eleitoral, enfatizando: “valorizamos as discussões e debates, mas não toleramos conteúdo que possa confundir eleitores ou causar prejuízos concretos. Isso inclui a desinformação que possa impedir o exercício do voto, interferir no processo eleitoral ou incentivar ações ilegais que comprometam a integridade dos resultados. É proibida, também, qualquer forma de desinformação que possa causar danos significativos às pessoas ou à sociedade”.

Apesar de não ter sido possível identificar os proprietários dos perfis, conexões estruturais indicam a atuação de uma rede coordenada. As páginas interagem entre si e convergem a audiência para um mesmo canal no Telegram, cuja contagem superava 50 mil participantes.

O modelo de negócio internacionaliza táticas já vistas no exterior. Conforme apurou a revista Wired em abril deste ano, um estudante de medicina na Índia faturava milhares de dólares mensais mantendo um perfil falso de uma suposta enfermeira norte-americana apoiadora de Donald Trump, utilizando a conta para comercializar vestuário partidário e fotografias sensuais. Da mesma forma, na Alemanha, uma apuração do veículo CORRECTIV.Faktencheck mapeou 190 contas vinculadas a 22 avatares virtuais que promoviam ideais de extrema-direita e o partido AfD enquanto direcionavam o tráfego para redes pagas de apelo erótico.

A articulação entre ativismo político e erotismo sintético reflete uma dinâmica focada na monetização e na exploração da imagem. Um dos perfis analisados exibe uma figura simulada vestindo trajes nas cores da bandeira nacional com o rosto de Flávio Bolsonaro em um ambiente de academia, identificando-se falsamente como uma estudante de Biomedicina de 21 anos do Rio Grande do Sul. Em contrapartida, contas no TikTok veiculavam simulações de grupos femininos usando camisetas vermelhas em manifestações pró-PT.

Analisando o cenário, a presidente do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), Raquel Saraiva, aponta que a tática de atrelar o apelo estético ao contexto eleitoral integra uma estratégia comercial unificada. “Quem produz esse conteúdo faz o pacote completo”, afirma a especialista. Saraiva pontua que os operadores reproduzem padrões estéticos voltados ao público masculino heterossexual para acelerar a venda do material. Ela vincula a estrutura à objetificação e à misoginia estrutural: “nada disso é dissociado da misoginia na sociedade. Tudo é uma grande cadeia”, destaca a pesquisadora, cobrando uma fiscalização mais assertiva por parte das grandes empresas de tecnologia.

O oportunismo da rede fica evidente em contas que alternam a militância simulada entre correntes opostas. Um perfil com 175 mil inscritos exibe a mesma avatar trajando vestimenta vermelha com a imagem de Lula e, em outra postagem, um vestido verde estampando o rosto de Flávio Bolsonaro. Padrão semelhante ocorre em uma conta de 18 mil seguidores, onde a mesma figura aparece vestida com manifestações de apoio a ambos os campos e frases como “Sou trans e apoio o Lula” e “Eu sou trans e fecho com Flávio Bolsonaro”.

Nos espaços de comentários, a reação da audiência varia entre mensagens de apoio eleitoral, cantadas dirigidas às figuras virtuais e alertas sobre a falsidade das imagens. “IA tá começando a confundir a galera”, registrou um dos internautas.

A conversão da atenção política em vendas via figuras artificiais no debate público nacional já havia sido documentada anteriormente. A BBC News Brasil registrou o caso de um avatar que simulava uma mulher idosa tecendo críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao governo federal, alcançando 8,8 milhões de visualizações em um único vídeo. Após ser alvo de acionamento judicial pelo PT no Tribunal Superior Eleitoral, a conta foi derrubada, sendo recriada meses depois. O responsável, Daniel Cristiano dos Santos, declarou que atua como motorista de aplicativo e utiliza as páginas para complementar a renda, definindo os temas a partir de levantamentos sobre o engajamento das redes sociais, além de comercializar treinamentos e prestar serviços de computação gráfica para terceiros.

A transição direta entre o engajamento político e a propaganda comercial também foi mapeada em agosto pela agência Lupa. A investigação constatou que perfis no TikTok migraram da publicação de montagens profundas com fotos e vídeos manipulados de Lula e Bolsonaro para a utilização de personagens femininas sedutoras criadas por inteligência artificial, focadas no anúncio de vestuário e produtos domésticos.

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